Como os EUA perderam a identidade

Holger Stark

  • Mike Segar/Reuters

O repórter Holger Stark passou quatro anos como correspondente da "Der Spiegel" em Washington, num momento em que o país mudou radicalmente, a ponto de eleger Donald Trump como presidente. O que levou este país tão poderoso ao declínio?

Em uma noite gélida de janeiro, um ano atrás, eu estava parado em uma fila com cerca de mil pessoas em Burlington, no Estado de Vermont, para ver Donald Trump. Fiz minha primeira reportagem sobre os EUA em 1991 e vivia no país desde 2013. Pensei que conhecesse bem o país. Mas naquela noite de janeiro percebi que estava enganado.

Burlington estava coberta de neve, e ao meu lado na fila estavam Mary e Tim Loyer, os dois envoltos em parkas azul-escuras. Mary estava desempregada e seu filho, Tim, trabalhava em um bar. Ambos me disseram ser apoiadores de Bernie Sanders. Tim disse que estava especialmente importunado pelo poder nas mãos das grandes companhias, que a divisão de riqueza era injusta e que pessoas como ele não tinham mais oportunidades de melhorar de vida. Era o hino da classe média.

Quando perguntado sobre o que achava interessante em Trump, Tim disse: "Bernie e Trump são os únicos políticos que dizem o que estão pensando e fazem o que dizem". Sua mãe, Mary, aprovou com a cabeça. Hillary Clinton, em comparação, é corrupta, disse ele. Em uma eleição entre Trump e Hillary, Tim disse que não votaria nela. Mary assentiu de novo.

Na entrada, seguranças nos apalparam e perguntaram se pretendíamos votar em Trump. Só os que diziam sim podiam seguir adiante.

Quando Trump começou a falar, um manifestante se levantou e gritou que Trump era racista. O candidato fez uma pausa, balançou o punho cerrado e exigiu que a segurança retirasse o manifestante. "Guardem seu casaco. Confisquem seu casaco", disse Trump do palco. Fazia -6ºC lá fora. Trump sorriu enquanto seus fãs se levantavam, gritando e vaiando. Parecia uma turma de linchadores.

Aprendi três coisas naquela noite em Burlington: na pátria do capitalismo, a raiva contra a elite é tão imensa que até os esquerdistas preferiam votar em um bilionário narcisista do que em uma veterana do establishment político. Em um país que valoriza a liberdade de opinião mais que quase qualquer outro do mundo, havia agora testes de atitude antes da admissão a comícios políticos. E muitos americanos, que geralmente são educados, perdem toda a compostura quando confrontados pelos que pensam de modo diferente.

Tudo o que eu associava aos EUA parecia não se aplicar mais naquela noite em Burlington. O que havia acontecido a esse país tão orgulhoso?

Encontrei respostas para essa pergunta em uma viagem pela sociedade americana --a lugares como Vermont, Maryland, Rhode Island e Virgínia. São apenas alguns dos lugares que visitei nos últimos quatro anos --lugares onde podiam ser vistos esses sintomas que, juntos, formam a enorme crise que assola os EUA.

Esse país autoconfiante, que passou décadas exportando seus valores com arrogância imperialista, perdeu sua identidade. O capitalismo democrático não funciona mais tão bem para manter unido um país de 325 milhões de pessoas e para garantir a paz interna.

Os EUA não são o único que foi atingido por essa crise de identidade: ela também atingiu o Reino Unido, a França, a Alemanha e outros. Mas os EUA, onde o capitalismo floresce em um grau maior que em qualquer outro lugar, foi o mais duramente atingido.

O segredo do sucesso do país não foi apenas que a coesão social estava ancorada em uma das constituições mais liberais do mundo, mas também na promessa de progresso inerente ao sonho americano. O resultado foi um país extremamente poderoso que parecia ter possibilidades ilimitadas. Nem sempre era atraente, e às vezes bastante feio, mas o país sempre foi o que o resto do mundo via como exemplo. A América orgulhosamente abria o caminho.

Com seu instinto diabólico para o clima político do país, Trump captou essa mudança em noites de campanha como aquela em Burlington, destilando-a em uma máxima única que aquecia os corações de muitos americanos: "Os EUA em primeiro lugar".

Trump é o epítome do desejo americano de uma nova identidade, ele acendeu um farol de esperança para a maioria branca que ainda forma dois terços da população do país. Muitos deles passaram a se sentir como estrangeiros em seu próprio país. Mais que nada, porém, Trump prometeu devolver a grandeza e os valores a essa fatia da sociedade abalada e à deriva --que ele fará os EUA "novamente grandes".

Fort Meade: uma visita à ANS

O início de meu período nos EUA coincidiu com o desaparecimento no submundo de Edward Snowden, o homem que revelou o mecanismo de espionagem dos EUA, embaraçando todo o país. Em outras palavras, começou com a figura americana que, com exceção de Donald Trump, dominou o debate público nos últimos vários anos, mais que qualquer outra coisa.

Em junho de 2013, quando nós na "Spiegel" desvendávamos os documentos que Snowden nos havia proporcionado, enviei um pedido à Casa Branca para uma entrevista "off the record", como fazemos em tais situações em Berlim, Paris e outros lugares. O e-mail foi lido pela Casa Branca e pelas agências de inteligência, mas nada aconteceu.

Depois que a matéria de capa da "Spiegel" sobre a Agência Nacional de Segurança (ANS) repercutiu em todo o mundo, um porta-voz da Casa Branca advertiu que as reportagens sobre a ANS eram "publicações não autorizadas" condenadas pelo governo. Isso também poderia ser chamado de liberdade de imprensa.

O jogo se repetiu na semana seguinte. Eu solicitei um encontro para falar sobre o conjunto seguinte de revelações, mas dessa vez recebi uma resposta de Caitlin Hayden, que era a porta-voz do Conselho Nacional de Segurança na época: "Nossa equipe na Casa Branca não tem tempo nesta semana para um encontro sobre isso". A "Spiegel" continuou publicando reportagens baseadas nos documentos da ANS durante meses, e as regras do jogo nunca mudaram. Era uma demonstração da arrogância do poder.

Vários meses depois, o ex-chefe da ANS Michael Hayden me explicou por que eu não conseguia ser recebido pela Casa Branca. Muitos jornalistas americanos podem ser influenciados quando sofrem pressão, disse ele, mas isso é mais difícil com os jornalistas estrangeiros.

É assim que Washington funciona e é assim que Barack Obama e seu governo funcionavam. Nesta cidade, há um código de comportamento para todos os envolvidos --e Washington se tornou o símbolo de uma intimidade insalubre e simbiótica entre política, negócios e a mídia.

No inverno de 2013, finalmente recebi um convite para ir ao quartel-general da ANS em Fort Meade, Maryland, a uma hora de carro da Casa Branca. A agência queria falar com a "Spiegel" para nos convencer a não publicar outra reportagem sobre a ANS. A fachada de vidro da sede da agência é projetada para barrar ondas eletromagnéticas, e no interior um dos elevadores é reservado para uso do todo-poderoso diretor.

Os senhores que me receberam se apresentaram pelos primeiros nomes (Mike e Frank), mas a conversa não foi muito produtiva, porque eles não podiam responder à maioria de minhas perguntas devido às regras de sigilo. Quando Mike falava, Frank olhava para ele desconfiado. Quando Frank falava, Mike o olhava com suspeição.

O caso da ANS pôs à mostra tanto as forças quanto as fraquezas dos EUA. Não se tratava apenas de controle, mas também da perda de controle pelo Estado. O país mais poderoso da Terra foi exposto por um jovem funcionário idealista que trouxe à luz a vigilância generalizada.

Hoje, o escândalo parece coisa de outro século --a era pré-Trump. Em reação a Snowden, Obama instalou limites ao que a comunidade de inteligência tinha permissão para fazer. Trump, em contraste, anunciou um ataque impiedoso a todos os terroristas reais e imaginários e prometeu liberar os agentes de segurança do país de todas as restrições. Não se trata mais dos direitos individuais, o que Snowden havia salientado, mas do Estado forte, o que Trump prometeu.

Washington: nas ruas da América

Entre as tiradas mais populares de Trump há uma sobre como os aeroportos americanos "parecem os de um país do Terceiro Mundo". E ele tem razão. As ruas americanas estão cheias de buracos, seus aeroportos exalam charme dos anos 1970 e a cada duas semanas uma árvore cai sobre as linhas de transmissão, causando horas de blecaute. Hoje os EUA são ao mesmo tempo o país do iPhone e o dos buracos na rua; ele não é apenas revestido por um verniz do futuro, mas também pelo cheiro de mofo do passado.

Nos quatro anos em que vivi em Washington, tive de trocar os pneus do meu carro três vezes. A primeira foi depois que passei sobre uma cratera que o gelo tinha cavado em uma estrada de um parque. A segunda foi resultado de operários da construção terem deixado pregos em uma rua onde haviam trabalhado. A terceira foram pneus cortados por lascas de metal que ficaram largadas em uma rua durante várias semanas. A situação é tão ruim que os motoristas de Washington podem apresentar queixas de buracos na rua para pedir indenização.

Em seus discursos, Donald Trump aborda essa impressão de disfunção comunitária --e é o que pode ser observado em qualquer lugar que se vá. No verão de 2013, por exemplo, fui ao departamento de trânsito de Washington para tirar uma carteira de motorista. A oficial entediada no balcão percorreu meus documentos sem interesse antes de olhar para mim e, com uma expressão impassível, colocar "F" como meu gênero. Desde então sou uma motorista mulher para a burocracia americana.

As pessoas esperam um mínimo de funcionalidade de um Estado moderno. Mas nos últimos 30 anos os conservadores e os neoliberais trabalharam incansavelmente para destruir o Estado, que eles consideram uma forma de administração socialista imposta. Eles enfraqueceram os EUA.

Uma nova compreensão do Estado está há muito atrasada nos EUA. Em um mundo complexo, onde tudo está conectado a tudo o mais, a identidade protetora do Estado deve passar por um renascimento. Um novo Estado resiliente e sofisticado é necessário. Trump é um dos poucos conservadores que reconheceram esse fato.

Yuri Gripas/Reuters
Michael Flynn, assessor de segurança de Donald Trump, em Washington

Rhode Island: o que Trump pensa?

Para melhor compreender Trump, meu colega na "Spiegel" Matthias Gebauer e eu dirigimos pelo litoral atlântico em junho de 2016 até Rhode Island, o menor Estado americano. A casa de verão de Michael Flynn, 58, situa-se na borda de uma cidade chamada Middletown.

Em certo momento, ele foi o chefe da Agência de Inteligência da Defesa (DIA na sigla em inglês), mas teve um desentendimento com Obama e foi demitido em 2014. No outono de 2015, Trump convidou Flynn a ir a Nova York e desde então o nomeou assessor de Segurança Nacional. Recentemente, os dois discutiram o que poderia acontecer se houvesse uma guerra entre os EUA e a China. Ouvindo o general, temos uma impressão de como os novos EUA pensam.

Flynn nos recebeu no terraço de madeira de sua casa de verão, com as ondas do Atlântico quebrando nos penhascos ao longo da costa. "Temos de examinar as ameaças que enfrentamos no século 21", disse Flynn. "Ameaças não aparecem só com a cara de Vladimir Putin e Abu Bakr al-Baghdadi, do Estado Islâmico, elas vêm com aparências diferentes. Uma das maiores é a ameaça econômica."

Flynn estava descontraído naquela manhã, usando jeans e chinelos de dedo. Ele tinha uma reputação na DIA de ser especialmente durão. Disse que os EUA estavam em ponto de ruptura e que tudo precisava ser questionado, especialmente os custos militares. "Como esse custo é pago?"

Essa pergunta poderia ser o axioma central do novo governo. Para Trump, tudo são negócios --economia, educação e política externa. Durante a hora e meia em que falamos com Flynn, a conversa não foi sobre valores ocidentais comuns e solidariedade entre países. Para Trump e Flynn, a política externa é uma extensão da política doméstica --eles não pensam em Aleppo sem ter o Alabama no fundo da mente.

Sua visão de mundo é feita de uma mistura desconcertante de megalomania com mesquinharia. Eles querem construir novas armas nucleares e ao mesmo tempo deixar o resto do mundo se defender por conta própria. O que é certo, porém, é que o Alabama terá precedência sobre Aleppo.

A diplomacia de Trump, segundo Flynn, funciona de acordo com um princípio simples: "Você começa qualquer negociação o mais alto e duro que puder, e então entra em uma conversa".
O mundo terá de se habituar ao fato de que os EUA hoje são liderados por um negociador brutal e impiedoso --um homem que deixa todas as suas opções em aberto e cujos valores não são totalmente claros.

Flynn recentemente foi a Moscou, onde se sentou ao lado do presidente russo, Vladimir Putin, em um jantar. Flynn parecia se sentir muito à vontade. Ele nos disse em sua varanda em Rhode Island que é preciso respeitar Putin. "Ele é um líder mundial", disse. "Putin será um parceiro confiável para certas coisas para os EUA."

Depois que nos despedimos, ele gritou que Trump teria uma vítima arrasadora e que eles iam tomar o controle do país.

Devo admitir que esse comentário me fez sorrir.

Steve Helber/AP
Gavin Grimm em sua casa em Gloucester, Virgínia

Virgínia: as guerras dos banheiros

Os EUA acrescentaram mais uma à sua longa lista de guerras no ano passado: a guerra dos banheiros. Colocado simplesmente, trata-se de quem pode urinar em que vaso. Mas, como acontece com frequência quando as pessoas brigam nos EUA, isso na verdade tem a ver com um importante debate social: a identidade do indivíduo e quem pode defini-la. Ninguém personifica melhor o problema que Gavin Grimm, 17.

Ele foi descrito como "a nova face do movimento transgênero". Mas em uma terça-feira ensolarada de junho, quando Grimm desceu as escadas se arrastando, de pijama, para me receber na casa de sua família em Gloucester, na Virgínia, parecia um derrotado.

Grimm tem o rosto rechonchudo e uma penugem alourada sobre a boca. Sua voz é áspera e parece estar mudando, produto dos hormônios que vem tomando há algum tempo. Grimm costumava ser uma menina que gostava de brincadeiras rudes com os meninos e queria jogar no time de beisebol. Na época, chorava à noite porque se sentia preso no corpo errado. Na manhã de seu 15º aniversário, ele se abriu para sua mãe e disse que ou mudaria de sexo ou morreria.

A escola secundária de Grimm fica fora da cidade de Gloucester. A alameda que conduz até ela passa por milharais e casas de fazenda. Essa parte dos EUA é rural e conservadora, mas o diretor era uma exceção e permitia que Grimm usasse o banheiro dos meninos.

Depois de uma reclamação, porém, o conselho escolar proibiu que Grimm usasse o toalete. Ele contratou um advogado e moveu um processo. O caso percorreu os tribunais e será ouvido em breve pela Suprema Corte. A guerra do banheiro é a última frente nas guerras culturais sobre o futuro dos EUA.

Cerca de 70% dos americanos ainda se identificam como cristãos, e aproximadamente 80 milhões deles, incluindo o vice-presidente Mike Pence, se incluem entre os fundamentalistas que, em alguns casos, não acreditam na teoria da evolução e preferem o criacionismo, a ideia de que Deus criou a Terra. Os cristãos radicais consideram as pessoas como Grimm doentes, porque desafiam o gênero dado por Deus. A comunidade batista local ameaçou Grimm de queimar no inferno pela eternidade. "Não é fácil resistir ao poder da igreja", disse o jovem.

Em lugares como Gloucester, a parte principalmente branca e religiosa dos EUA está lutando com o lado secular e cosmopolita do país. Nas últimas décadas, a influência cristã se desgastou constantemente, e a cultura cristã que predominava deu lugar a uma ordem social multicultural. A América cristã perdeu sua hegemonia cultural para pessoas como Barack Obama e Gavin Grimm. Ela votou em Trump e Pence na tentativa de reconquistar essa hegemonia.

A previsão

É verdade que as coisas não podiam continuar como estavam. É claro que foi errado Hillary Clinton ter aceito US$ 675 mil de banqueiros de Wall Street em troca de três discursos numa época em que metade dos americanos diz que não saberia o que fazer se tivesse de pagar uma conta inesperada de US$ 400. E certamente as coisas estão desequilibradas quando os seis americanos mais ricos (Bill Gates, Larry Ellison, Warren Buffett, Jeff Bezos, Mark Zuckerberg e Mike Bloomberg) juntos têm quase tanta riqueza quanto toda a metade mais pobre da humanidade.

Trump prometeu uma experiência fascinante à população americana e em consequência conseguiu o cargo político mais importante do mundo. Com a autoridade de um negociador firme, ele está tentando obrigar companhias como Ford e BMW a fazer investimentos nos EUA. Ele está infringindo as leis do mercado e tentando derrotar o capitalismo com suas próprias armas. Pode dar certo?

Os mercados aplaudiram sua eleição, pelo menos no início, e Trump pode contar com o apoio de muitos americanos. Mas outros países revidarão, parceiros internacionais serão transformados em rivais e um grande conflito com a China está tomando forma. No entanto, os campos de batalha de Trump provavelmente serão guerras comerciais, mais que campanhas de conquista.

O presidente falou em unir a sociedade, mas seu triunfo repousa em sua divisão. Trump joga os grupos sociais uns contra os outros, e a identidade que ele prescreve para os EUA é a dos anos 1950, uma época em que homens brancos dirigiam carros sedentos de gasolina e as mulheres usavam corpetes.

A atmosfera criada por Trump é uma que reduz a posição de pessoas como Gavin Grimm para dar a pessoas como Mary e Tim Loyer a sensação de que podem alcançar a grandeza. Parece que o país está voltando para o futuro.

Na semana passada, foram divulgadas novas pesquisas que mostram que a maioria dos americanos estava satisfeita com o que Obama entregou durante seus mandatos. Ao mesmo tempo, os americanos elegeram, Donald Trump seu presidente. Nem sempre é fácil entender os EUA.

De sua parte, Grimm quer fugir da América rural e dos cristãos fundamentalistas em busca de liberdade. Tim Loyer espera que Trump crie um novo emprego para ele. E Mike Flynn agora tem influência sobre o futuro dos EUA.

Os três vivem em mundos diferentes e não teriam muito a dizer uns aos outros. O que começou sob George W. Bush e continuou com Obama também não vai parar com Trump --ou seja, a decadência de uma sociedade que não tem mais força para concordar sobre as questões mais prementes de nossa época.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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