O Trump holandês: Geert Wilders surfa na onda populista

Claus Hecking

  • Reprodução/Twitter

    Geert Wilders posa para foto sob a escolta de vários seguranças

    Geert Wilders posa para foto sob a escolta de vários seguranças

A foto em sua linha do tempo no Twitter aparentemente reflete bem Geert Wilders. Ela o mostra de terno escuro, com seu cabelo penteado para trás de modo característico, cercado por guarda-costas de aspecto austero. "Geert Wilders abriu mão de sua liberdade para lutar pela nossa. A definição de herói", diz a legenda sob a foto. Um blog islamofóbico a postou na internet, e Wilders a compartilhou ainda mais.

Afinal, essa é a forma como o fundador e chefe do Partido da Liberdade (PVV) holandês de direita vê a si mesmo: como alguém que suporta sofrimento por uma boa causa. Nos últimos 12 anos, o oponente radical do Islã tem vivido em sigilo, isolado do mundo real e protegido 24 horas por dia com medo de ser atacado por radicais islâmicos. E agora, em pouco mais de uma semana, seu coquetel de heroísmo e vitimização será colocado em teste, quando os leitores na Holanda derem seus votos nas eleições parlamentares.

Do ponto de vista de Wilders, a investigação de um policial descendente de marroquinos não poderia ser mais oportuna. O policial, que por algum tempo fez parte da equipe de segurança do político de direita, é suspeito de ter vendido informação sensível para uma gangue criminosa. Nada até o momento foi provado e o chefe da polícia holandesa disse que Wilders nunca correu risco devido à informação.

Mas em resposta o populista de direita cancelou aparições de campanha, apesar não ter muitas planejadas para começar. Para Wilders, que gosta de se retratar como sendo a voz do povo, não é necessário fazer aparições frequentes. Sua ferramenta de campanha mais poderosa é o Twitter, onde conta com 782 mil seguidores.

A estratégia provou ser bem-sucedida. Até uma nova pesquisa divulgada no final da semana passada, Wilders passou meses liderando as pesquisas de intenção de voto. É um sucesso pessoal significativo, já que Wilders é o único membro de seu partido, o que lhe permite escolher os parlamentares que desejar sem onerosos procedimentos democráticos. A lei holandesa não tem nada contra a prática.

Um terremoto político

Atualmente, Wilders está em uma disputa cabeça a cabeça com o primeiro-ministro Mark Rutte pelo primeiro lugar. Caso o populista xenófobo, anti-União Europeia, anti-islã, desponte como o poder político mais forte, seria um terremoto político, o terceiro após a saída do Reino Unido da União Europeia e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Além disso, a Holanda é um dos países fundadores da UE, uma nação amplamente considerada cosmopolita, tolerante e próspera. A Holanda é um centro importante para o comércio europeu, exportando mais produtos do que o Reino Unido, e sua riqueza é distribuída ainda mais igualmente entre seus 17 milhões de habitantes do que na maioria dos demais países europeus.

A economia vem crescendo em mais de 2% ao ano nos últimos dois anos e o desemprego vem caindo constantemente. O governo de centro-direita sob a liderança de Rutte tem até mesmo reduzido a dívida nacional do país.

De fato, há apenas uma conclusão: os holandeses estão se saindo bem, ou ao menos melhor do que a maioria dos demais no continente.

Mesmo assim, centenas de milhares de eleitores na Holanda ainda pretendem votar em Wilders, o extremista que deseja mudar a Constituição, proibir o Alcorão, fechar mesquitas, fechar as fronteiras e retirar o país da União Europeia. Ele é um provocador que promete expulsar refugiados e marroquinos, um mestre do Twitter cujo uso desequilibrado da plataforma lembra Trump.

É uma comparação que ele tem alimentado, até mesmo adaptando o slogan do presidente americano, "Torne a Holanda Grande de Novo!" A CNN passou a chamá-lo de o "Donald Trump holandês". Assim como Trump, sua campanha se foca exclusivamente nele mesmo, e teve grande sucesso ao fazê-lo, deslocando todo o sistema político holandês para a direita, mesmo que não consiga derrotar o partido de Rutte no final.

"Alguns partidos tradicionais adotaram uma linha mais nacionalista para atrair os eleitores", disse Tom van der Meer, um professor de ciência política da Universidade de Amsterdã. Liderando o avanço para a direita está o Partido Popular por Liberdade e Democracia (VVD), o partido do primeiro-ministro.

Pescando no lago do PVV

No final de janeiro, Rutte fez uso de uma propaganda de página inteira de jornal para publicar uma carta aberta aos eleitores holandeses. "Estamos experimentando crescente desconforto com pessoas que tiram proveito de nossas liberdades para agitar as coisas", escreveu Rutte.Ela acrescentou que "entende muito bem quando as pessoas pensam: se você é tão hostil a nosso país, então prefiro que vá embora. Também é o meu sentimento. Comporte-se normalmente ou vá embora".


Isso soou muito como o próprio Wilders.

"Rutte e seu VVD estão pescando no lago do PVV", diz Van der Meer. E não são os únicos no cenário partidário fragmentado do país que estão fazendo isso. Os democratas cristãos conservadores, que ocuparam o gabinete do primeiro-ministro por 25 dos últimos 40 anos, estão exigindo que os vistos de residência sejam, "em casos extremos", retirados dos imigrantes não dispostos a se integrarem.

O partido dos aposentados 50Plus pediu por maior controle das fronteiras e políticas "mais rígidas" em relação aos estrangeiros. O partido atualmente é o único dos grandes que não descartou categoricamente formar uma coalizão com Wilders caso o PVV saia vitorioso.

Mas a mudança de mensagens até o momento contribuiu pouco para ajudar os partidos mais tradicionais a conquistarem apoio. Muitos eleitores preferem ouvir o original mais radical.

Em um recente sábado frio e úmido de fevereiro, o odor de fritura em óleo pairava sobre a praça do mercado em Spijkenisse, uma cidade próxima de Roterdã. Um BMW Série 7 preto estava estacionado na praça e Wilders, cercado por guarda-costas, câmeras de televisão, fãs e oponentes, estava a poucos metros de distância. Alguns estavam vibrando enquanto outros preferem vaiar. "Wilders para presidente!" alguém gritou e o político avançou para apertar a mão do homem. Afinal, é para isso que ele estava ali, para falar com as pessoas.

'Pensem em nós!'

Uma pequena senhora idosa avançou com dificuldade por entre a multidão até chegar a Wilders, apertar sua mão e sacar seu celular. Wilders se inclinou na direção dela para a foto antes de partir, seguido por seus guarda-costas. A mulher foi empurrada para trás e caiu no chão, machucando sua perna. Lágrimas corriam de seus olhos.

Mas ela disse que valeu a pena.

Ieg van Haperen, uma pensionista de 66 anos, apenas recentemente se tornou simpatizante de Wilders. Quando ainda trabalhava no correio, ela sempre votava nos social-democratas como a maioria de seus colegas de trabalho. Mas agora ela se refere ao partido como "mentirosos".

O governo, reclama Van Haperen, elevou a idade de aposentadoria e sua pensão não está mais tendo aumento. "Todo mês tenho de pagar 151 euros (cerca de R$ 500) por seguro-saúde, mas os muçulmanos recebem tudo de graça." E, ela prosseguiu: "Nunca veremos de volta todo o dinheiro para a Grécia. Pensem em nós, políticos!"

Posteriormente, seu parceiro, que se aposentou precocemente, reconheceu que os dois não estão em dificuldades financeiras. Juntos, eles dispõem de 2.100 euros (cerca de R$ 6.930)  líquidos por mês e não precisam pagar aluguel, apenas uma pequena hipoteca. "Mas tudo está ficando mais caro", diz Ieg van Haperen. Os preços dos cigarros, em particular, subiram, ela se queixou.

"Muitos eleitores de Wilders se veem como vítimas de uma sociedade holandesa dividida em três partes", disse o sociólogo Koen Damhuis, que passou meses visitando os simpatizantes do populista de direita para seu novo livro "Paths to Wilders" (os caminhos para Wilders, em tradução livre).

"No topo está a elite política, que ajuda as classes mais baixas: os imigrantes e as pessoas nos países em desenvolvimento. Mas os holandeses comuns estão no meio e precisam pagar por tudo. Eles se sentem explorados por ambos os grupos." Isso é o que Wilders lhes diz.

No início de sua carreira política, Wilders, 53 anos, foi membro do partido de Rutte, um liberal no sentido europeu, um que criticava o Estado babá. Nos primórdios do PVV, ele queria cortar tanto o salário mínimo quanto os pagamentos do bem-estar social. Hoje, entretanto, ele mudou o discurso: aposentadoria mais cedo, pagamentos mais baixos de seguro-saúde e mais dinheiro para cuidados na terceira idade.

Uma pressão nos bolsos

"Há três grupos principais de eleitores de Wilders", diz Damhuis. O menor consiste de cidadãos de classe alta que estão preocupados com a crescente influência do Islã e que acreditam que a UE ameaça a soberania nacional. Os outros dois, muito maiores, estão principalmente preocupados consigo mesmos.

Um desses grupos vê os imigrantes como uma ameaça, porque acham que recebem tratamento preferencial na disputa por empregos, bem-estar social e imóveis residenciais. "Eles acham que recebem muito pouco", disse Damhuis.

O outro grupo, composto principalmente por eleitores de classe média, vê os refugiados, os pacotes de resgate do euro e ajuda para desenvolvimento como uma pressão em seus bolsos. "Essas pessoas acreditam que estão pagando demais", disse Damhuis.

"Nós trabalhamos arduamente pelo nosso dinheiro", disse Teunis den Hertog, "mas o Estado o tira de nós para dá-lo aos requerentes de asilo, aventureiros e muçulmanos".

O pequeno empresário de 34 anos dá uma tragada profunda em sua cigarrilha enquanto guia seu carro por Montfoort. "Os refugiados moram em algum lugar ali", ele disse, apontando para uma travessa. "Os muçulmanos querem tomar nossa sociedade. Ainda bem que ainda não temos uma mesquita aqui em Montfoort."

A cidade, com uma população de 13.700, é como um clichê holandês: prédios de tijolos, arbustos bem podados, canais e um velho moinho no centro da cidade.

Montfoort fica a uma hora de carro de Amsterdã, mas é um mundo completamente diferente. Apenas 4% das pessoas aqui são "allochtoons não ocidentais", a forma como eram chamados pelas agências do governo aqueles com pelo menos um dos pais proveniente da África, Ásia, América Latina ou Turquia, até recentemente.

Den Hertog comprou uma bela casa para si mesmo e sua família nos arredores da cidade e ganha 120 mil euros por ano como eletricista autônomo e técnico de aquecimento. Mas ele se queixa que o Estado torna sua vida difícil com regulações burocráticas e impostos elevados. "Eles estão torcendo meu pescoço", ele disse.

Polarizando o eleitorado

Wilders é o ídolo de Den Hertog e este o leva para onde quer que vá, como tela de proteção de seu celular. "Este homem luta verdadeiramente pelo seu povo", disse Den Hertog enquanto olhava para a tela. "Se ele fosse a um supermercado, os muçulmanos o matariam."

Pelo Facebook, Den Hertog chama Wilders de "nosso líder" e alega que tudo ficará melhor depois da eleição. "Quando Wilders assumir o governo, haverá uma revolução contra a elite. Os holandeses em primeiro lugar. Depois todos os refugiados terão que ir embora, as fronteiras serão fortificadas, prenderemos os jihadistas e mudaremos a Constituição."

Mas mesmo se o PVV de Wilder se tornar o partido mais forte no Parlamento em Haia, é improvável que conquiste mais que um quinto das cadeiras. A lei eleitoral holandesa é baseada no conceito de amplo consenso e não há uma barreira de 5% para que os partidos entrem no Parlamento.

Assim, entre 10 e 15 partidos contarão com cadeiras e quase todos descartaram formar uma coalizão com Wilders. Recentemente, o primeiro-ministro Rutte tuitou: "Não. Acontecerá".

O mais provável que aconteça é uma coalizão centrista de múltiplos partidos. Ou um governo de minoria em oposição ao PVV de Wilders. Qualquer que seja o resultado será bom para a direita.

"Em uma ampla coalizão, os partidos individuais são incapazes de chamar atenção para si mesmos devido à necessidade de concessões", disse o cientista político Van der Meer. "Isso permitiria a Wilders dizer, pelos próximos quatro anos, 'sou eu contra a elite', e se posicionar como sendo o único partido de oposição." Em outras palavras, ele seria capaz de polarizar o eleitorado ainda mais.

Wilders proporcionou uma prévia dessa estratégia durante sua parada de campanha em Spijkenisse.

"Você deseja que nosso dinheiro seja gasto em países estrangeiros? Você deseja que tudo se torne impossivelmente caro? Então vote em outro partido", ele disse para as câmeras. "Você deseja que a Holanda volte a pertencer a você? Deseja que o governo gaste nosso dinheiro em você? Então você só tem uma escolha." Após mais algumas selfies com simpatizantes, ele voltou para sua BMW.

Ao todo, Wilder não caminhou nem mesmo 300 metros por Spijkenisse e esteve na cidade por menos de uma hora. Mas de novo, todo o país estava falando sobre ele. Naquela noite, Wilders enviou uma foto aos seus seguidores no Twitter. Ela o mostrava cercado por microfones e câmeras. Como sendo o foco da campanha. Ele finalmente conseguiu chegar lá.
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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