Com veto a cidadãos, Trump rompe com a tradição americana de ser uma nação de imigrantes

Gordon Repinski

  • Stephanie Keith/ Reuters

No fim de semana, milhares de pessoas foram aos aeroportos, às ruas e à Casa Branca protestar contra as políticas antimuçulmanas de Trump. Milhares estiveram no sábado à noite no Terminal 4 do Aeroporto John F. Kennedy em Nova York, onde exibiam cartazes como "Sem muro!" ou "Deixem-nos entrar!" Imagens semelhantes puderam ser vistas em outras cidades do país, como Los Angeles, Chicago e Washington.

As multidões estão crescendo e gritando mais forte.

Nos últimos meses, muitas vezes parecia que Donald Trump não poderia se superar em suas demonstrações de maluquice. Mas a decisão de proibir pessoas de sete países muçulmanos de entrar nos EUA é apenas mais um absurdo da parte do novo presidente americano. É na verdade antiamericano, porque coloca um ponto de interrogação sobre a própria identidade dos EUA como nação de imigrantes. É mais perigosa que qualquer outra ação tomada por ele desde sua posse.

Com a proibição, Trump está cumprindo uma promessa que fez durante sua campanha --ou seja, que ele quer tornar os EUA mais seguros protegendo-os do terrorismo islâmico. O desejo de maior proteção é um tema atualmente sentido em todas as sociedades ocidentais, do qual os políticos não podem escapar.

E essa discussão se aplica mais aos EUA que a outros países. Os efeitos dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington tingem o país ainda hoje. Mais de uma dúzia de perpetradores participaram dos ataques, e eles vieram da Arábia Saudita e do Líbano.

E isso toca diretamente o ponto frágil dessa política: esses países não estão incluídos na proibição de viagens de Trump. Nenhum desses ataques teria sido evitado, mesmo que a ordem tivesse sido emitida anos atrás.

O próprio Trump deveria saber que a proibição de viagens contorna o problema. O pior ataque terrorista cometido no país desde o 11 de Setembro aconteceu no início do último verão, em plena campanha eleitoral, na boate Pulse em Orlando, Flórida. O atacante, Omar Mateen, vinha de Nova York --um jovem americano perdido que atirou e matou mais de 50 pessoas em nome do Estado Islâmico. Um terrorista que havia crescido e se radicalizado em seu próprio país.

O mundo é complexo, e o terrorismo, infelizmente, também é. Com suas respostas simplistas, Trump não está tornando os EUA mais seguros. Já poderia ser considerado um sucesso se ele não tomasse qualquer medida para torná-lo menos seguro. Mas seu decreto cru simplesmente alimentará novos preconceitos contra os EUA no mundo muçulmano. Criará mais raiva. Raiva entre diretores de cinema, artistas e atletas que foram recusados nos aeroportos do país ou nem puderam viajar para os EUA. Entre seus parentes em seus países natais e entre as pessoas não imediatamente afetadas pela proibição. Entre os muitos muçulmanos moderados em todo o mundo.

Um presente para o EI

A proibição de viagens é um presente para o Estado Islâmico terrorista que está atualmente perdendo terreno na Síria e no Iraque e sofre pressão para encontrar novos argumentos para fazer da guerra santa contra o Ocidente uma empreitada válida.

A proibição de viagens oferece justamente a narrativa de que os terroristas precisam. Donald Trump pode ter dado alguns novos motivos para pessoas suscetíveis neste fim de semana. E é o próprio presidente quem carrega toda a responsabilidade política por isso. Dirigir a Casa Branca não é brincadeira ou um programa de reality show. É um cargo que pode influenciar a situação nos EUA e, em última instância, no mundo todo. Isso é algo que Trump terá de aprender. Infelizmente, porém, virá às custas dos outros.

Seus assessores deveriam compreender isso. O vice-presidente Mike Pence e o presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, assim como o chefe de Gabinete da Casa Branca, Reince Priebus, são políticos tarimbados. Eles deveriam saber o tipo de consequência que os humores do presidente podem ter. Como tal, eles são igualmente responsáveis.

A política sob Donald Trump assumiu uma velocidade que tornou difícil até para observadores experientes registrar constantemente os efeitos que as palavras e os atos muitas vezes impulsivos do presidente terão. O fato de isso ter acontecido também é um produto das redes sociais que Trump, em um grau inédito para qualquer presidente anterior, transformou em ferramenta decisiva em sua liderança política.

Foi utilizando o poder dessas redes que Trump se tornou presidente. Ele compreendeu como poderia explorar o sentimento público em seu proveito com o uso inescrupuloso dos rumores, das meias verdades e das mentiras.

Mas esse também é um poder que não pode ser domado --nem mesmo por Trump. Neste fim de semana, depois de apenas algumas horas, as redes sociais reuniram dezenas de milhares de pessoas que protestaram na fria noite de sábado contra Trump e novamente no domingo. Eram os segundos protestos de massa que ocorriam contra Trump nos EUA em uma única semana. O virtual está se tornando real e está revidando o ataque.

É melhor Donald Trump tomar cuidado.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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