Newt Gingrich, sobre o governo Trump: 'Se decidirem se tornar razoáveis, fracassarão'

Gordon Repinski

  • Kevin Hagen/Getty Images/AFP

    Gingrich deixa a Trump Tower, em Nova York, após se reunir com Trump, em novembro de 2016

    Gingrich deixa a Trump Tower, em Nova York, após se reunir com Trump, em novembro de 2016

Em entrevista para a "Spiegel", o líder intelectual conservador e confidente de Trump, Newt Gingrich, discute o futuro curso político do presidente eleito, como é "muito cauteloso" a respeito de armas nucleares e a ameaça de guerras comerciais. 

Newt Gingrich, 73 anos, há muito é considerado um linha-dura dentro do Partido Republicano. Ele serviu como membro do Congresso por 20 anos. De 1995 a 1999, serviu como presidente da Câmara. Durante a campanha eleitoral, ele foi considerado como possível companheiro de chapa do presidente eleito Donald Trump. 

Spiegel: Sr. Gingrich, o que podemos esperar dos primeiros 100 dias da presidência Trump? 

Gingrich: Você pode esperar muita ação. Donald Trump é uma pessoa muito voltada à ação. Acho que nas primeiras semanas, veremos muitas ordens executivas [NT: algo semelhante às medidas provisórias no Brasil] sendo anuladas, removendo o legado de Obama. Veremos passos à frente em um grande número de frentes e acho que provavelmente serão semanas iniciais muito bem-sucedidas.

Spiegel: Muitas pessoas temem que após a posse de Trump, em 20 de janeiro, os Estados Unidos serão menos tolerantes e mais autoritários, um Estado ao estilo Putin. Esse medo também é palpável na Europa. 

Gingrich: Isso é irracional, beirando o insano. Quero dizer, qualquer sugestão de que a sociedade mais aberta e diversa do planeta possa a vir a parecer a Rússia exige uma suspensão do bom senso que é muito difícil de lidar. Você já esteve em Moscou? 

Spiegel: Não, infelizmente não. 

Gingrich: Então converse com algum de seus colegas e pergunte como é trabalhar lá como jornalista, e então dê uma olhada por aqui de novo. Não dá para comparar os dois países. Eu conheço a Europa e conheço os europeus. Sou um filho de militar que viveu em Stuttgart e obtive um Ph.D. em história europeia, assim como também vivi na França e na Bélgica. E estou cansado de alguns europeus ficarem dizendo tolices como essas. 

Spiegel: Americanos e europeus temem uma nova corrida armamentista, por exemplo. O próprio Trump disse recentemente que isso poderia acontecer. 

Gingrich: Se você olhar para como os russos têm trabalhado em suas armas nucleares nos últimos 10 anos, você verá que já existe uma corrida armamentista. A Rússia está modernizando seus sistemas nucleares. Eles estão adotando sistemas nucleares táticos mais eficazes. Estão buscando sistemas que visam driblar as defesas antimísseis. A propósito, os russos estão investindo em armas robóticas, incluindo um potencial tanque robótico. O investimento deles em nova tecnologia, eu suspeito, é maior do que todos os gastos europeus em pesquisa e desenvolvimento de defesa somados. 

Spiegel: Donald Trump mudará o relacionamento dos Estados Unidos com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, aliança militar ocidental)? 

Gingrich: Não dramaticamente. Mas suspeito que ele será muito duro com os países que não gastarem pelo menos 2% de seu produto interno bruto em defesa. Ele lhes perguntará por que devemos permitir uma política de clandestinidade (parasitismo). 

Spiegel: Isso significa que ele apenas garantirá apoio militar americano pleno aos parceiros da Otan que cumprirem a estipulação de 2%? 

Gingrich: Não acho que ele pode desdobrar dessa forma, mas acho que ele será muito direto com qualquer um desses Estados. A Otan é uma aliança, de modo que todas as partes da aliança precisam ser capazes. 

Petras Malukas/AFP
Mural em Vilnius, na Lituânia, retrata desconforto causado pela admiração de Trump por Putin

Spiegel: Os europeus temem as consequências de uma nova aliança Trump-Putin. O que o senhor espera a respeito disso? 

Gingrich: Creio que Trump acredita que não temos uma obrigação de entrar em uma Guerra Fria com a Rússia, mas que ele será muito cauteloso. A propósito, todos vocês têm essa abordagem esquizofrênica. As pessoas temem que ele lançará uma corrida armamentista, temem que ele se venderá para Putin, ou ambos. Isso é bacana. Quero dizer, qual é o maior medo? Foi Trump que disse que se alguém realmente quiser uma corrida armamentista, nós o afogaremos. 

Spiegel: O tweet de Trump que provocou esse debate poderia ter tanto a ver com a China quanto com Putin. 

Gingrich: Francamente, no Mar do Sul da China, suspeito que tentaremos comunicar aos chineses que não se tornarão a principal potência naval durante nossas vidas. 

Spiegel: Vamos voltar a falar da Rússia: as agências de inteligência americanas deixaram claro a avaliação sobre as interferências da Rússia na campanha eleitoral americana. Washington pode tolerar esse tipo de comportamento? 

Gingrich: Ora, como você sabe, Obama estava grampeando sua chanceler. Países fazem essas coisas com frequência. Não sei de nada feito pelos russos que tenha tido algum efeito sobre a eleição americana. 

Spiegel: Os senadores republicanos Lindsey Graham e John McCain têm uma visão totalmente diferente da informação e pediram por uma forte reação americana. 

Gingrich: Estou cansado de pessoas que têm grandes posições morais e muito pouco poder na verdade. Acho que o custo de peitar os russos seria muito alto. Gostaria de saber como fariam isso. Não vejo fazermos mais do que apenas barulho. Acho que Putin já se acostumou à ideia de Obama e seu secretário de Estado, John Kerry, fazerem apenas barulho. Isso não parece impressionar Moscou. 

Spiegel: Trump menciona com frequência sua simpatia por Vladimir Putin. Você pode descrever por que Vladimir Putin parece tão atraente para Donald Trump? 

Gingrich: Não, na verdade não. Acho que ele vê Putin como uma pessoa forte, acho que ele pensa em si mesmo como sendo uma pessoa forte. Mas não acho que ele considere o governo Putin como sendo um modelo desejável.

Spiegel: Alguns europeus temem que Trump possa perder a calma e apertar o botão nuclear. 

Gingrich: Acho que ele é muito, muito cauteloso a respeito de armas nucleares e está seriamente preocupado. E esse pode ser um dos motivos para querer lidar com Putin de modo cuidadoso, porque está ciente de quantas armas nucleares Putin tem, e que a doutrina russa é muito mais aberta ao uso de armas nucleares do que a doutrina americana. 

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Muro marca fronteira entre EUA e México em Nogale

Spiegel: Trump pode ser muito cuidadoso a respeito da Rússia, mas pode ser extremamente duro em relação a outros países, especialmente o México. O senhor acha que ele construirá o muro e que o México realmente pagará por ele? 

Gingrich: Acho que o muro será construído e que o México acabará pagando por ele. 

Spiegel: O presidente do México disse repetidamente que não o fará.

Gingrich: Bem, há muitas formas de resolver isso. Podemos taxar todo o dinheiro enviado ao México. Podemos taxar todos os veículos enviados do México para os Estados Unidos. Podemos confiscar todo o dinheiro dos cartéis das drogas mexicanos. Isso por si só provavelmente pagaria pelo muro. 

Spiegel: Com a imposição de tarifas e multas, você poderia dar início a uma guerra comercial que no final também prejudicaria os Estados Unidos. 

Gingrich: Não. Como maior mercado do planeta, não estou particularmente preocupado com países que queiram começar uma guerra comercial conosco. Acho que eles acabariam perdendo. 

Spiegel: O senhor disse que seu maior temor de uma presidência Trump é que a equipe dele possa perder a coragem. O que quis dizer com isso? 

Gingrich: Quero dizer que muitas coisas vão surgir para retardá-los e impedi-los: a burocracia, as regulamentações, os lobistas, a imprensa. O peso total de tudo que tentará impedi-los de mudar as coisas será tão grande que há o risco de o governo Trump recuar e tentar ser razoável. Se decidirem se tornar razoáveis, terão fracassado. 

Spiegel: O que quer dizer com isso? 

Gingrich: Qualquer pessoa que já tenha olhado para Bruxelas sabe do que estou falando. Você tenta mover a burocracia em Bruxelas e, a menos que tenha alguma capacidade de realmente quebrá-la, você não conseguirá movê-la. Ela apenas permanece lá encarando você. Nós temos o mesmo problema aqui nos Estados Unidos. Lembre-se, a maioria dos burocratas votou em Hillary Clinton. A maioria dos burocratas detesta profundamente o que Trump tentará fazer e a maioria dos burocratas acha que não pode ser demitida, de modo que você partirá e eles permanecerão. 

Chip Somodevilla/Getty Images/AFP
Trump cumprimenta apoiadores após ganhar a eleição, em Nova York

Spiegel: O senhor trabalhou estreitamente com Donald Trump durante a campanha. A personalidade dele mudou em todos aqueles meses? 

Gingrich: Ele aprendeu muito. Ele está mais ciente das responsabilidades. Acho que está mais ciente de quão grande será o desafio. Acho que ele aprendeu muito sobre o mundo. Ele já conversou, eu acho, com pelo menos 75 líderes estrangeiros, e acho que está muito preocupado em descobrir a forma certa de ser eficaz de um modo responsável. E ele deseja ser eficaz. 

Spiegel: Várias pessoas disseram que ele se tornaria mais presidencial no cargo, mas isso não aconteceu até o momento.

Gingrich: Donald Trump realmente é quem ele é, e eu acho, por exemplo, que ele provavelmente tuitará por toda sua vida, e isso é um fato. Apenas espero que as pessoas superem isso. Todo presidente desenvolve seu próprio estilo. Você sabe que não podemos recrutá-los dentro de um certo padrão. 

Spiegel: Trump tem algo como uma estratégia central? 

Gingrich: Não. Ele tem uma direção central, não uma estratégia central. Ele deseja restabelecer a autoridade e o poder americanos e relançar a economia americana. 

Spiegel: O senhor se recorda de um momento específico em que ficou claro que ele poderia de fato vencer esta campanha? 

Gingrich: Sim, bem cedo. Foi no debate em agosto de 2015 com a âncora de TV Megyn Kelly, quando todos na elite disseram que ele tinha perdido aquela batalha. Mas as pessoas na internet, em cerca de 60% a 70%, disseram que ele tinha vencido. Eu pensei, se a diferença de opinião entre as elites e os cidadãos comuns é tão grande assim, algo incomum está acontecendo. O país está farto da correção política, está farto de um governo que não funciona. Está farto de fraqueza ser interpretada como sabedoria. É algo bem claro. 

Spiegel: Quem será o conselheiro mais importante durante a presidência dele? 

Gingrich: Ninguém. Ele terá muitos conselheiros. Ele nunca permitirá chegar a um ponto onde tenha apenas uma ou duas pessoas. 

Spiegel: O senhor mesmo já foi considerado como possível companheiro de chapa e, posteriormente, também como membro do Gabinete. Por que está permanecendo de fora do governo? 

Gingrich: Porque desejo poder planejar estrategicamente para 2025, e desejo poder falar sem qualquer preocupação com qualquer que seja a linha do partido. Veja, acho que esta é a presidência mais fascinante da minha vida. Acho que tem o potencial de ser muito, muito boa ou muito decepcionante, mas estou fazendo tudo o que posso para torná-la muito boa. Não preciso de um cargo para isso. As chances são muito altas de que ele será bem-sucedido. 

Spiegel: O que alimenta seu otimismo? 

Gingrich: Somos um país enorme com recursos imensos. O espírito americano básico cria os irmãos Wright, Henry Ford, Bill Gates e Mark Zuckerberg. Assim que começamos a nos mover, somos formidáveis. E a incompetência do governo é tão grande que até mesmo um executivo moderadamente bom poderia recuperar o terreno rapidamente. Donald Trump é um executivo muito bom.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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