Das redes sociais às ruas, jovens romenos enfrentam políticos contra a corrupção

Walter Mayr

  • Vadim Ghirda/ AP

    Manifestantes usam a luz de seus celulares nas cores da bandeira da Romênia durante protesto antigoverno em Bucareste

    Manifestantes usam a luz de seus celulares nas cores da bandeira da Romênia durante protesto antigoverno em Bucareste

Eles se coordenam pelo Facebook, Twitter e Firechat. Eles cantam juntos e passam frio juntos, acenando bandeiras romenas e vibram quando palavras como "resistência" ou "renunciem" são projetadas nos prédios que abrigam aqueles no poder.

Perseveram, aparecendo noite após noite, logo após o término das aulas na Universidade de Bucareste e o fim do expediente nos escritórios. Milhares, dezenas de milhares, até mesmo centenas de milhares de manifestantes se reúnem na Praça da Vitória, no coração da capital romena, se aglomerando nas barreiras que cercam a sede do governo e gritando "hotii, hotii, hotii!", que significa "ladrões, ladrões, ladrões!"

As imagens desse levante se espalham pelo mundo: um mar de pessoas erguendo seus smartphones iluminados. E mostram um movimento pacífico e principalmente de cidadãos jovens, lançado pela sociedade civil recém-despertada contra a velha elite do país. Os manifestantes são pró-União Europeia, que é vista de forma positiva na Romênia por ter trazido o Estado de direito e crescimento econômico ao país. E são persistentes, tendo protestado noite após noite há quase duas semanas agora. Primeiro, eles conseguiram a derrubada de um decreto que eliminaria as penas contra níveis menores de corrupção oficial e abuso de poder. Agora, eles estão buscando a derrubada de todo o governo. Eles já conseguiram remover dois ministros.

No meio do tumulto na noite de quarta-feira, magro e discreto, estava Sebastian Burduja, 31 anos, um dos líderes dos protestos, que oficialmente não tem um líder. As pessoas lá dentro, ele disse olhando para o prédio do governo, precisam ser removidas: "São corruptas e não contam mais com nossa confiança". Burduja é chefe da PACT, uma plataforma fundada em 2016 por ativistas jovens exigindo "governança limpa e competente". Quando perguntado se ele tinha ambições políticas, Burduja disse: "Isso não tem nada a ver comigo. Prestígio não importa muito para mim. Mas se me chamassem, eu aceitaria".

Sebastian Burduja é um dos líderes mais autoconfiantes dos protestos de massa e a "Forbes" o apontou como sendo um dos 30 principais líderes jovens do país. Ele nasceu em Bucareste pouco antes da ditadura de Nicolae Ceausescu chegar ao fim e posteriormente estudou ciência política em Stanford. Ele também passou três anos em Harvard e trabalhou para o Banco Mundial em Washington. Então, no início de 2016, Burduja voltou para casa "doente de saudade da Romênia", como ele diz.

Acesso a tudo

Naquela noite de quarta-feira, o nono dia do levante popular, Burduja passou horas na neve sob temperaturas abaixo de zero. Sua esposa é americana e ele cresceu ouvindo: "Lute por seus direitos". Ambos querem que a filha deles possa buscar seus sonhos na Romênia: "Talvez uma chef célebre, talvez uma cantora, talvez algo completamente diferente". Todo cidadão na Romênia, diz Burduja, deve ter acesso a tudo, seja um leito hospitalar ou um emprego, sem precisar pagar propina, como é normal na Romênia.

Os protestos que cercam o Palácio da Vitória, de onde o primeiro-ministro Sorin Grindeanu governa o país, são apenas superficialmente contra o decreto emitido às pressas. A legislação pedia pela eliminação das penas por abuso de poder e corrupção desde que os prejuízos não ultrapassassem o equivalente a 45 mil euros, o que equivale a seis vezes e meia o salário anual médio bruto na Romênia.

Na verdade, os manifestantes lutam pelos sonhos de milhões de cidadãos de, 27 anos após a morte de Ceausescu, finalmente serem libertados da exploração nas mãos dos sucessores do velho regime. "Nosso rompimento com o comunismo foi incompleto", diz Burduja. "A Romênia foi o único país no Leste Europeu a colocar no poder pelo voto o partido sucessor dos comunistas, após a queda da Cortina de Ferro."

Na Romênia, esse partido é o PSD social-democrata e é considerado o partido mais contaminado pela corrupção no país. Ion Iliescu, que permanece aos 86 anos como presidente honorário do partido, se tornou chefe de Estado imediatamente após o colapso do regime de Ceausescu. Seu protegido, Adrian Nastase, que foi primeiro-ministro de 2000 a 2004, foi condenado diversas vezes de lá para cá por recebimento de propina e por chantagem. O protegido de Nastase, Victor Ponta, que foi primeiro-ministro de 2012 a 2015, foi acusado de corrupção, quebra de confiança e lavagem de dinheiro. O atual chefe do partido, o presidente do Parlamento, Liviu Dragnea, foi condenado por fraude eleitoral e também é acusado de abuso de poder e falsificação de documentos. O decreto planejado lhe permitiria, o homem-forte da política romena, escapar de uma sentença de prisão.

Mas ainda assim o partido conseguiu vencer as eleições parlamentares de dezembro com 45% dos votos. Como isso é possível? Há uma explicação simples, diz Burduja: "O PSD aumentou as pensões dos aposentados, dobrou a ajuda aos estudantes e lhes concedeu viagens gratuitas de trem. Os estudantes, entretanto, agora estão dizendo obrigado e viajando de graça para Bucareste, vindo de todas as partes do país, para protestar contra a arrogância daqueles no poder". Muitas das pessoas protestando hoje nem mesmo se deram ao trabalho de votar.

O que está em jogo além da reputação da Romênia

Laura Codruta-Kösevi, promotora-chefe da Diretório Nacional Anticorrupção da Romênia, está atualmente investigando 2.151 casos de abuso de poder e lidera uma equipe de 220 promotores. Ela é celebrada nos círculos da União Europeia e entre os manifestantes em Bucareste.

Ao todo, os prejuízos nos casos em questão chegam a mais de um bilhão de euros, o que significa que o decreto planejado pelo governo também prejudicaria o orçamento do país, não apenas sua reputação. Mas outras coisas estão em jogo além da reputação da Romênia: com um crescimento de quase 5% no ano passado e um entusiasmo inabalado pela União Europeia entre a população, o país está buscando se livrar de sua distinção de ser um dos países membros mais atrasados da UE.

Pelo menos 3 milhões romenos atualmente vivem e trabalham no exterior, mas outras estatísticas são mais encorajadoras: em relação ao produto interno bruto per capital, Buscareste e seus arredores superam Roma. Além disso, o produto econômico por todo o país está crescendo mais rápido do que em qualquer outra parte no continente.

Diante desses desenvolvimentos, a crise política ocorre em um momento ruim. Um voto de não confiança no governo fracassou na quarta-feira no Parlamento e os protestos por ora continuam. Uma petição, da qual Burduja está entre os signatários, nota que: "A história da Romênia está no momento sendo reescrita" e discute o que está em jogo, a liberdade, o Estado de direito, decência e a sociedade civil. A "Revolução da Luz" romena, diz a petição, é "um exemplo para toda a Europa e para a democracia em todo o mundo".

Foi em 1989 que protestos semelhantes tomaram as ruas da Romênia. Na época, milhões manifestavam contra o ditador comunista Nicolae Ceausescu, que acabou sendo derrubado e, juntamente com sua esposa, Elena, executado.

O homem que, em 22 de dezembro de 1989, disse pela televisão que "o ditador foi derrubado" e anunciou assim o fim do despotismo no país se chama Mircea Dinescu. Hoje ele é considerado o maior poeta vivo da Romênia e durante a ditadura era amplamente conhecido como "um rebelde profissional". Ele está atualmente com 66 anos e dirige uma propriedade cultural e gastronômica ambiciosa às margens do Danúbio, além de um restaurante em Bucareste chamado Lacrimi si Sfinti, ou "Lágrimas e Santos".

Cheio de dúvidas

Se você lhe perguntar se os eventos da semana passada o lembraram de 1989, Dinescu apenas ri. Ele diz não ver nenhuma conexão e busca se distanciar desse "tsunami social", essa aparição repentina de "lobos jovens", a forma como ele se refere a esta geração agressiva de ativistas políticos jovens. "As discotecas estão cheias aqui e os locais de votação estão vazios. É paradoxal que uma geração de jovens, que por anos demonstrou pouco interesse pela política, de repente esteja organizando manifestações pela internet com participação recorde, não é?"

Ele é cheio de dúvidas sobre a motivação dos políticos que agora apoiam os manifestantes e inclui o presidente romeno, Klaus Iohannis. Segundo ele, muitos permaneceram em silêncio por 27 anos sobre a disseminação do roubo de ativos do Estado romeno, para soar o alarme apenas agora. "É claro que é melhor quando os jovens se erguem em vez de ficarem sentados em casa", diz Dinescu. Mas, ele acrescenta, não ajuda ninguém quando as pessoas usam cartazes de Hitler para manifestar contra o governo esquerdista. Essa "opereta anticomunismo" é absurda, ele diz: "Gritar 'lixo vermelho' nas ruas quando você sabe que nada lhe acontecerá pode ser divertido, mas é apenas uma moda passageira".

Para Dinescu, as manifestações são mais como um evento, diferente de 1989. "Na época, não havia realmente um movimento no sentido exato", ele diz. "Em nenhum lugar no Leste Europeu havia tão poucos dissidentes quanto na Romênia. Nada teria acontecido nas ruas se Ceausescu não tivesse convocado as manifestações em massa, apenas para perceber tarde demais o quão errado estava a respeito do sentimento da população."

É uma análise correta, mas que ignora as condições na época. Em 1989 na Romênia, havia apenas duas horas de televisão por dia e poucas pessoas tinham telefones, sem falar de internet e redes sociais. Havia apenas uma única válvula de escape para a fúria represada na população e ela foi imediatamente liberada naquelas manifestações em massa convocadas por Ceausescu: os partidários leais reunidos, que supostamente deveriam ovacionar seu líder, em vez disso o vaiaram.

'Segunda Revolução'

Muitos dos manifestantes atuais são jovens demais para lembrar dos eventos de 1989. Mas provavelmente não é coincidência que movimentos de protesto semelhantes se desenvolveram nos últimos anos em muitos outros países da Europa Central e Oriental, como Macedônia, Croácia e Polônia. Os manifestantes da praça Maidan na Ucrânia também tinham preocupações semelhantes. Alguns cientistas políticos começaram a falar em uma "segunda revolução", cerca de 30 anos após a primeira.

Sebastian Burduja diz: "Me recordo de, aos quatro anos, ver meu pai com uma braçadeira revolucionária em seu casaco de inverno, enquanto a condenação e execução de Ceausescu passava na televisão".

Mas a resistência no século 21, ele diz, funciona de forma diferente. Mircea Dinescu e outros heróis do passado, diz Burduja, falam sobre os ativistas de oposição atuais quase como se tivessem esquecido de como outros falavam sobre eles três décadas atrás: "Quem são aquelas pessoas nas ruas?"

Burduja diz que isso não o incomoda, porque ele tem uma meta clara em vista: "Tenho um sonho de mudar este país e servi-lo".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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