Seis meses após referendo, Reino Unido ainda não sabe o que fazer sobre o Brexit

Christoph Scheuermann

  • Kirsty Wigglesworth/AP

    Theresa May, premiê britânica, ainda não apresentou o planejamento para a saída da UE

    Theresa May, premiê britânica, ainda não apresentou o planejamento para a saída da UE

Seis meses após o referendo para saída da UE, o governo britânico ainda não tem um plano para deixar o bloco. O que o 'Brexit' realmente significa?

Eles vieram aqui à procura de respostas. Estudantes, pensionistas, casais, homens com aparência cansada após um longo dia de trabalho, mulheres segurando uma taça de vinho tinto, cerca de 60 pessoas ao todo. Membros da classe média de Londres estão reunidos no Tabernáculo, uma ex-igreja no bairro de Notting Hill.

Eles têm muitas perguntas. O que acontecerá quando o Reino Unido sair da União Europeia? O país ficará mais pobre? E que tipo de sociedade se desenvolverá aqui na periferia da Europa? 

O ingresso para o evento dessa noite em Notting Hill: "O Efeito Brexit: Como o Brexit mudará a vida, trabalho, política e negócios no Reino Unido", custa 26 libras (cerca de R$ 101) e eventos semelhantes estão brotando por todo o país ultimamente. Há discussões e conferências e cada um desses eventos oferece prova do vácuo que surgiu após o referendo, da considerável sede por respostas. Também há uma dúzia de livros sobre o 'Brexit' (apelido para a saída do Reino Unido da União Europeia) no mercado, já que as editoras buscam preencher esse vácuo. Ao menos alguém parece estar lucrando com a saída do país da UE. 

Um homem vestindo um terno escuro sobe ao palco. Anand Menon é um professor de política europeia no renomado King's College de Londres. Outro especialista. Se há alguém que sabe o futuro (ao menos os contornos dele), essa pessoa é Menon. Mas Menon também parece estar perdido. Ele pede desculpas, pois também não tem ideia do que acontecerá. 

Um ingresso de 26 libras por respostas que ninguém pode oferecer. Não nesta noite, não em Notting Hill e, de fato, em nenhum lugar no Reino Unido. Até o momento, o governo de Theresa May não apresentou nada que ofereça a menor pista sobre para onde esta jornada levará o Reino Unido. Em vez disso, a estratégia da primeira-ministra tem sido se concentrar em lugares-comuns vazios. "Faremos disso um sucesso", "Brexit significa Brexit" ou "quero fechar o melhor acordo possível para o Brexit". 

Mas a cada dia que passa, um número crescente de mensagens contraditórias sai de seu gabinete. O Reino Unido permanecerá membro da união aduaneira? O país continuará contribuindo para o orçamento da UE? Cidadãos da UE algum dia serão deportados do Reino Unido? No início de dezembro, May até mesmo fez uma aparição no convés de um navio da Marinha britânica no Golfo Pérsico, dizendo para sua plateia: "Quero uma Brexit vermelha, branca e azul". 

Jovens britânicos reagem ao 'Brexit'

Graves consequências 

Isso poderia ser engraçado se a falta de planejamento não tivesse graves consequências. Em menos de três meses, May planeja fazer uso do Artigo 50, notificando oficialmente a União Europeia da intenção do Reino Unido de se retirar do bloco. Enquanto isso, os preços dos alimentos e bens de consumo estão subindo, em parte porque a libra esterlina sofreu uma desvalorização significativa desde o final de junho. O governo espera uma queda no orçamento de 122 bilhões de libras ao longo dos próximos cinco anos, com aqueles que têm menos provavelmente sendo os que mais sofrerão. May disse que realizará um grande discurso neste mês, delineando a forma de Brexit que ela aspira. 

Passados seis meses do referendo pelo Brexit, o Reino Unido se vê em um estado de inquietação interna. A primeira-ministra prometeu reconciliação, mas pouco disso é sentido. Até mesmo os membros de seu próprio governo estão se rebelando. Na última terça-feira, um nervoso embaixador britânico para a UE em Bruxelas, Ivan Rogers, renunciou ao cargo, uma perda imensa, já que ninguém mais conhece Bruxelas e os parceiros da UE tão bem quanto ele. Seu sucessor será o ex-embaixador do Reino Unido em Moscou, um diplomata que ocupou um cargo em Bruxelas pela última vez há seis anos. 

Além disso, a maioria dos membros do Parlamento britânico é contrária a um Brexit 'duro'. Uma coalizão não partidária, não oficial, se formou na Câmara Baixa buscando impedir o Reino Unido de romper todos seus laços com a UE. "É uma guerra de falsidades", diz Anand Menon no palco em Notting Hill, acrescentando que a batalha entre os defensores do Brexit e seus oponentes está mais suja do que nunca. "É como 1940, só que com Twitter." Ele acrescenta que para aqueles à procura de certeza e segurança, talvez a melhor opção seja emigrar. 

'E agora?'

No fundo do auditório à direita, uma mão é levantada. "Eu tenho uma casa na Espanha", diz um idoso. "E agora?" De fato. E agora? 

A pergunta paira sobre o país como uma tempestade em formação. A parte estranha é que em Westminster, o centro do poder, uma espécie de serenidade ignorante prevalece, apesar da incerteza. Se você der ouvidos aos políticos, conselheiros e aqueles que lutaram pelo Brexit, você encontra uma frente unida de otimismo inabalável. Faz parecer como se uma grande parte do governo tivesse criado um universo paralelo no qual as leis da lógica foram suspensas e todo mundo acredita que tudo, de alguma forma, ficará bem, desde que continuem sorrindo. 

Essa desconexão entre desejo e realidade pôde ser observada na cúpula da UE em meados de dezembro. Em Bruxelas, a primeira-ministra permanecia entre seus pares como se fosse invisível, completamente ignorada. À volta dela, os participantes da cúpula apertavam as bochechas uns dos outros, mas ninguém falava com a primeira-ministra e ela não foi convidada ao jantar conjunto. Pelo Twitter, as pessoas a apelidaram de "Theresa No Mates" (sem companheiros). 

REUTERS/Kevin Lamarque
Theresa May (canto esquerdo) em reunião com líderes mundiais em Berlim, em novembro

May passou por uma transformação notável nos últimos meses. Ela votou pela permanência do Reino Unido na UE, mas passadas semanas após sua posse, ela não estava nem mesmo disposta a oferecer aos cidadãos da UE que vivem no Reino Unido uma garantia de que poderiam ficar.

Em outubro, ela permitiu que sua ministra do Interior especulasse sobre a possibilidade de obrigar as empresas britânicas a apresentarem listas de seus funcionários estrangeiros e seu ministro da Saúde levantou o fantasma da demissão de médicos de outros países da UE. Como acontece com frequência com convertidos, parece que May está buscando se tornar a mais passional defensora do Brexit no Reino Unido. 

Em seu discurso de ano novo, ela baixou um pouco o tom e falou sobre o "Reino Unido realmente unido" que deseja construir. Mas politicamente, ela continua sendo uma linha-dura. Ela insiste que garantirá o acordo certo para o Reino Unido assim que se sentar à mesa de negociação em Bruxelas.

Alienação na Europa

No Reino Unido, essa aura de dureza tem ajudado, particularmente por ela contar com o jornal "Daily Mail", de direita, e seus 3,5 milhões de leitores, ao seu lado. Mas isso a está prejudicando no restante da Europa. O Reino Unido dependerá da boa vontade dos outros países da UE caso May deseje concluir as negociações de separação até 2019. Ela também terá que compensar o hiato até que um acordo de livre comércio britânico-europeu possa ser fechado. 

Gradualmente, está crescendo o reconhecimento, até mesmo dentro do campo do Brexit, de que a separação limpa da UE sonhada por muitos nunca acontecerá. Mesmo Liam Fox, o ministro para o Comércio Internacional, disse recentemente que o Reino Unido pode, no final, permanecer como membro parcial da união aduaneira da UE.

"No momento, tudo e nada é possível", diz Stephen Booth. Ele concordou em ser entrevistado em seu escritório perto de Downing Street, que é lotado de pilhas de papéis e caixas de papelão. Este é o escritório da Open Europe (Europa Aberta), uma pequena organização alinhada com o governo, com seis funcionários, que exerceu um papel central no referendo. Booth e seus colegas apresentam ideias aos poderes constituídos e preparam opções políticas para o governo. A Open Europe apoia uma ampliação da zona de livre comércio, apesar de sem o protecionismo e a burocracia centralizada de Bruxelas. Em outras palavras: ela apoia uma Europa sem grande parte da UE.  

'Queremos continuar exercendo um papel na Europa' 

Booth diz que o debate a respeito da saída é unidimensional e concentrado demais no mercado único, na união aduaneira e na moeda. Ele argumenta que o governo britânico deveria expandir sua visão e falar de forma mais fundamental sobre a segurança no continente, sobre as estratégias para lidar com a Rússia e a Síria, sobre os migrantes britânicos no continente e sobre os cidadãos da UE que vivem no Reino Unido. Em outras palavras, questões onde os britânicos podem ganhar algo. 

"Queremos continuar exercendo um papel na Europa", diz Booth. É um apelo a May para que finalmente siga em frente e desenvolva uma estratégia para a Europa. Booth acredita que o Reino Unido lucraria se o debate do Brexit fosse expandido para incluir segurança e política externa. Mas o problema é que o governo já está atingindo o limite de sua capacidade e conta com número insuficiente de pessoas ao seu dispor. Os cortes realizados nos últimos anos fizeram com que o número de funcionários do governo caísse ao nível mais baixo desde a Segunda Guerra Mundial. 

Além da primeira-ministra, outra pessoa terá um papel central no Reino Unido no ano que vem, uma que não é conhecida por muitas pessoas fora de Westminster, um homem de cabelo grisalho, testa alta e um sorriso malicioso. David Davis entra em uma sala de conferência no Parlamento em uma tarde nublada. Como ministro do Brexit, o trabalho dele é fazer o melhor em meio ao caos.

Os 21 membros do Parlamento do Comitê para a Saída da União Europeia estão olhando para ele a partir de um semicírculo. Os parlamentares são os supervisores de Davis e de seu ministério. Infelizmente, não há muito o que monitorarem no momento, pois Davis também carece de um plano. Talvez isso explique sua abordagem relaxada. 

Parlamento britânico pressiona por detalhes sobre o Brexit

A primeira pergunta feita no dia é: quando Davis apresentará seu plano para as negociações do Brexit? 

"Assim que pudermos", diz Davis, mas é improvável que isso aconteça antes de fevereiro. 

Ele está buscando um arranjo de transição até que um acordo de livre comércio esteja pronto? "Depende do que você quer dizer com arranjos de transição", ele responde. 

E o que aconteceria se o Reino Unido não conseguisse chegar a um acordo com a UE após dois anos? "Faremos planos de contingência para todos os resultados prováveis", ele diz. Ele não oferece nada mais concreto. 

Davis tem 68 anos e a negociação do Brexit pode muito bem ser seu último trabalho. Por que deixaria seu humor ser azedado no crepúsculo de sua carreira? Ele fala sobre a Turquia, a união aduaneira, Gibraltar e a Agência Europeia de Medicamentos com a postura despreocupada de um homem prestes a se aposentar. Seu ministério emprega 330 pessoas, o melhor que seu país tem a oferecer, ele diz. Após duas horas e 123 perguntas, os membros do comitê partem tão informados quanto estavam ao chegarem. 

O Reino Unido tem seis diferentes áreas que precisa negociar nos próximos anos, incluindo a complicada separação da UE, o acordo de livre comércio britânico-europeu, um acordo interino e a cadeira do Reino Unido na Organização Mundial do Comércio. Também precisará realizar negociações com os 53 países com os quais a UE fechou acordos de comércio, assim como consultas a respeito de futura cooperação com a UE nas áreas de policiamento, inteligência e questões de segurança. Serão as negociações mais complicadas na história britânica, com milhares de páginas de documentos. 

De modo impressionante, as pessoas que foram particularmente mais ruidosas até o referendo agora estão em silêncio. O ministro das Relações Exteriores, Boris Johnson, fez um discurso sobre política externa e um "Reino Unido Global" no início de dezembro, mas ele também carece de uma ideia precisa de como as negociações com a UE devem ser realizadas.

Andrew Matthews/ Reuters
Boris Johnson, ministro das Relações Exteriores, não parece ter ideia precisa sobre como o Reino Unido deve negociar com a UE

O sucesso de May medido pelo Brexit 

O verdadeiro trabalho a respeito do Brexit está ocorrendo não no ministério de David Davis, mas no nº 10 de Downing Street. É aí onde May reuniu um comitê ministerial que está elaborando as diretrizes para o Brexit e tomando decisões. O comitê é o núcleo do trabalho do governo. Ele se reúne por trás de portas fechadas e conta com 12 membros, composto por um número igual de apoiadores e opositores do Brexit. Mas parece que até mesmo esse comitê está percebendo quão grande é a tarefa à mão. O "Times" de Londres citou um membro do comitê como tendo dito: "Todo mundo opina, a primeira-ministra resume e todos ficam atordoados dizendo o quanto isso é difícil". 

Theresa May sabe que seu sucesso será medido com base em se o Brexit vier acompanhada de melhorias acentuadas para o Reino Unido. Ela precisa ser bem-sucedida na negociação de pelo menos três coisas: primeiro, ela precisa reduzir o número de imigrantes da UE entrando no país. Segundo, a Corte Europeia de Justiça precisa ser destituída de qualquer influência sobre a lei britânica. Terceiro, a contribuição britânica à UE precisa ser significativamente menor do que a soma de 11,5 bilhões de euros que Londres transferiu para Bruxelas em 2015. Qualquer coisa menos que isso seria inaceitável para os linhas-duras e para o "Daily Mail". 

Daniel Hannan diz que o Reino Unido tem duas opções. Ou a UE pode continuar fornecendo ao Reino Unido acesso ao mercado interno com restrições, ou o resultado será um Brexit frio e duro. 

Hannan é um membro conservador do Parlamento Europeu e um pioneiro do movimento pelo Brexit. Um de seus hobbies é temperar seus discursos com trechos de poesias de poetas ingleses mortos, o que dá uma opulência florida ao seu linguajar. Hannan foi o homem que, a partir de meados dos anos 90, elevou a ideia absurda de que o Reino Unido poderia deixar a UE do inconcebível ao reino da possibilidade. O Brexit é sua vida. 

Ele escreveu livros fazendo campanha contra o ingresso na UE e também convenceu outros membros do partido sobre os méritos de sua batalha. Diferente de Nigel Farage, que nunca escapou de sua reputação de estupidez de bar, Hannan fala sobre livre comércio. Ele diz que o país de seus sonhos teria impostos baixos, poucas regras, uma administração pequena e, como Hannan coloca, um "Estado de bem-estar social enxuto". 

Para ele, o Brexit é como um prisioneiro sendo solto após décadas na prisão e saindo ao sol pela primeira vez. Hannan é um romântico e, como todos os puristas que são bons oradores, está longe de ser inofensivo. Se o governo britânico não conseguir o que deseja dos europeus, então terá que reduzir drasticamente os impostos das empresas para permanecer competitivo, ele diz. Sob esse cenário, Hannan diz que esperaria "uma economia radical, semelhante à de Cingapura". 

Hannan rejeita as queixas sobre a falta de certeza após a votação pelo Brexit como choro dos perdedores. Ele considera a alta dos preços como um mal necessário no caminho para um amanhã melhor. "É claro que haverá vencedores e perdedores com as flutuações da moeda", ele diz. Mas ele também fala das empresas que anunciaram investimentos. "O McDonald's, por exemplo, transferiu sua sede de Luxemburgo para Londres." 

O próximo golpe de sorte do Reino Unido? 

Ouvindo Hannan, uma pessoa tem a impressão de que o Brexit é tão fortuita para o Reino Unido quanto foi vencer a Segunda Guerra Mundial. Mas ele também permanece vago em relação ao que o futuro pode trazer. Em seu livro mais recente, ele argumenta a favor do ingresso em uma reformada Associação Europeia de Livre Comércio (Efta na sigla em inglês), tendo como meta uma zona de livre comércio pouco regulada, assim como tratados bilaterais com países como Índia, Austrália e Canadá. 

E para onde as coisas seguiriam a partir daí? Não pode ser descartada a possibilidade de que as negociações entre a UE e o Reino Unido fracassem. Pode ser que a saída do Reino Unido termine em desastre (para ambos os lados). Pode ser que terminemos com um descarrilamento de trem, como teme um colunista do "Financial Times". Tudo é possível. Ninguém sabe ao certo. 

A confusão ajuda os oponentes do Brexit. Alguns poucos iniciaram recentemente uma ofensiva legal contra o governo britânico junto à Suprema Corte, visando impedir uma ruptura dura com a UE. A luta está se tornando mais intensa. Os perdedores no referendo não pretendem desistir facilmente, enquanto alguns dos vencedores já estão sentados em posições aconchegantes ou fundando empresas de consultoria. 

Daniel Hannan esteve nos Estados Unidos, Guatemala e Colômbia para promover o livre comércio. Ele deseja abrir uma fundação. Ele está ajudando a disseminar a mensagem do Brexit pelo mundo.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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