Entrevista: "meu irmão virou um político islamofóbico e eu vivo escondido"

Claus Hecking

  • Robin van Lonkhuijsen/ ANP/ AFP

    O político holandês Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (PVV, extrema-direita)

    O político holandês Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (PVV, extrema-direita)

Geert Wilders costuma fazer discursos contra muçulmanos e imigrantes para angariar votos. Em uma entrevista, Paul Wilders explica como seu irmão se tornou um islamofóbico e como ele vive: escondido, protegido por segurança e sob constante medo de ameaças de morte.

Paul Wilders, 62, é nove anos mais velho que seu irmão Geert, o populista holandês de direita mais conhecido por seus discursos contra imigrantes e muçulmanos. Há eleições gerais marcadas para o dia 15 de março no país, e o Partido pela Liberdade (PVV) de Wilders está no momento ligeiramente à frente do partido do atual primeiro-ministro Mark Rutte nas pesquisas.

Spiegel: Sr. Wilders, durante anos o senhor não deu nenhuma declaração pública sobre seu irmão Geert. Mas agora o senhor o criticou através do Twitter. Por quê?

Wilders: Após o ataque terrorista em Berlim, Geert publicou uma fotomontagem mostrando (a chanceler alemã) Angela Merkel com sangue nas mãos. Ele passou dos limites. Isso não é mais uma crítica política, é disseminação de ódio. Meu irmão sabe que alguns de seus partidários levam suas mensagens ao pé da letra, e que eles usam o Facebook para incitar atos de violência. Geert não quer violência, mas ainda assim ele aceita as consequências em potencial de tais mensagens.

Spiegel: Seu irmão pinta a si mesmo como o verdadeiro representante do povo holandês...

Wilders: …E ainda assim poucos políticos têm tão pouco contato com o povo quanto Geert. Ele simplesmente não pode sair na rua. Ele e sua mulher têm vivido em um lugar secreto há 12 anos, e eles precisam de segurança pessoal permanente. Ele já recebeu várias ameaças sérias de morte de islamitas. Sempre tem uma equipe de segurança do lado de fora quando ele está em seu apartamento. Ele precisa de guarda-costas quando sai para fazer compras, que até mesmo participam de nossos eventos de família. O mundo de Geert ficou muito pequeno. Ele consiste em parlamento, eventos públicos e seu apartamento. Ele mal pode ir para qualquer outro lugar. Ele é socialmente isolado e alienado de uma vida normal. Isso não é bom para ninguém.

Spiegel: E ainda assim ele é surpreendentemente popular entre os holandeses.

Wilders: Ele é um mestre das mensagens breves. E nesses tempos complexos, isso é exatamente o que muitos querem: uma visão política simples, sem nenhuma nuance. Geert dá isso a eles. Ele cria uma identidade: Nós, o povo holandês. E ele também cria polos opostos: muçulmanos, a União Europeia, as elites. Ataques terroristas, refugiados e a crise do euro geram medo e insatisfação. Meu irmão, a populista francesa Marine Le Pen e outros estão se aproveitando desse clima e oferecendo soluções aparentemente simples: expulsar os imigrantes, fechar as fronteiras, sair da União Europeia. Mas nossos problemas são muito mais complexos. Geert vende ilusões para as pessoas.

Spiegel: Como assim?

Wilders: Por exemplo, em sua plataforma de campanha, ele promete fechar as mesquitas e banir o Corão. Como isso funcionaria, de um ponto de vista prático? Isso violaria nossa Constituição, o que significa que a medida teria de ser aprovada por ambas as câmaras do parlamento por uma ampla maioria. Considerando nosso cenário político, com seus muitos partidos, ele nunca terá sucesso. Para se tornar primeiro-ministro, Geert precisaria de diversos parceiros de coalizão, ou precisaria do apoio de diversos partidos em um governo de minoria. Ele teria de fazer concessões e quebrar promessas de campanha.

Spiegel: O seu irmão realmente acredita naquilo que prega, ou é tudo uma encenação?

Wilders: Ele é um ferrenho opositor do islamismo. Mas, é claro, há muita estratégia e sede pelo poder no meio. Geert não tem muito mais na vida além de política. Seu destino depende de seu sucesso político.

Spiegel: Como ele era quando adolescente?

Wilders: Ele era terrível, egocêntrico e agressivo.

Spiegel: O que ele fazia?

Wilders: Não quero revelar nenhum detalhe particular, mas ele já era radical na época, mesmo para um adolescente. Ele é bitolado e não acredita em concessões. Sabe, minha mãe vive para seus filhos, e ela nos ama profundamente. Mas o comportamento de Geert para com ela e meu pai era tão estarrecedor que eles ameaçaram expulsá-lo de casa um dia. Meu irmão melhorou depois disso. Depois de terminar a escola, ele foi para Israel, onde trabalhou em um assentamento e virou adulto.

Spiegel: Como ele entrou para a política?

Wilders: Quando ele trabalhava para uma agência governamental no final dos anos 1980, ele descobriu irregularidades. Ele queria mudar as coisas. Nós dois passamos horas discutindo sobre a qual partido ele deveria se filiar. Na época ele não era claramente nem de esquerda nem de direita, nem era xenófobo. Mas ele era fascinado pelo jogo político, pela luta por poder e influência.

Spiegel: Como ele se tornou um opositor radical do islamismo?

Wilders: Foi um processo que levou anos. Em Israel, ele testemunhou as tensões com os palestinos. Depois, quando ele estava vivendo em Utrecht, um número cada vez maior de turcos e marroquinos foi morar em seu bairro, e ele não gostou disso. Quando ele era um jovem membro do parlamento, ele repentinamente saiu de uma delegação que estava visitando o Irã. Ele se sentiu tão ameaçado que de repente correu do hotel para o aeroporto e pegou o primeiro voo de volta para casa. Depois do 11 de setembro, e dos assassinatos do político Pim Fortuyn em 2002 e do cineasta Theo van Gogh em 2004, ele reconheceu que havia uma brecha no cenário político, e começou a construir uma reputação como opositor do islã. E então vieram as ameaças de morte, e quando você precisa de segurança constante por causa disso, você fica ainda mais paranoico.

Spiegel: Ele pode ser moderado?

Wilders: No começo, discutimos muito sobre até onde você pode ir. Mas não ajudou. Quando se trata de política, Geert não tolera nenhuma contradição, nem em sua vida privada, nem em sua bancada parlamentar. Muitos de seus antigos amigos se afastaram dele.

Spiegel: E a família?

Wilders: De vez em quando nos reunimos em eventos de família, em geral para o aniversário de minha mãe. Mas nunca conversamos sobre política nessas ocasiões. É um tabu. Todos sabem que se começássemos uma discussão ou de fato o criticássemos, ele iria embora e nunca mais o veríamos novamente. Ele cortaria qualquer forma de contato.

Spiegel: Com o senhor também?

Wilders: Ele me bloqueou no Twitter desde que o critiquei em dezembro. É assim que são as coisas com ele. Aqueles que o contrariam são punidos. Só existe preto e branco para o Geert, sem nuances. Mas eu não podia ficar calado. Existe mais em jogo aqui do que essas eleições. É uma questão de se nos isolamos, fechamos as fronteiras e discriminamos as pessoas por causa de sua religião ou suas diferentes opiniões. Recentemente, passei por um grupo de jovens, que de repente gritaram: "Vamos te fazer uma visitinha depois da eleição e acertar as contas".

Spiegel: O senhor também está sob proteção policial?

Wilders: Não. Quero levar uma vida normal e não ser pego em uma armadilha como meu irmão. Ele provavelmente precisará de segurança para o resto da vida. E mesmo que ele perca a eleição, ele precisa continuar fazendo o que faz. O que mais ele faria? Não há como voltar atrás. Tenho pena dele.

Spiegel: Mas o senhor ainda ama seu irmão?

Wilders: É claro. Do ponto de vista político, discordo dele completamente. Mas ele é meu irmão. Acho que ele está infeliz, e isso me deixa infeliz também.

Tradutor: UOL

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