"Nos ensinaram a decapitar uma pessoa", diz garoto que viveu sob domínio do EI

Katrin Kuntz

Em Mossul (Iraque)

  • Andy Spyra/Der Spiegel

    O Estado islâmico conquistou Mosul em junho de 2014 e tentou controlar grande parte da administração da cidade, incluindo o sistema de ensino. Agora que a parte oriental da cidade foi libertada, alunos e professores estão tentando voltar ao normal

    O Estado islâmico conquistou Mosul em junho de 2014 e tentou controlar grande parte da administração da cidade, incluindo o sistema de ensino. Agora que a parte oriental da cidade foi libertada, alunos e professores estão tentando voltar ao normal

Certa manhã no final de março, 20 crianças estão paradas numa rua entre casas bombardeadas e carros queimados, na frente de uma escola elementar no leste de Mossul. Quando você lhes pergunta o que aprenderam lá dentro, elas falam sobre matar. Seu professor foi o Estado Islâmico (EI), que teve um enclave aqui. "Daesh, Daesh", gritam as crianças, usando o nome pejorativo em árabe para o EI. As vozes são fortes e excitadas, como se o som escondesse um segredo inacreditável.

As crianças têm de 6 a 13 anos. Suas mochilas são grandes demais para seus corpos, elas usam sandálias e camisetas esburacadas. Algumas comeram ovos de manhã, outras não. Elas falam alto e riem enquanto esperam que o portão seja aberto. Sua felicidade é real, mas se você olhar bem poderá ver a guerra em seus rostos pequenos e endurecidos.

O EI conquistou Mossul em junho de 2014. Enquanto tentava criar um Estado, não parou de adquirir terras, pessoas, uma doutrina e uma bandeira. Também se impôs em todos os círculos da vida social --controlou a economia, administrou justiça e criou planos de ensino de acordo com suas opiniões. O objetivo do EI era criar uma visão de mundo, o que também o levou a controlar as escolas de Mossul.

As tropas iraquianas libertaram o leste da cidade há poucas semanas. Desde então, cerca de 20 mil crianças voltaram à escola. Apesar do perigo de ataques com drones e homens-bombas do EI cruzarem o rio Tigre, vindos da disputada zona oeste da cidade, 70 das 400 escolas do leste foram reabertas. As coisas deveriam ser como eram antes nas aulas. Mas isso é possível? O que os alunos daqui experimentaram sob o EI?

Bdel, 10 anos, diz: "Em nosso livro de matemática havia uma caminhonete cheia de armas e um homem do EI de pé sobre ela".

Basha, 13, conta: "Nós ficávamos muito tempo sem ter o que fazer. Às vezes alguém nos perguntava 'Quem é melhor, o Exército iraquiano ou o EI?'. E nós gritávamos: 'O EI!'".

Amir, 9, diz: "Os homens fizeram os animais desaparecerem de nossos livros de biologia. Não havia mais leões, só o EI".

Hassan, 12, relembra: "Eles jogaram uma criança de um edifício. E bateram no meu tio com uma garrafa quebrada até que a barriga dele se abriu".

Qaisar, 13, acrescenta: "Eles nos ensinaram a decapitar uma pessoa. Praticávamos com um boneco. Era pouco maior que eu, com roupas militares".

Reuters/Youssef Boudlal
26.mar.2017 - Um policial iraquiano dispara sua arma contra combatentes do Estado islâmico na antiga cidade de Mosul.

Sob o domínio do medo

São 8h. O professor assobia, e as crianças correm para a escola Ben Marwan, um prédio baixo amarelo, com a fachada marcada por buracos de bala. A janela sobre o portão de entrada está quebrada, um morteiro entrou pelo telhado na parte traseira, há escrivaninhas despedaçadas empilhadas nas classes.

Se alguém olhasse de cima a escola Ben Marwan, veria a escala de devastação que os ataques aéreos da coalizão liderada pelos EUA causaram nas ruas em torno da escola no início do ano. As casas que eram conhecidas como centros de controle do EI estão calcinadas. Alguns meses atrás, os seguidores do EI decapitaram quatro pessoas na frente da escola; as cabeças rolaram diante dos olhos das crianças. Hoje mulheres com véus carregam água de uma torneira para suas casas, um menino vende açúcar e outros jogam futebol em um terreno que ainda pode estar minado. As pessoas aqui caminham com cuidado e são cheias de desconfiança. Ninguém sabe o que seu vizinho pensa, quantos seguidores do EI estão escondidos nas casas sem ser reconhecidos. A guerra no leste de Mossul pode ter se acalmado, mas continua.

Durante 18 meses, o EI tentou moldar os pensamentos das crianças na escola Ben Marwan. Seu sistema previa cinco anos de escola elementar, seguidos de quatro anos de ensino médio. O EI também tinha um Ministério da Educação, chamado de Diwan al-Taalim, que decidia o que as dezenas de milhares de professores de Mossul deviam ensinar aos alunos. Além de doutriná-los nas aulas, o EI os levava para as mesquitas e os reunia nas ruas para mostrar vídeos de decapitação.

"Minha escola era uma semente da qual deveria crescer um Estado megalomaníaco", diz o diretor da escola, Shaker Ahmad, 52. Um homem alto, com barba branca e olheiras, ele gosta de confrontar o caos com frases de sabedoria poética. Ahmad lutou na guerra Irã-Iraque e trabalha como professor há mais de 25 anos. Ele está sentado à sua mesa e seus quatro professores, absortos, em sofás novos ao seu redor. "Nós queimamos os antigos em casa para nos aquecer no inverno", diz Ahmad. "Também queimamos nossos sapatos e livros."

AP Photo/Felipe Dana
24.mar.2017 - Moradores carregam os corpos de pessoas mortas durante as lutas entre as forças iraquianas e o Estado Islâmico em Mosul, Iraque

Como estão se saindo agora, depois do EI?

"Sob o EI nós tínhamos cerca de cem estudantes aqui", diz o diretor. "A maioria deles ficava em casa." Hoje todos vêm à escola ao mesmo tempo. Ahmad registrou 800 crianças, que divide em turnos --a maioria só pode vir duas ou três vezes por semana. A Unicef lhe enviou cadernos e materiais. "Alhamdulillah (graças a Deus)", diz ele. "Tivemos sorte."

"Faz dois anos que não recebemos nossos salários de Bagdá", diz um professor. O governo iraquiano interrompeu os pagamentos aos funcionários públicos nas áreas ocupadas porque supunha que o dinheiro acabasse indo para o EI. "Nós trabalhamos sob o EI porque tínhamos medo. Hoje trabalhamos porque temos esperança no futuro", diz outro mestre.

Faz quase três meses que Shaker Ahmad reabriu a escola. Quando perguntado sobre o que fizeram depois que o EI foi oficialmente expulso, o diretor diz: "Nós cantamos" --pela primeira vez em muito tempo.

"Agora podemos fumar de novo, ouvir música, usar o telefone", diz ele, enquanto ouvíamos os estrondos da guerra ao fundo. Naquela dia, dezenas de pessoas morreram quando um morteiro do EI caiu perto do mercado no centro da cidade e deixou um buraco fundo no asfalto. No oeste da cidade, que ainda está nas mãos de seguidores do EI, milhares de moradores são usados como escudos humanos.

"Mudando os planos de aula"
Andy Spyra/Der Spiegel
O Estado islâmico deu à escola novos livros didáticos que apagam a fronteira entre o Iraque e a Síria. Os livros de matemática também substituíram o sinal de adição com a letra z porque ela se assemelhava a uma cruz cristã

Shaker Ahmad esperou que os homens do EI chegassem depois que dominaram Mossul no verão de 2014. Ele ficou em casa, na borda da cidade, porque eram as férias escolares. Afinal eles chegaram, três deles.

Um seguidor do EI do Egito e outro da Jordânia se apresentaram. Eles afirmaram ser do "Ministério da Educação do EI", supostamente sediado em Raqqa, o baluarte dos terroristas na Síria. Estavam acompanhados pelo futuro supervisor das 30 escolas do distrito de Ahmad em Mossul. O EI informou ao diretor que contava com o seu trabalho. Seus professores deveriam voltar à escola.

Depois que o EI fez o contato, o supervisor chegou à escola Ben Marwan. Parecia amigável. "Vocês podem continuar sob nós como faziam antes", disse Abu Zainab, como eles o chamavam. Na cidade, o EI distribuía pão e gasolina aos pobres, dava relógios às crianças nas mesquitas. Ninguém desconfiou no início. Mas depois de dois ou três meses o tom mudou.

Um dia, Abu Zainab chegou à escola com uma espada. Mandou todos os professores se sentarem em cadeiras e colocou a espada no centro. Ele se sentou de pernas cruzadas no banco e começou a dizer versos do Corão. Depois falou sobre o papel do EI para o islã e sua responsabilidade de enfrentar o Ocidente.

Ele disse que agora os professores tinham uma importância especial no "califado". "Estamos mudando os planos de aulas e os livros", teria dito. Zainab afirmou que os livros antigos estavam cheios de blasfêmias e que haveria um novo treinamento para os professores. "Os que resistirem morrerão."

O EI mandou os professores queimarem os livros antigos. Eram livros cheios de poesia e canções, com histórias sobre as maravilhas do Iraque, incluindo o épico de Gilgamesh, uma das mais antigas obras de literatura clássica que sobrevivem. Eles atiraram tudo no fogo.

O pessoal do EI aparentemente tinha novos livros impressos em uma fábrica de papel em Mossul, diz Ahmad. Outros relatos de Mossul afirmam que o EI deu CDs aos estudantes, para que imprimissem o conteúdo por conta própria.

O EI modificou a geografia nos livros: retirou a fronteira entre a Síria e o Iraque e somou os números da população, para dar a impressão de um grande império. Eles mostravam os curdos e os xiitas como grupos adversários do islã e os consideravam "kafir" --infiéis que deviam ser mortos.

O EI substituiu os livros de história por biografias de suas principais figuras. "Recebemos biografias de Abu Bakr al-Baghdadi ou do profeta Maomé", lembra o diretor. De modo geral, havia muita literatura religiosa, parte dela baseada em textos do século 13. Nem mesmo alguns professores conseguiam entender os versos do Corão que todos deviam decorar. Aterrorizados, eles seguiram a ordem.

As maçãs e peras usadas para ensinar adição e subtração desapareceram dos livros de matemática e foram substituídas por tanques e granadas. O símbolo de adição foi trocado pela letra "z", porque o outro se parecia demais com a cruz cristã.

Os alunos precisavam calcular quantas bombas uma fábrica do EI poderia produzir em determinado tempo. Em inglês, uma tarefa era: "Como peço a alguém para limpar minha arma?" Arte e música foram eliminadas pelo EI, porque não tinham utilidade para a jihad. Além dos ensinamentos religiosos, as crianças lutavam no treinamento militar.

Durante a aula, os professores precisavam usar calças de modo que seus tornozelos ficassem descobertos, então prendiam elásticos sobre as meias. As professoras tinham de usar o véu completo. E as regras também especificavam: nada de cosméticos, perfumes, celulares, cigarros. Meninos e meninas foram separados; professores homens e mulheres não podiam se encontrar em nenhuma circunstância.

"Eles acusaram meu antecessor de ter-se sentado ao lado de uma mulher na escola", diz o diretor. "O EI o matou. Só então eu fui promovido." Se um pai acidentalmente levasse uma menina a uma escola de meninos, era morto. O EI criou um reino de terror e um campo minado para os professores.

"Precisávamos pensar como eles a cada passo que dávamos", disse o diretor. "Nós aprendemos, mas também ficamos malucos." Para salvar pelo menos alguns livros antigos, um professor os escondeu em sua casa ao lado da lareira. Se um membro do EI os visse, ele diria que eram para o aquecimento.

O EI fundiu várias escolas em Mossul porque centenas de pais retiraram seus filhos e não permitiram mais que frequentassem. Mas a educação em casa era "haram", proibida. As regras na escola Ben Marwan tornaram-se cada vez mais absurdas. "Às vezes dava vontade de rir", diz um professor. "Mas eles teriam nos matado imediatamente."

No vestíbulo da escola, ao lado da sala do diretor, há figuras de crianças desenhadas nas paredes. Uma delas está debruçada sobre um livro, lendo. Duas outras estão de mãos dadas, sob as palavras "Bem-vindos" --um gesto simples, cheio de carinho.

Quando o EI tomou a escola, pintou o rosto das crianças com tinta escura. Era considerado "haram" representar os rostos. Os membros do EI também foram ao açougue na frente da escola, que tinha à porta a imagem de um boi. Eles pintaram o animal com tinta spray e disseram ao açougueiro que só Deus pode criar criaturas vivas.

Agora esse período acabou, e o diretor diz: "O futuro deste país cabe a nós, professores". Mas ele ainda não descobriu como abordar esse projeto. O que ele vê o preocupa. "Quando as crianças brincam durante o recreio, é de polícia e EI. Um deles atira contra os outros." Shaker Ahmad gostaria de simplesmente esquecer o passado.

Ele não tem um plano para processar os fatos, nem compreende traumas, mas tem um coração, olhos abertos e certa sabedoria: "As crianças pequenas são como massa de pão", diz. "Você pode moldá-las. Elas aprendem rápido, mas também esquecem."

São frases em que todo mundo aqui acredita.

A escola Ben Marwan é retangular, e em sua ala direita a porta de uma das classes está aberta, com cerca de 50 alunos do primeiro grau amontoados ao redor das mesas. O ar está abafado. Muhammad Assil, que estudava teatro na universidade em Mossul, está ensinando árabe nesta manhã. Ele manda os alunos escreverem novas palavras --galinha, maçã, pera-- e então as verifica.

Assil tem 29 anos, olhos castanhos bondosos, três filhos, mulher e usa um paletó. Normalmente, seu salário mensal equivale a 160 euros (cerca de R$ 530). "Como o governo não paga o salário, ainda trabalho em meu quiosque à noite."

Ele diz que o período sob o controle do EI foi o pior de sua vida. "A vida estava tão cara que eu quis ser professor para sustentar minha família. Mas o EI não pagava", diz ele. Ficar em casa era muito perigoso, porém. Assil nasceu em Mossul, e foi torturado duas vezes: uma pelo serviço secreto iraquiano, depois da queda de Saddam Hussein, quando supostamente o confundiram com um assassino; e outra pelo EI, porque tinha tirado selfies nadando em um rio, seminu. Assil não conhece uma vida sem violência.

"Nunca falamos com as crianças sobre o EI", diz ele. O motivo principal é que os pais da maioria das crianças eram seguidores do EI. "Nunca tínhamos certeza do que eles diziam em casa. E agora ainda precisamos tomar cuidado, porque o EI só foi derrotado militarmente."

Uma colega de Assil, Ekhlas Hamdi, a única mulher que trabalha na escola, ainda usa o véu completo. Assil brinca com ela, dizendo: "Você parece ser do EI".

Então Hamdi responde: "O ar está empoeirado aqui". Mais tarde ela diz: "Tenho medo. Mas tudo bem, as crianças estão acostumadas com o véu". Sua voz treme quando ela fala, seu olhar é tão intenso e ferido que parecemos ver neles seu passado sofrido.

Assil sabe que um de seus alunos molha a cama. Seus pais o procuraram e pediram que conversasse com o menino. "Eu disse a ele que deve usar o banheiro, e que uma pessoa não faz isso", diz Assil.

Então ele olhou para a porta durante muito tempo, como se tivesse sido cúmplice no legado do EI. Mas ele fugiu da luta em Mossul, correndo entre a chuva de balas com sua mulher e as duas filhas. Perderam uma terceira e só a recuperaram naquela noite.

"Eu tento ser um modelo de comportamento para as crianças", diz ele. "Não falamos sobre o passado, mas eu leio histórias de que elas vão precisar na vida." Por exemplo, a história do caçador e do pássaro. É assim: um caçador segue um pássaro pela floresta. A ave se esconde e faz piadas sobre o caçador. O caçador só percebe a ave porque ela xinga muito alto, e afinal ele a mata.

É uma história brutal. Mas qual é a moral? "Se você disser coisas feias, será castigado", diz Assil, sorrindo. A violência na história não o perturba. Ele acredita que o carinho faz a diferença, o conteúdo nem tanto.

Na sala dos professores, eles penduraram na parede uma pirâmide feita de cinco elementos. Embaixo ela diz "necessidades básicas", depois "segurança" e "vida social", depois "necessidades pessoais" e no topo "autorrealização". "A soma disso tudo leva a uma boa vida", diz Assil. Mas ele não parece ter certeza absoluta de se a pirâmide é mais um desafio ou um incentivo em Mossul no momento. Assil é de todo modo otimista, e cita a mesma sabedoria que todos os outros na escola, independentemente: "As crianças são como massa de pão. Você pode moldá-las. Elas aprendem rápido, mas também esquecem".

Treinadas para matar

É verdade, Qaisar? Qaisar al-Kurdi sai de uma classe. É um menino alegre, que parece ter menos que seus 13 anos. Nessa manhã ele foi o que falou mais energicamente sobre o tempo sob o domínio do EI. Na sala dos professores, ele se senta timidamente no sofá. Os professores hesitam sobre deixá-lo ser entrevistado. Qaisar gosta do Real Madrid e quer ser um médico "do coração". Ele quer falar sobre o que aconteceu ali?

O menino fecha as cortinas para que as outras crianças não possam olhar lá dentro. "O EI vinha todos os dias para nos ensinar a lutar", diz. "Eles não explicavam nada, só tínhamos que obedecer às suas ordens." Lentamente, sua voz torna-se mais animada. Pouco depois ele se levanta e aponta para onde eles se escondiam atrás de pneus de carros ou muros feitos com sacos de areia durante o treinamento de combate.

Qaisar se move pela sala vazia como um bailarino, esmurra um rosto invisível no chão, debate-se no ar, dá socos, mostra como eles penduraram em seu corpo um cinturão com bombas plásticas.

"Eu tinha de andar assim", diz, e caminha pela sala com o pesado cinto imaginário, como um astronauta em busca de terreno firme, seus polegares apertando no ar como se procurassem o gatilho do detonador.

O EI lhes deu corpos plásticos em tamanho real, totalmente vestidos. Pareciam seres humanos de verdade e eram maiores que Qaisar. O menino diz que ele tinha de cortar suas cabeças. Logo ele pegou o jeito de usar a faca, e diz que o EI sempre ficou satisfeito com seu trabalho.

A expressão facial de Qaisar é difícil de entender --uma mistura de fascínio, admiração e puro medo.

Depois da aula, o pai de Qaisar oferece chá em uma sala forrada de colchões, no final da rua.

"Quase perdi meu filho para o EI", diz Mohammed al-Kurdi, um muçulmano devoto vestido de preto que não dá a mão a mulheres. "No começo, deixei Qaisar ir à escola, porque queria que ele aprendesse a ler. Só depois de algum tempo percebemos que estavam tentando fazer lavagem cerebral nele."

Após alguns meses, diz Mohammed, Qaisar começou a ir à mesquita. Lá eles tentaram convencê-lo a entrar para o EI. "Posso fazer isso sem pedir aos meus pais?", Qaisar perguntou, segundo o pai. Parece que um membro do EI disse que sim. E quando Qaisar falou com seu pai, de todo modo, colocou-o em um conflito potencialmente mortal. O homem do EI o procurou várias vezes e tentou levar seu filho. "Afinal eu fiz as coisas como eles", conta o pai. "Fiz lavagem cerebral no outro sentido. Ensinei-lhe o islamismo certo, o perdão, a confiança, até que ele quis ficar em casa." Não está claro como ele conseguiu isso.

E ele também fala as frases em que todo mundo aqui acredita. Frases que tiram o peso e pretendem trazer esperança: "As crianças são como massa de pão..."

Quando as crianças caminham de volta à escola Ben Marwan, à tarde, o diretor vem até o portão. "Voltem para casa", ele lhes diz.

No oeste da cidade, quase 200 pessoas morreram em um ataque a bomba das forças lideradas pelos EUA. O governo decretou um período de luto oficial.

O diretor pega as chaves e tranca o portão por três dias. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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