Em único encontro com Trump, Bill Gates fala sobre as "maravilhas da vacina"

Markus Becker

  • Seth Wenig/ AP

    13.dez.2016 - Bill Gates chega ao Trump Tower, em Nova York

    13.dez.2016 - Bill Gates chega ao Trump Tower, em Nova York

Em meio a guerras, notícias falsas e Donald Trump, o risco de uma pandemia global tem recebido pouca atenção ultimamente. Em uma entrevista, o fundador da Microsoft e filantropo Bill Gates alerta sobre as consequências dramáticas disso.

Spiegel: Sr. Gates, por repetidas vezes especialistas alertaram contra pandemias catastróficas. Em 2002, foi a síndrome respiratória aguda grave (Sars), em 2005 foi a gripe aviária, em 2009 a gripe suína. E mesmo assim, todas as vezes uma catástrofe global não se materializou. Agora o senhor está dizendo que uma pandemia poderia causar 30 milhões de mortes nos próximos 10 a 15 anos. O senhor acha que as pessoas ainda estão ouvindo?

Bill Gates: O fato de que não houve uma pandemia catastrófica na história recente não significa que não haverá outra. E certamente não estamos preparados para a próxima pandemia. É difícil afirmar a probabilidade de uma ampla epidemia natural ou uma epidemia do tipo bioterrorista causada intencionalmente. Mas não é zero, então venho falando que precisamos fazer mais a respeito.

Spiegel: Em 1918, o vírus da gripe espanhola causou até 50 milhões de mortes em todo o mundo. Por que o senhor acha que agora, quase 100 anos depois, o mundo continua despreparado?

Gates: Uma das razões é o fato de que as pessoas se esquecem. Quando você diz que depois da Primeira Guerra Mundial houve uma pandemia que matou mais gente do que a guerra em si, a maioria das pessoas dirá: "Espera aí, está falando sério? Eu conheço a Primeira Guerra Mundial, mas não houve uma Primeira Guerra Mundial e Meia, houve?" Mas as pessoas viajaram pelo mundo depois da guerra, e isso significou que a força da infecção foi muito maior. E o problema é que o índice de viagens de volta ao país de origem era drasticamente menor do que o que temos hoje.

Spiegel: Quais são as outras razões?

Gates: As prioridades, por exemplo. Eu tenho essa visão muito positiva de que o mundo está ficando cada vez melhor. A lista de coisas que poderiam ser entraves enormes não é muito longa: uma guerra nuclear, mudança climática e epidemias. Hoje levamos bastante a sério o risco de uma guerra nuclear, a mudança climática nem tanto, e as epidemias menos ainda. Mas nenhum país, nem mesmo os Estados Unidos, está bem preparado. E mesmo que um país esteja fazendo as coisas certas para se proteger, isso precisa ser algo global. Precisamos cooperar de forma global na prevenção e no preparo para epidemias da mesma forma que estamos cooperando de forma global para impedir que as pessoas produzam armas nucleares.

Spiegel: Um problema que há no preparo para as epidemias é o fato de que boa parte da ciência envolvida tem um uso duplo: novas ferramentas podem ajudar na proteção contra os vírus, mas elas também podem ser transformadas em armas.

Gates: É bom o fato de que a ciência esteja desenvolvendo ferramentas para fazer o diagnóstico, o tratamento e a proteção. Em 1990, uma de cada dez crianças morriam antes de completarem 5 anos de idade. Hoje esse índice caiu para uma entre cada 20, e as vacinas foram o maior fator para isso. Se o índice tivesse permanecido em 10%, 122 milhões de outras crianças teriam morrido. A má notícia é que a ciência também está tornando mais fácil para atores não estatais criar patógenos que causem uma epidemia. Mas os tipos de coisas que você deve fazer para se preparar para uma epidemia natural ou bioterrorista são quase que exatamente as mesmas.

Spiegel: Fazer com que os governos se preparem é uma coisa. Mas será que teremos um número suficiente de pessoas dispostas a se vacinarem? O ceticismo a respeito da vacinação parece estar crescendo novamente, talvez também por causa da diminuição da confiança do público nas opiniões de especialistas.

Gates: Se houvesse uma epidemia, isso definitivamente faria com que as pessoas aceitassem as vacinas. É claro que eu não gostaria que isso acontecesse, mas se você quisesse que as pessoas adorassem vacinas, uma epidemia lhes lembraria de quão mágicas elas são. Nós erradicamos completamente a varíola; nós quase erradicamos a poliomielite. Esse é o milagre das vacinas, que é até maior do que o dos antibióticos. As vacinas são extremamente bem testadas, e a segurança delas é bem compreendida. As falsas alegações de que vacinas causam autismo foram refutadas. Mas ainda há ecos por aí confundindo as pessoas.

Spiegel: "Ecos" soa um pouco como um eufemismo, considerando que o próprio presidente Trump abraçou repetidamente a ideia de que as vacinas causam autismo, mesmo depois de sua posse. Durante a campanha, ele se encontrou com Andrew Wakefield, o cientista que foi autor da teoria de que vacinas causam autismo usando dados fabricados. Isso prejudica a confiança do público nas vacinas? E o que isso diz sobre a abordagem de Trump a respeito de uma abordagem científica e baseada em fatos, em geral?

Gates: Eu só tive um encontro com o sr. Trump, depois que ele foi eleito em dezembro, e tive uma oportunidade de explicar sobre as vacinas e como elas são incríveis.

Spiegel: Parece que o senhor não foi muito bem-sucedido. Em janeiro, surgiram relatos de que o sr. Trump está planejando pedir a uma comissão que examine a teoria do autismo novamente, e aparentemente ele quer que ela seja dirigida por Robert F. Kennedy Jr., um notório cético a respeito da vacina.

Gates: A administração ainda não fez nada de oficial a respeito desse assunto. Acho que, na pior das hipóteses, eles pediriam para que uma comissão examinasse o tema, o que seria uma pena, porque não existem de fato questões em aberto a respeito disso. Mas se for o caso, a comissão --presumindo que seria um grupo científico-- chegaria exatamente a essa conclusão.

Spiegel: O senhor se diz um otimista, que as coisas vão melhorando com o tempo. Isso faz com que o senhor se sinta solitário, às vezes?

Gates: O fato é que a abordagem "cada vez melhor" não é muito apreciada. Não estou dizendo que não existem problemas imensos. Mas coisas boas tendem a acontecer de forma gradual, ao passo que a violência ou catástrofes são consideradas mais dignas de virarem notícia. Se você diz para as pessoas que hoje existe menos violência do que no passado, elas ficam espantadas. Mas é a verdade, ainda que coisas horríveis estejam acontecendo na Síria e no Sudão.

Tradutor: UOL

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