Principal teórico da conspiração dos EUA é o maior propagandista de Trump

Veit Medick

Em Austin (Texas, EUA)

  • Ilana Panich-Linsman/The New York Times

    Alex Jones se prepara para apresentar seu programa em seu estúdio em Austin, Texas

    Alex Jones se prepara para apresentar seu programa em seu estúdio em Austin, Texas

O apresentador de rádio de direita Alex Jones é o principal teórico da conspiração dos EUA. Ele tem milhões de ouvintes, mas o mais poderoso é simplesmente o presidente Trump. "Der Spiegel" conheceu seu império de mídia em Austin.

São quase 11h, faltando três minutos para o programa começar. Faz 18 graus no estúdio com ar-condicionado, mas Alex Jones está suando. Ele enxuga a testa e examina a agenda do dia.

Seus funcionários encontraram vários escândalos excelentes, diz Jones, que deveriam ter sido denunciados há muito tempo. Entre eles, os supostos "planos secretos" de grandes empresas da internet de bloquear sites conservadores na web e a "verdade" sobre a contaminação radioativa na usina nuclear de Fukushima. "Jesus, por onde devemos começar?", diz Jones com um resmungo.

As telas se acendem atrás dele. Uma pequena luz vermelha começa a piscar. Três, dois, um... câmeras. "Estamos ao vivo", diz Jones no microfone. "É quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017, e os democratas estão se derretendo como um bando de crianças doentes mentais."

Flertando com a corrente dominante

Não, Jones não é um apresentador de rádio comum. O fundador do site Infowars vive em seu próprio mundo nos últimos 20 anos. É um mundo de amigos e inimigos definidos, cheios de intrigas e escândalos, ocultamentos e conspirações. Jones está convencido de que as elites globais formaram uma aliança contra os EUA para destruir o país. Ele dissemina essa mensagem cinco dias por semana no programa Alex Jones, transmitido de Austin, Texas. Seu programa é retransmitido em mais de cem estações de rádio e seu site alcança milhões de americanos.

Alex Jones, 43, é o principal teórico da conspiração dos EUA. No passado, foi rotulado como uma figura maníaca, marginal. Mas agora, como ele diz, está em contato regularmente com o presidente e lhe passa suas ideias. "Trump e eu conversamos várias vezes depois da eleição, sobre liberdade e nosso objetivo comum de destruir nossos inimigos."

Os tempos mudaram nos EUA. Desde novembro, figuras maníacas e marginais se aproximaram da corrente dominante, e nos tempos de fatos alternativos as pessoas com uma visão de mundo bizarra de repente se tornam influentes na mídia. A ninguém isso se aplica melhor que a Jones.

Jones ofereceu a Donald Trump seu apoio decidido durante a campanha eleitoral, e agora o presidente dos EUA é seu fã mais poderoso, dando-lhe uma linha direta com a Casa Branca. "Sua reputação é incrível", elogiou Trump quando participou do programa de Jones durante a campanha. "O que você está fazendo é épico. No nível de George Washington", disse Jones, retribuindo o cumprimento.

Já era motivo de decepção na época que Trump estivesse se aliando a Alex Jones, homem que disse um monte de loucuras durante a vida inteira. Por exemplo, ele acredita que o governo possui armas climáticas que pode usar para criar tornados artificiais. Ele está convencido de que o casamento gay é uma conspiração de uma sociedade secreta global, "para encorajar o rompimento da família" e "livrar-se de Deus". Ele tem "95% de certeza" de que o World Trade Center não foi destruído por um ataque em 11 de setembro de 2001, mas foi na verdade explodido pelo governo. O massacre na escola Sandy Hook em 2012, em que morreram 20 crianças? Um "boato" criado por defensores do controle de armas. Não há tema sobre o qual Jones não tenha sua própria versão da verdade, sustentada por fato nenhum.

"Dois santos do mesmo zeitgeist"

O próprio Trump é inclinado a mentiras, invenções e meias verdades, e é por isso que sua relação com Jones é tão desconcertante. Os dois homens compartilham uma paixão por decompor o complexo mundo da política em ideias simples. Os dois atraem um público que poderia muito bem viver sem o Congresso em Washington. Eles adoram emoções cruas e quebrar tabus, e odeiam as empresas da grande mídia e as redes de TV, juntamente com o establishment republicano. "Somos dois santos do mesmo zeitgeist", diz Jones.

Com Trump tendo declarado guerra à mídia da corrente dominante, Jones se considera a vanguarda jornalística. Algumas pessoas em Washington temem que seu modo de pensar obscuro afete a elaboração de políticas. Quando Trump recentemente fantasiou sobre milhões de votos ilegais e acusou a imprensa de relatar de modo insuficiente os atentados terroristas, foi Alex Jones que muitos ouviram nessas palavras. Ele foi um dos primeiros a espalhar essas teorias. O mesmo se aplica à alegação sem sustentação científica, na qual Trump acredita, de que as vacinas provocam autismo.

Alex Jones, um homem baixo e forte de rosto redondo e queixo pontudo, dedica muito tempo a nossa conversa, usando as pausas em seu programa de entrevistas para comentários rápidos, oferecendo-me água e falando sobre seus três filhos. "É difícil desligar", diz ele. "Eu constantemente vejo propaganda em todo lugar."

O estúdio de Jones está localizado em uma área industrial nos arredores de Austin, no Texas. Por razões de segurança, sua localização exata não será revelada. Há câmeras de vigilância acima da entrada, cortinas pretas nas janelas, e os convidados têm de assinar acordos de confidencialidade. Todo mundo em Austin conhece Jones. Quando ele aparece em público, as pessoas o apontam ou lhe pedem autógrafos. Jones está preocupado com sua segurança e tem um guarda-costas. Você nunca sabe, diz.

Filial de propaganda de Trump?

Uma placa na parede na entrada do estúdio diz: "Liberdade ou morte". As palavras "Lágrimas liberais" estão impressas sobre o bebedouro de água no corredor. O reino de Jones é enorme. São quatro estúdios, e o equipamento de ponta faz parecer que fazem parte de uma rede nacional. Há uma grande sala em que se gravam vídeos promocionais, e há escritórios abertos e áreas de recreação com uma mesa de pingue-pongue e máquinas de jogos. Jones chama seus escritórios de "Comando Central Texano e Coração da Resistência".

Pela primeira vez em sua vida, diz Jones, ele está um pouco mais esperançoso de que o fim dos EUA possa ser evitado, afinal. O mais perturbador sobre isso, porém, é que Jones começou a tratar sua empresa como uma espécie de filial de propaganda da Presidência, que está mobilizando a infantaria para salvar a pátria. Isto pode ser mais perigoso do que simplesmente espalhar algumas teorias da conspiração infundadas.

Juntamente com sites nacionalistas de direita como Breitbart News, Gateway Pundit e LifeZette, que também têm bom acesso à Casa Branca, Jones considera-se parte de uma frente de extrema-direita que visa romper o poder da mídia tradicional. Quando fala sobre o presidente, parece que estivesse se referindo a um Führer. Fala sobre as primeiras semanas da Presidência de Trump como "uma vitória total".

Proibição à imigração? As deportações? O sonho de Trump de um Estado policial? Todas ideias maravilhosas, diz Jones, que acredita que hoje os EUA precisam é de firmeza.

Exposição pública máxima

Sua identificação 100% com Trump já estava evidente todos os dias durante a campanha. Ele disparou piadas cheias de ódio contra os democratas durante meses. A candidata democrata, Hillary Clinton, e o então presidente Barack Obama foram seus alvos em outubro. Em seu programa, ele chamou Hillary de "demônio do inferno abjeta e psicopata" e disse que tinha ouvido falar que "Obama e Hillary cheiram a enxofre".

Suas palavras se disseminaram como fogo na mata. Clinton mencionou Jones, e Obama brincou sobre ele durante uma aparição, cheirando sua mão e sorrindo. A cena se tornou uma sensação na internet, mas também deu a Jones uma enorme exposição pública.

Jones não é louco. Ele é lido, sabe fazer pesquisas e conhece um pouco a política internacional. Quando o microfone está desligado, seu discurso às vezes parece seco como se ele fosse membro da Comissão Europeia. Mas quando o microfone está ligado, ele entra em seu papel e se torna uma fúria.

Jones cresceu em um subúrbio de Dallas, onde seu pai era dentista e sua mãe, dona de casa. Depois do colégio, conheceu o mundo dos teóricos da conspiração por meio da John Birch Society, uma organização de extrema-direita e anticomunista. Ele testou suas teorias no rádio. Depois que um extremista de direita cometeu um ataque a um prédio federal em Oklahoma City, em abril de 1995, Jones acusou o governo de estar envolvido. Ganhou fama em Austin, onde uma estação local lhe deu um programa próprio. Lançou o site Infowars [Guerras de informação] em 1999.

Câmaras de eco do ódio

A ascensão de Jones à proeminência é um exemplo de como a internet revolucionou e até certo ponto envenenou a mídia americana. Produtos de pequenos nichos às vezes se tornaram operações impressionantes. Marcas estabelecidas estão lutando por sobrevivência, enquanto plataformas alternativas como Breitbart News, Newsmax e Infowars estão criando seus próprios mundos. Eles são câmaras de ódio, e se tornaram um lar para os que buscam respostas fáceis em um mundo complexo.

Qualquer coisa pode ser encontrada nesse mundo, e há pistas para apoiar cada teoria maluca. Hillary é uma assassina? Obviamente é, diz Jones, porque como secretária de Estado ela foi em parte responsável pela guerra na Líbia. O governo está envenenando nossa água potável? É claro, porque qualquer pessoa que acrescente flúor à água está jogando com a saúde das pessoas. "Jones é tão eficaz porque ele apresenta uma teoria muito clara sobre como o mundo funciona e distorce todos os fatos para que se encaixem em sua teoria", diz Mark Fenster, um professor de direito na Universidade da Flórida em Gainesville que passou anos estudando teorias da conspiração.

A equipe de Jones empurra tudo o que ele diz por diversos canais. Jones afirma que tem até 3 milhões de ouvintes por dia. Segundo a Quantcast, que mede números de audiência, o site Infowars atrai mais de 8 milhões de visitantes por mês. Jones tem cerca de 2 milhões de assinantes em seu canal no YouTube e mais de 1 milhão de seguidores no Facebook. "Estou numa espécie de sala de estar com meu público", diz Jones. "É como se estivéssemos sentados ao redor de uma fogueira no acampamento."

Um pequeno império de mídia

Ele tem mais de 60 empregados, incluindo estudantes, jornalistas, ativistas, especialistas em tecnologia e redes sociais. Eles ajudam Jones a preparar seu programa e escrevem reportagens para a Infowars.com. Nem tudo no site é absurdo. Há reportagens comuns de agências de notícias sobre os últimos resultados de pesquisas, e o Infowars oferece suas próprias análises dos fatos atuais em Washington. Mas também há matérias que descrevem o programa de Lady Gaga no intervalo do Super Bowl como um "ritual satânico". Ou sobre os exercícios da CIA para assassinar Trump.

Dois terços do financiamento de Jones vêm do marketing de seus próprios produtos. Ele vende dentifrício e pílulas para o cérebro, coletes à prova de balas e armas, pílulas para dormir e suplementos para potência. Os intervalos de publicidade em seus programas são ocupados por seus produtos, e os negócios vão bem. Infowars.com atrai todo mundo que acredita que o fim do mundo está próximo.

Embora a era Trump pareça promissora para Jones, também poderá ser um problema. Nem todo mundo nesse meio acredita que seu firme apoio a Trump seja bom. No passado, Jones sempre disse que os governos são a personificação do mal, um poder sombrio. Ele preparou seu público com o ódio por Washington. O modo como fala de Trump agora, porém, o faz parecer o ministro da propaganda do presidente. E isso poderá afinal desapontar seus fãs.

"Hordas islâmicas radicais"

Agora é quase meio-dia e o programa está no intervalo comercial. Jones está irritado. Trump sofre pressão por sua ordem executiva que proibiu as viagens de pessoas de sete países de maioria muçulmana, uma polêmica que Jones não pode imaginar porque acredita que o presidente apenas quer manter as "hordas muçulmanas radicais" fora dos EUA. "Eu ia mostrar algumas execuções para que todo mundo compreenda como esses islamistas são bárbaros", diz. "Mas acho que vou fazer outra coisa."

A câmera começa a rodar de novo. "Há 1 bilhão de sunitas", diz Jones no microfone. "São pessoas que atacam shopping centers. São pessoas que atiram os gays para fora de prédios. São pessoas que jogam ácido no rosto das mulheres." Imagens de mulheres desfiguradas passam pelas telas atrás dele, mulheres sem nariz e com queimaduras de ácido no rosto e na testa. "Aí estão suas belezas", diz.

Jones se surpreende que nem todos os americanos compartilhem seu pânico pelos "jihadistas". De fato, ele acredita que a ameaça é tão grande que seria melhor não permitir que ninguém mais entrasse nos EUA.

"Por favor, esqueçam a estátua da liberdade", diz durante um intervalo. "É um símbolo de propaganda. Devemos parar de adorá-la e de aceitarmos toda população do Terceiro Mundo que aparece com tuberculose e lepra".

"Soldados rasos na revolução de Trump"

Jones pretende agora abrir um escritório em Washington. Diz que pode contratar dez pessoas para relatar sobre a Casa Branca, quase como uma organização de mídia tradicional. Ele receberá ajuda de Roger Stone, um assessor radical do presidente, que escreveu um livro em que descreveu o ex-presidente Bill Clinton como um estuprador em série, sem fornecer qualquer prova. Sob um acordo feito entre os dois, Stone começou a apresentar o programa Alex Jones durante uma hora por semana há pouco tempo. "Os elitistas podem rir de sua política", diz Stone, mas "Alex Jones está atingindo milhões de pessoas, e elas são os soldados rasos da revolução de Trump".

É de tarde, e Jones caminha pelo estúdio, seu nível de adrenalina alto e o de açúcar, baixo. Ele precisa comer alguma coisa. Pratos com churrasco --frango, carne e linguiça-- são colocados sobre uma mesa na sala de conferências. "Churrasco bom", diz Jones. "Você já provou?"

Ele amontoa a comida em um prato de plástico, e então subitamente tira a camisa, sem explicação. Com o torso nu, senta-se e enfia a comida na boca, numa caricatura de masculinidade. Mas é também uma demonstração de poder ao repórter sentado à sua frente. Ele pode fazer o que quiser.

Então Jones se levanta e estende uma linguiça. "Quer chupar?", pergunta.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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