"Queríamos criar progresso no Irã", diz imperatriz iraniana exilada

Susanne Koelbl

  • Jean Paul Pelissier/ Reuters

    15.abr.2005 - Farah Pahlavi e seu filho Alirezza no funeral do príncipe Rainier 3º de Mônaco, em Monte Carlo

    15.abr.2005 - Farah Pahlavi e seu filho Alirezza no funeral do príncipe Rainier 3º de Mônaco, em Monte Carlo

A coleção do Museu de Arte Contemporânea de Teerã estava prevista para ser exposta em Berlim em dezembro, mas autoridades iranianas negaram permissão para que as obras de arte saíssem do país. A "Spiegel" falou com a ex-imperatriz Farah Pahlavi, que reuniu a coleção nos anos 1970. Ela está vivendo no exílio há 38 anos.

As fotos das cerimônias de inauguração do Museu de Arte Contemporânea de Teerã de 1977 retratam um país que não existe mais. Elas mostram homens dançando sem pudor de calças justas e óculos escuros, enquanto artistas performáticas mulheres se vestiam somente com fios de lã vermelha. O hedonismo dos anos 1970 aparecia de forma escancarada nas imagens, mostrando que Teerã também estava experimentando a ascensão de uma geração mais jovem.

Essas imagens, que agora estão em exposição na Box Freiraum, no bairro berlinense de Friedrichshain, foram tiradas pela fotógrafa iraniana Jila Dejam. Originalmente, as fotos deveriam acompanhar uma exposição planejada para dezembro no museu de arte Gemäldegalerie em Berlim de obras do Museu de Arte Contemporânea de Teerã. A exposição havia sido concebida como um símbolo de reconciliação cultural entre o Ocidente e o Irã após o chamado acordo nuclear.

A imperatriz do Irã na época, Farah Pahlavi, havia iniciado a coleção nos anos 1970, em parte como busca do seu sonho de estabelecer o Irã como um país cosmopolita e moderno, mesmo com um regime cruelmente injusto. A revolução de 1979 acabou com esse sonho, mas incrivelmente as obras de arte em si sobreviveram. Elas permanecem no porão do museu, em sua maior parte inacessíveis.

Durante uma visita a Teerã em 2015, o ministro de Relações Exteriores na época, Frank-Walter Steinmeier, recebeu permissão para realizar uma exposição em Berlim de 60 obras de arte iranianas e internacionais de sua coleção, incluindo uma pintura de Mark Rothko e de Jackson Pollock chamada "Mural em Solo Indiano Vermelho". Hermann Parzinger, presidente da Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, disse que esperava que a possível exposição não fosse só promover um diálogo com o Irã, mas também fortalecer "forças progressistas e a sociedade civil". No entanto, no final a autorização oficial para enviar as obras de arte para Berlim foi negada.

Farah Pahlavi, que hoje está com 78 anos de idade, está vivendo no exílio desde 1979. Ela recebe convidados em seu apartamento em Paris, cercada por arte moderna e fotos de sua família.

Spiegel: Senhora Farah Pahlavi, a senhora teria viajado para Berlim para ver a exposição da coleção de arte que a senhora reuniu no Irã?

Pahlavi: Ah, sim! Eu definitivamente teria viajado para Berlim e visitado, embora somente após a abertura oficial. Eles não poderiam me impedir. É um país livre!

Spiegel: Quando a senhora diz "eles", está se referindo ao regime do aiatolá em Teerã?

Pahlavi: Sim. A exposição era interessante para mim por duas razões. Primeiro, ela teria mostrado as coisas positivas que foram feitas antes da revolução, durante nossa época. Segundo, de repente a mídia e todo mundo estavam falando sobre mim novamente, sobre o que fizemos e não tanto sobre o que o regime atual está fazendo hoje.

Spiegel: O governo iraniano se negou a ceder a autorização para que a coleção de arte saísse do Irã. Os aiatolás ainda têm medo de vocês, 38 anos depois que Mohammad Reza Shah Pahlavi deixou o Irã?

Pahlavi: Muitas pessoas ainda falam sobre meu marido. Me dá energia e coragem o fato de que iranianos nas ruas, tanto aqui em Paris como nos Estados Unidos, me beijam e me abraçam do nada, especialmente os jovens, pessoas que nasceram depois que tivemos de deixar o Irã. Através da internet e da televisão, eles sabem como era o Irã naquela época. Eles sabem como ele poderia ser hoje, e culpam seus pais pelo que aconteceu.

Spiegel: Com o cancelamento da exposição, o Irã e o Ocidente, a Alemanha, perderam uma oportunidade de uma reconciliação verdadeira?

Pahlavi: Se você quer criar um diálogo que possa ajudar a abrir o Irã, isso requer mais do que só exibir um Picasso. Você precisaria fazer algo dentro do país, trabalhar por mais liberdade, por mais direitos humanos. Mas a Alemanha já começou a fazer negócios novamente com o Irã. Para mim, parece que isso é mais importante do que qualquer outra coisa.

Spiegel: Por que a senhora começou a comprar arte moderna quando montou sua coleção?

Pahlavi: No começo dos anos 1960, estive em muitas galerias de arte, conheci artistas e comprei seus trabalhos. Os ricos do Irã estavam comprando arte iraniana antiga, não o trabalho de artistas modernos. Uma pintora me disse: "Eu queria que tivéssemos um lugar permanente para deixar nossas obras de arte", e assim nasceu a ideia de construir um museu para artistas iranianos. E por que não obras de arte estrangeiras também, quando o resto do mundo tem arte iraniana em seus museus?

Spiegel: A curadora da coleção, Donna Stein, veio dos Estados Unidos. As performances de dança na cerimônia de abertura foram bem vanguardistas. Algumas delas eram até completamente lascivas e provocativas, pelo menos para um país tradicional e conservador como o Irã na época. A maior parte da população vivia na pobreza. A senhora vivia em uma bolha?

Pahlavi: Acho que não. O Irã não era um país conservador. Não sei por que algumas pessoas acham que somente o Ocidente pode ter museus de arte moderna e contemporânea. Eu viajei muito pelo Irã, conversando com as pessoas. Meu marido estava trabalhando para trazer avanços para o país. Ele a chamava de Revolução Branca.

Spiegel: Um programa para modernizar o país, com o intuito de reduzir a influência dos tradicionalistas.

Pahlavi: Pretendíamos nos tornar um país moderno. Meu marido iniciou uma reforma agrária para acabar com o sistema feudal; direitos iguais para as mulheres; direitos dos trabalhadores; e a nacionalização das florestas e dos recursos hídricos. Educação, hospitais, bibliotecas, economia e indústria. Queríamos criar progresso. É claro, os religiosos, como o aiatolá Khomeini, eram contra tudo isso.

Spiegel: Um jornal americano escreveu na época que a inauguração do Museu de Arte Contemporânea de Teerã era equivalente a provocar um conflito entre uma das mais antigas civilizações do mundo e o mundo ocidental moderno dos anos 1970.

Pahlavi: De certa forma, isso é olhar para os iranianos como se fossem inferiores. Os iranianos têm muita cultura e história. Persépolis foi construída por trabalhadores pagos, não escravos. O cilindro de Ciro, o Grande, do século 6 a.C., foi um precursor da carta de direitos humanos da ONU. As pessoas dizem, "vocês foram rápido demais". Mas que governo progressista não quer ir rápido? Lembro-me de uma conversa que tive com Henry Kissinger no Egito muitos anos atrás, quando eu disse que talvez devêssemos ter aberto a sociedade cinco ou seis anos antes e a revolução não teria acontecido. Ele respondeu que se tivéssemos feito isso, então ela teria acontecido cinco ou seis anos antes.

Spiegel: A coleção contém a obra de Francis Bacon "Two Figures Lying on a Bed with Attendants", mostrando dois homens nus deitados juntos. Isso era apropriado para o Irã dos anos 1970?

Pahlavi: Não houve uma reação para pinturas como essa quando o museu foi inaugurado. Todos estavam muito felizes e orgulhosos. Nem todos na sociedade aceitavam gays na época. Eles estavam lá, mas não de forma tão aberta quanto na Europa de hoje. Mas essas pessoas agora...

Spiegel: …a senhora se refere aos clérigos revolucionários?

Pahlavi: Exato. Eles dizem que não gostam dessa pintura. Mas, por favor, lembre-se do que eles fizeram quando tomaram conta: eles estupraram garotas virgens que se opunham a eles antes de enforcá-las, para se certificar de que elas não iriam para o paraíso.

Spiegel: A revolução começou poucos meses depois da inauguração do museu. A revolução não foi também uma reação contra a profunda divisão na sociedade, a desigualdade da distribuição de renda e o estilo de vida das elites?

Pahlavi: Nunca ouvi nenhuma crítica sobre o museu. Todos estavam contentes com ele na época, e todos estão contentes com ele hoje. É um patrimônio cultural fundamental, e nem sei o quão mais valioso ele é hoje do que quando o criei.

Spiegel: Como foi possível vocês não conseguirem reconhecer as perigosas tendências sociais que por fim derrubaram vocês?

Pahlavi: Não administramos bem a situação, do contrário não teria acontecido. Nossos inimigos estavam bem organizados e nós, não. Muitos deles foram treinados em campos da Palestina, em Cuba e outros lugares.

Spiegel: O xá tinha uma das maiores e mais bem equipadas forças armadas da região.

Pahlavi: Os comunistas da União Soviética, da China e os esquerdistas eram contra nós e se juntaram ao Khomeini. Meu marido a chamou de coalizão profana do vermelho e do preto, onde o vermelho eram os comunistas e o preto eram os religiosos fanáticos. Talvez não soubéssemos o que estava acontecendo nas mesquitas e subestimamos o que essas pessoas estavam fazendo. Não conseguíamos acreditar que, depois de tudo que o xá havia feito pelo país, ele seria substituído por alguém como Khomeini. A publicidade contra o Irã feita pelos Estados Unidos e pela Europa também os ajudou. Os discursos de Khomeini eram transmitidos pela BBC antes que as fitas alcançassem o Irã.

Spiegel: Muitos odiavam o xá, mas ao mesmo tempo, muitos gostavam da senhora, a imperatriz. Um proeminente aiatolá lhe ofereceu um retorno seguro ao Irã se a senhora matasse seu marido primeiro.

Pahlavi: Não considero como iranianos essas pessoas. Eles mataram muita gente.

Spiegel: Antes da revolução, o notório serviço de inteligência Savak empregava torturas de forma sistemática contra a oposição para silenciá-los ou fazer com que eles falassem. Eles usavam choques elétricos, queimaduras, extração de unhas e dentes, estupro.

Pahlavi: Havia muitas mentiras e histórias exageradas. Alguns esquerdistas, que inicialmente apoiaram a revolução, disseram de forma pública e oficial à mídia iraniana que eles estavam propagando essas mentiras. Gostaria de recomendar a você as constatações do Dr. Emadeddin Baghi, um ex-seminarista que recebeu a missão da República Islâmica de identificar cada vítima da era Pahlavi. O sr. Baghi ficou surpreso de descobrir que em vez das 100 mil mortes, ele só conseguiu confirmar 3.200.

Spiegel: Um estudo reconhecido internacionalmente sobre o número de prisioneiros políticos e assassinatos nunca foi conduzido. Mas mesmo se fosse muito menor, ainda seriam violações dos direitos humanos. Por que a senhora não interveio?

Pahlavi: Eu não podia fazer nada a respeito.

Spiegel: A senhora era a imperatriz. A senhora e o xá podiam fazer qualquer coisa.

Pahlavi: Não, não era tão simples assim. Havia um governo e havia outras pessoas influentes.

Spiegel: Era necessário torturar e matar?

Pahlavi: Não. E se for verdade, lamento que tenham feito isso. Gostaria que não tivessem feito isso. Trinta e oito anos se passaram e todas essas histórias negativas e extremamente exageradas foram repetidas muitas e muitas vezes. Gostaria que você escrevesse sobre o que está acontecendo hoje na República Islâmica.

Spiegel: A senhora sabia sobre as torturas?

Pahlavi: Eu havia ouvido falar a respeito, mas não tinha certeza de se era verdade. Você está comparando nosso país com democracias ocidentais, mas não podíamos criar uma democracia da noite para o dia. Leva tempo até que as pessoas se eduquem e se tornem politicamente engajadas. Eu estava envolvida em tantas atividades para trazer avanços ao país: ajudando com hospitais de leprosos, ajudando os mentalmente desprovidos, aqueles que não podiam ver, aqueles que não podiam ouvir. Fizemos filmes, publicamos livros, abrimos bibliotecas infantis em todo o país para que as pessoas pudessem aprender a ler. Levamos de jipe e em mulas livros para os vilarejos mais remotos. Você precisa julgar todos fazendo um balanço, considerando os aspectos positivos e negativos. Na vida de meu marido, acho que os positivos superam os negativos.

Spiegel: O seu marido deveria ter sido mais contundente na repressão ao levante?

Pahlavi: Muitas pessoas se perguntam por que o xá não agiu de forma mais incisiva no começo, simplesmente matando pessoas ou prendendo mais delas. Mas meu marido dizia: "Não quero manter meu trono às custas do sangue das pessoas". E o mundo ocidental ajudou (no levante).

Spiegel: Depois que a senhora fugiu do Irã, nenhum país queria aceitar a senhora e sua família. Como é possível sobreviver depois de uma queda tão brusca?

Pahlavi: Os esportes me ajudaram. Eu me forcei a jogar tênis. Ainda havia muitas pessoas que nos apoiavam, embora não fossem muitas. Eu sempre soube quem era meu marido e eu sabia quem eu era. Eu queria manter elevado o moral de meu marido e de meus filhos, também pela minha própria autoestima. Eu sabia que se eu estivesse sofrendo, meu inimigo não ia sofrer.

Spiegel: A senhora teve depressão?

Pahlavi: Tive. Fui a um psicólogo. Tomei remédios por algum tempo, mas depois parei porque eles me faziam me sentir ainda pior. Hoje digo a mim mesma: até o momento resisti, e já faz 38 anos. E se eu cair morta algum dia, bem, vou cair morta. E daí?

Spiegel: Sua filha Leila não sobreviveu. Ela e um de seus filhos tiraram suas próprias vidas.

Pahlavi: É uma ferida no meu coração que nunca vai sarar. Eles eram ambos tão inteligentes e esforçados, com todos seus problemas. As pessoas gritavam nas ruas "Fora, Xá" e coisas do tipo, e íamos mudando de um lugar para outro. Quando jovens, eles ouviram tantas coisas negativas, na televisão e nos jornais. Deus sabe. Muitas vezes penso se eu poderia ter feito alguma coisa. Mas não adianta de nada, eles não estão mais aqui.

Spiegel: O que o futuro reserva ao Irã?

Pahlavi: Eu sempre quero pensar positivo. Em nossa longa história, o Irã foi invadido por tantos outros países e, apesar de tudo, a identidade iraniana sobreviveu. As pessoas são muito corajosas, especialmente as mulheres, que são mais corajosas que os homens.

Spiegel: Senhora Farah Pahlavi, obrigado por esta entrevista.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos