A confusa busca na França por um candidato para derrotar Le Pen

Ullrich Fichtner

  • Robert Pratta/ Reuters

    Marine Le Pen, da Frente Nacional, participa de evento para o lançamento da campanha presidencial, em Lyon, França

    Marine Le Pen, da Frente Nacional, participa de evento para o lançamento da campanha presidencial, em Lyon, França

Na corrida presidencial francesa, um candidato após o outro tem tropeçado. A campanha do conservador François Fillon é a mais recente a se desfazer, após relatos de irregularidades financeiras envolvendo sua esposa. Quem se erguerá contra Marine Le Pen?

Os europeus estão acompanhando de perto a França neste ano eleitoral decisivo, e os franceses estão lhes dando muito o que acompanhar. Restando três meses para o segundo turno na eleição presidencial, em 7 de maio, boa parte do establishment político já foi retirado da disputa. E a aparência atual é de que o expurgo não diminuirá tão cedo.

No momento, o grande ponto de interrogação está pairando sobre o futuro de François Fillon, que até a semana passada parecia ser um dos candidatos mais promissores. Mas então, como colocou o jornal satírico "Le Canard Enchaîné", "uma mancha gigante apareceu em seu colete branco". Mas os apuros de Fillon são apenas os mais recentes em uma série de absurdos que perseguem a campanha francesa.

De cara, o resultado desastroso do presidente François Hollande nas pesquisas o impediam de tentar a reeleição. Seu primeiro-ministro, Manuel Valls, antes um dos políticos mais populares do país, também foi eliminado como candidato substituto do Partido Socialista na primária. E o "onipresente" Nicolas Sarkozy também se saiu igualmente mal na primária do partido conservador. A primária também eliminou as chances do homem que liderava todas as pesquisas: Alain Juppé, o velho prefeito de Bordeaux, que às vezes já parecia ter um pé no Palácio do Eliseu, a sede do governo francês.

Agora a lista de candidatos, com ou sem Fillon, mudou por completo e está consideravelmente mais empolgante do que se previa há poucas semanas. O terceiro esporte mais popular da França, atrás do futebol e do rúgbi, o cálculo da probabilidade de toda coalizão pós-eleitoral possível (e impossível), começou a encher uma infinidade de colunas e programas de televisão.

O que aconteceria se toda a esquerda, incluindo os comunistas, verdes e todos os demais finalmente juntassem forças e lançassem um candidato conjunto? Será que o altamente capacitado Emmanuel Macron, um homem com quase 40 anos, poderia lançar um movimento saído do nada e se lançar ao comando do Estado francês em um espaço de poucos meses, com o frescor de seu caminho "nem esquerda, nem direita"? Será que o radical de esquerda Jean-Luc Mélanchon, ridicularizado como o "Che Guevara do YouTube" por seus oponentes, teria chance de conquistar mais que os 10% de apoio que conta no momento? E qual é mesmo o nome do sujeito concorrendo pelo Partido Verde? Jabot? Jadot?

Uma eleição atraente

Mas uma coisa é certa: será uma eleição empolgante, em parte graças a prática da França de realização de eleições primárias presidenciais abertas. Os socialistas foram os primeiros a testá-las anos atrás, e os conservadores seguiram o exemplo desta vez. Ambos foram forçados a perceber que os eleitores das primárias dão pouca atenção às pesquisas ou às teorias de probabilidade, apresentando maior probabilidade de injetar polarização profunda no sistema político.

No campo da esquerda, Benoît Hamon, um homem em grande parte desconhecido no exterior, venceu a candidatura. Na França, entretanto, Hamon é conhecido como líder da revolta dentro do Partido Socialista contra o curso "social-democrata" do presidente francês, algo que na interpretação francesa significa o caminho excessivamente centrista e insosso seguido por Hollande.

Antes da coroação de Hamon, os eleitores da primária escolheram Fillon como candidato do partido conservador, que recentemente foi rebatizado como Os Republicanos. Apesar de Fillon, um católico, ter servido como ministro em vários governos e também como primeiro-ministro por alguns anos, ele não era visto como um candidato provável e seu triunfo saiu basicamente do nada.

Como funcionam as eleições presidenciais na França

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Princípios morais insuficientes

Por algum tempo depois disso, muitos consideraram Fillon, um candidato sério e conservador ferrenho, como líder na corrida ao Palácio do Eliseu. Agora, entretanto, parece que sua caminhada chegou a um fim repentino. Por mais que Fillon goste de pregar sobre princípios morais e decência, ele próprio parece não contar com nenhum.

O "Le Canard Enchaîné", um jornal satírico com uma mistura de fofoca e sátira, publicou uma reportagem na semana passada oferecendo provas de que Fillon contratou sua própria esposa, Penelope, como uma falsa assistente parlamentar, porém bem remunerada. Na última quarta-feira, o "Canard" reconheceu que cometeu um erro, e então revisou os números para cima. O jornal agora alega que Penelope Fillon ganhou 831.440 euros de seu marido ao longo de vários anos, uma soma chocantemente alta e que não favorece um homem que propunha uma drástica austeridade para seu país.

Apesar do escândalo, Fillon disse que não abandonará a disputa e passou a última semana negando de forma furiosa e veemente as alegações. Ele se descreveu como sendo vítima de uma "campanha profissional de difamação" conduzida por "aqueles no poder, na esquerda". Segundo ele, a meta era minar o "ideal elevado da França" que ele promovia. Mas passadas apenas horas dessas declarações, surgiu a notícia de informações ainda mais incriminadoras, incluindo a exibição de partes de uma entrevista de televisão dada por Penelope anos atrás, nas quais ela dizia que nunca trabalhou como assistente de seu marido, minando os esforços do casal na semana passada de provar que os pagamentos para ela foram legítimos.

Ótimas notícias para Marine

Agora, mesmo se Fillon sobreviver como candidato, ele estará tão arranhado que não terá virtualmente chance de vencer. Na semana passada, de fato, seu próprio partido começou a discutir tão abertamente um "Plano B" a ponto de ser quase desrespeitoso. Juppé é o único possível candidato substituto sendo discutido, mas os nomes de alguns conservadores jovens também estão circulando. De qualquer modo, nenhuma dessas alternativas seria capaz de retirar eleitores de Marine Le Pen e seu projeto "Marine 2017" tanto quanto um Fillon pré-escândalo poderia.

Isso, é claro, é uma ótima notícia para Marine Le Pen, que transformou a camarilha fascista que cercava seu pai em um partido moderno, a populista Frente Nacional de direita, tendo ela no centro. Durante o fim de semana, ela apresentou "140 propostas para a França" enquanto lançava o principal segmento de sua campanha. Mas antes mesmo de subir aos palanques, ela está tranquilamente segura de que já conta com o apoio de pelo menos um quarto dos eleitores do país, independente do que diga e do que outros possam dizer sobre ela.

Ela é acusada de desviar sistematicamente fundos da União Europeia para fins partidários no Parlamento Europeu. Ela não pode mais esconder o fato de que está brigando a respeito da direção do partido com sua própria sobrinha, Marion Maréchal-Le Pen. Mas não importa: seus números nas pesquisas permanecem constantes em 25%, indicando que muito provavelmente conseguirá votos suficientes para chegar ao segundo turno da eleição presidencial.

Quem enfrentará a Frente Nacional?

A única pergunta é quem será seu adversário? Quem será o "menor dos males" desta campanha?

Será o candidato socialista Hamon, com seu plano temerário de introdução de uma garantia de renda  mínima incondicional para todos os franceses, começando com 600 euros e posteriormente a subindo para 750 euros? O plano provavelmente levaria a 380 bilhões de euros em gastos anuais adicionais ao governo francês.

Ou será Emmanuel Macron? Não há dúvida de que ele tem o carisma de um líder, mas ele também tem algumas fraquezas que o tornam aberto a ataques, incluindo duas que poderiam se tornar particularmente perigosas. A primeira é um currículo que está longe de ser consistente com a imagem de um herói jovem sacudindo um sistema político ossificado. Macron estudou na Escola Nacional de Administração (ENA) de elite da França, é um ex-banqueiro rico que trabalhou no Rothschild antes de se tornar conselheiro de François Hollande. Ele há muito faz parte da elite contra a qual declarou guerra.

E há o segundo problema de Macron: com exceção de um relativamente refrescante e claro compromisso com a União Europeia, ao menos para um francês, ele não tem uma plataforma. Ele disse que anunciará seus planos no final de fevereiro, assim que as centenas de milhares de voluntários de seu movimento, organizados em grupos de trabalho por todo o país, reunirem as propostas sobre diversos assuntos. Se essa operação for bem-sucedida e Macron de fato apresentar uma plataforma política coerente, isso representará outro milagre das bases na França.

Mas algo assim é possível? Será que um novo caminho político, nem de esquerda e nem de direita, mas simplesmente correto e bom, realmente pode ser formulado pelas massas? Há muita esperança cercando Macron, mas a zombaria nunca está distante. Um humorista francês pôde ser ouvido na semana passada no rádio, ainda um meio importante para formação de opinião na França, dizendo que máquinas de lavar têm mais programas do que Macron. Pesquisas recentes o apontaram levando 23% dos votos. O esquerdista Jean-Luc Mélenchon, um homem que estima de forma elevada tanto a si mesmo quanto suas ideias, conta com cerca de 10% das intenções de voto. Mélenchon está prometendo permitir que as pessoas se aposentem com 60 anos com benefício pleno, além de defender um salário mínimo mensal de 1.300 euros. Ele deseja que a França e a União Europeia reconheçam a Palestina como Estado, pede para que a França se retire da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) e está exigindo uma renegociação dos tratados da UE.

De fato, um olhar para a lista de candidatos restando três meses para o turno final da eleição leva à conclusão inevitável de que a maior ameaça enfrentada pela Frente Nacional e pela candidata Marine Le Pen é o próprio partido. A boa notícia, entretanto, é que o partido sempre se mostrou perito em derrotar a si mesmo no passado.

Quando o jornal financeiro "Les Echos", por exemplo, analisa as propostas particularmente irrealistas feitas em campanha, Le Pen está no alto da lista. Os planos dela de saída da UE e da moeda comum levariam a um desastre nacional, incluindo um colapso da moeda e uma explosão de novas dívidas. E além da economia, Le Pen ainda é amplamente considerada inelegível, porque ainda não se dissociou completamente de seu pai radical de direita, Jean-Marie, o fundador do partido Frente Nacional.

E além de serem realistas em relação a aspectos econômicos, os eleitores franceses dificilmente votarão em Le Pen no final, porque ela não fez o bastante para se distanciar do mau cheiro deixado por seu pai, um negador do Holocausto com laços neonazistas.

Falando em código

Um discurso feito por ela em setembro, na cidade de Fréjus, ainda é apresentado em seu site como uma pedra fundamental de seu movimento. O sermão distópico retrata a França como um país sitiado por poderes estrangeiros de toda espécie.

Ele invoca uma França gaulesa enfrentando uma nobre batalha de vida ou morte. Ele enfrenta falsa doutrina liberal de nossa época, o multiculturalismo e, é claro, a Europa. Ao longo de todo o discurso, às vezes de forma velada, às vezes de modo explícito, há um ar de ideologia retrógrada, xenofóbica, étnico-nacionalista e exclusivista.

Le Pen, juntamente com sua equipe recém-formada de jovens inteligentes, tenta disfarçar essa mensagem do público mais amplo, mas permanece um constante caminhar por uma corda bamba estratégica. Ela precisa oferecer slogans radicais para sua base eleitoral, mas precisa evitar afugentar o restante do eleitorado. Para isso, como deixa claro seu discurso em Fréjus, ela desenvolveu uma espécie de linguagem secreta que poderia ser descrita como uma linguagem velada de direita radical. Seus apoiadores ouvem uma mensagem diferente em seus discursos do que o público em geral, e essa é a estratégia que Le Pen está seguindo em sua tentativa de chegar ao Palácio do Eliseu.

Ela também está buscando entrar na órbita de outros com experiência pertinente. Le Pen foi vista recentemente tomando café em uma sorveteria na Trump Tower, em Nova York. Também há rumores de que o notório site de notícias americano "Breitbart News", que abriu o caminho ideológico para Donald Trump, planeja se expandir para o mercado francês.

Mesmo assim, permanece improvável que Marine Le Pen se torne presidente da França. As pesquisas podem mostrá-la chegando ao segundo turno da eleição, mas depois, os dados atuais também mostram que ela provavelmente seria derrotada pelo adversário, independente de quem seja. No momento, por exemplo, as pesquisas mostram Macron ficando com 65% dos votos no segundo turno contra Le Pen. Uma das certezas com a qual se pode contar na França é que Le Pen é vista de forma consistente como o maior dos dois males.

Mesmo assim, o restante da Europa está tomada por uma sensação de desconforto enquanto olha para a França neste ano eleitoral decisivo. As pessoas não se esqueceram de que parecia que a saída do Reino Unido da UE não aconteceria, até que os britânicos votaram de fato pela saída. E nos Estados Unidos havia ampla confiança, mesmo uma semana antes da eleição, de que Donald Trump não venceria.

Na França, as primárias partidárias seguiram o mesmo padrão: todos os favoritos, elogiados por aqueles na bolha de Paris e na mídia, perderam. Será que a tendência continuará? Não saberemos até maio.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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