Meninos refugiados apelam à prostituição para sobreviver na Grécia

Giorgos Christides

  • Tyler Hicks/The New York Times

    Imigrantes dormem na rua em Atenas, Grécia

    Imigrantes dormem na rua em Atenas, Grécia

Os refugiados na Grécia enfrentam péssimas condições de vida, opções limitadas de moradia e períodos desastrosamente longos de espera para seus processos. Em uma praça de Atenas, meninos desacompanhados do Afeganistão, do Paquistão e da Síria estão cada vez mais sucumbindo a uma alternativa desesperada pela sobrevivência: a prostituição.

Mohammed é abordado por um homem de meia idade usando calças beges ensebadas, uma camisa azul e um boné azul de beisebol. Embora o homem fale grego, o rapaz de 17 anos do Afeganistão sabe exatamente o que ele quer. "Não", diz Mohammed repetidamente em inglês, com a voz embargada e os olhos se enchendo de lágrimas. Mas o homem continua insistindo. "Venha comigo. Vou te dar comida, vou te pagar".

O homem só para quando percebe que está sendo observado. Então ele relutantemente se afasta e vai se sentar em um banco próximo. De lá, ele começa a esquadrinhar o local novamente, à procura de algum outro rapaz.

Era plena luz do dia de uma manhã ensolarada de terça-feira na Praça Victoria, no coração de Atenas. A praça tem sido um local de encontro e lar improvisado para milhares de migrantes desde que a crise dos refugiados chegou à Grécia dois anos atrás, e agora está se tornando cada vez mais um ponto de prostituição para refugiados menores de idade.

Mohammed ainda não chegou a esse ponto, mas diz que é só uma questão de tempo até ele ir para casa com algum homem. Só lhe restam 30 euros (cerca de R$110) no bolso, e ele está rapidamente perdendo as esperanças. "Quando esse dinheiro acabar, temo que não terei outra escolha além de fazer o que os outros estão fazendo. Fazer sexo com esses homens mais velhos. O que mais posso fazer? Não tenho onde ficar, não tenho o que comer. Vou simplesmente morrer no parque?", ele pergunta, por fim se entregando às lágrimas.

Mohammed diz que perdeu seus pais em um ataque no Afeganistão. Ele está em Atenas há um mês, segundo ele, após fugir de casa sozinho e chegar à ilha grega de Lesbos em fevereiro passado, onde se registrou como menor de idade. Depois ele alegou ser adulto para escapar da violência no famoso acampamento de Moria. Desde então, apesar de parecer muito um adolescente, com espinhas, pouca estatura e uma voz fina, ele tem sido recusado em abrigos para menores. Quando anoitece, Mohammed se enrola em um cobertor em um canto da praça.

Seu único pertence é um envelope amarelo que ele guarda com cuidado, onde mantém seus documentos de registro de refugiado e um currículo de uma única página. De acordo com os documentos de Mohammed, ele se candidatou ao asilo em Lesbos em novembro de 2016. A data marcada para sua entrevista é 4 de janeiro de 2018.

São basicamente rapazes do Afeganistão, do Paquistão e da Síria --que ou vieram sozinhos ou foram separados de suas famílias durante a arriscada jornada para a Europa-- que estão hoje aguardando para que seus pedidos de refúgio sejam processados na Grécia. Enquanto isso, as autoridades deveriam cuidar deles, mas há somente 53 abrigos com 1.272 vagas. Dos aproximadamente 2 mil menores registrados, cerca de 800 estão abrigados em grandes acampamentos, sob custódia policial ou sem teto.

"A vida é difícil"

Ahmad, outro adolescente do Afeganistão, já fez aquilo que Mohammed está desesperadamente tentando evitar. Ele tinha 15 anos quando deixou Candahar dois anos atrás, o mais velho de sete filhos. Seu pai vendeu um terreno para pagar os 2 mil euros (cerca de R$7.500) que os coiotes pediram para levá-lo até a Turquia. As instruções que Ahmad recebeu eram ir até o Reino Unido ou a Alemanha e encontrar um emprego para enviar dinheiro de volta para a família. Em vez disso, ele está se prostituindo em Atenas.

"Meu emprego em Atenas no último ano e meio tem sido fazer sexo por dinheiro", diz o magro rapaz, que fala como um adulto. "A vida é difícil e às vezes a vida faz as pessoas fazerem coisas difíceis". Quando ele ficou sem dinheiro em Atenas, Ahmad diz que se deparou com três opções: vender drogas, entrar para uma rede de contrabando ou a prostituição. Ele escolheu a última.

Ahmad parece um típico adolescente. Ele usa jeans desbotados, camiseta branca, jaqueta de brim e tênis. Assim como a maioria dos jovens de sua idade, ele está sempre entretido com seu celular. Mas não por diversão: são inúmeras mensagens entre ele e a dezena de homens adultos gregos que ele chama de "meus clientes".

Quando um de seus clientes liga para ele, Ahmad o coloca no viva-voz. "Venha até a estação de metrô de Eleonas às 17h", ele diz. Já são 16h30 e Ahmad sai imediatamente, seguido por outro adolescente a quem Ahmad se refere como "meu aprendiz". O aprendiz nunca fala, sua tarefa é observar como Ahmad trabalha para que ele também possa entrar no mercado do sexo. Ahmad chega ao ponto de encontro 15 minutos atrasado, mas o cliente ainda está lá, esperando. Ahmad se aproxima do carro e entra. Alguns minutos depois, ele surge novamente.

Ahmad fala sobre sua nova vida sem emoção. Ele lista os preços com indiferença: 50 euros (R$185) por sexo oral, mais por sexo normal, dependendo da duração. O objetivo de Ahmad é poupar 5 mil euros (R$18.600), que é quanto um passaporte falso e uma passagem de avião para a Alemanha custam. Ele diz que até o momento só guardou 1.500 euros, pois precisa gastar parte de sua renda com comida, roupas e seu telefone. "E guardo 200 euros para minha família no Afeganistão todo mês".

Quem passa alguns dias na Praça Victoria e nos parques das proximidades, vê inúmeros jovens como Ahmad. Eles exercem suas atividades abertamente, sob o olhar dos policiais, dos transeuntes e dos clientes dos cafés.

Os homens se sentam ao lado dos adolescentes nos bancos e começam a conversar com eles. "Está com fome?", um homem mais velho pergunta a um dos meninos. O imigrante diz que sim e o homem lhe dá um saco de salgadinhos. Eles conversam, se tocam e alguns minutos depois saem do parque juntos, com o braço do homem sobre o ombro do jovem imigrante.

Falha das autoridades

Todos, inclusive autoridades, funcionários de ONGs e a polícia, sabem o que está acontecendo. Mas ninguém parece disposto ou capaz de fazer qualquer coisa a respeito.

E isso apesar do fato de que clientes adultos estão infringindo a lei, apesar do fato de que diversas instituições se dedicaram a proteger jovens refugiados. Mas a prostituição está crescendo porque o sistema está falhando. Porque a Grécia não tem os recursos para cuidar de refugiados menores de idade. Porque o processamento dos pedidos de asilo é caótico e as autoridades de uma agência não sabem o que as autoridades de outra agência estão fazendo. E porque os rapazes precisam fazer uma denúncia à Justiça para que seus clientes possam ser processados.

Desde 2016, Christos Hombas, um funcionário do Centro Nacional para Solidariedade Social (Ekka), uma agência que pertence ao Ministério de Assuntos Sociais, recebeu mais de 6.500 indicações de menores de idade em necessidade de assistência, muitas delas relacionadas a abusos, exploração sexual e outros tipos de agressão contra refugiados menores de idade. Hombas, um psicólogo jovem e articulado, tem a fala suave, mas fica irritado quando discorre sobre as falhas do sistema. Ele diz que todos os dias surge uma nova crise com a qual lidar, tais como buscar migrantes menores de idade em centros de detenção. Eles são mantidos ali pela polícia quando são detidos, normalmente quando tentam fugir de seus abrigos e do país. Pela última contagem, havia 56 migrantes menores de idade sob custódia policial, em parte porque ninguém sabe o que fazer com eles.

Hombas diz que há conceitos confusos de autoridade entre a União Europeia e Atenas, o que significa que o 1 bilhão de euros em ajuda vindo de Bruxelas só alcança os refugiados após uma demora considerável. Os abrigos estão constantemente sendo fechados temporariamente ou reduzidos em tamanho. O que torna as coisas ainda piores é o fato de que os pedidos de refúgio estão sendo processados muito lentamente, o que significa que alguns jovens acabam passando anos nos abrigos.

Mesmo uma assistente social experiente como Marleen Korthals Altes fica surpresa com o quão caótico o sistema grego é. Korthals Altes é da Holanda e trabalha como conselheira sênior de proteção infantil junto à ONG Save the Children, que administra um dos 30 abrigos de longa estadia do país: "Trabalhei no Congo, em Serra Leoa, no Quênia, na República Centro-Africana e no Mali. Mas a Grécia é o lugar mais complexo pelo qual já passei", ela diz, sentada em um café na Praça Victoria.

Ela diz que a legislação é complexa, os processos mudam o tempo todo, existem muitas decisões caso a caso ou nenhuma decisão sendo feita, falta de coordenação e uma variedade de diferentes práticas em diferentes lugares para se lidar com os mesmos tipos de caso. "Estamos falando de adolescentes que precisam esperar infinitamente para que seus processos de asilo sejam concluídos, que sentem que estão perdendo tempo aqui, que não entendem por que leva um ano para saber se a reunificação familiar pode acontecer", ela diz. "Eles não têm trabalho, não frequentam a escola, não recebem nenhum dinheiro. Essa situação tem um impacto enorme sobre o estado psicossocial deles".

Mesmo quando os jovens encontram um abrigo, não há muito o que fazer lá, e nada que os impeça de caírem na prostituição.

Necessidade urgente de reformas

Arash, um rapaz de 17 anos da província de Badghis no Afeganistão, está em Atenas há mais de um ano e vive em um abrigo administrado pela ONG. Inicialmente ele rejeitou as abordagens dos homens no parque. "Eu tinha medo, e pensava que não conseguiria fazer aquilo. Mas depois de alguns meses meu dinheiro acabou. Então aceitei. É errado, mas preciso do dinheiro". Desde então ele vem ganhando seu dinheiro em troca de sexo, cerca de 100 euros por mês. Ele diz que se pudesse encontrar outro trabalho, pararia imediatamente. Mas ele não tem permissão para trabalhar, e quem iria querer contratar um rapaz de 17 anos? "Quando fazemos sexo com homens mais velhos, nos sentimos mal. É um recurso desesperado. Quando você é um refugiado e não há ninguém para apoiá-lo, você precisa fazer essas coisas".

Ele sente vergonha, e acima de tudo não quer que sua família descubra. "Não quero criar mais problemas para eles contando o que está acontecendo". E quanto ao abrigo? Segundo ele, quando conta aos funcionários que tem algum problema, eles simplesmente dizem: "A porta é serventia da casa".

O melhor amigo de Arash no abrigo é Mahmud, um menino de 15 anos magro e arrumadinho com uma atitude intrépida e um olhar curioso e inteligente. Mahmud diz que ele nunca se prostituiria, mas que flerta com os homens que querem isso dele. Mahmud aponta com orgulho para seus tênis novinhos em folha. "Tem um homem que me liga todos os dias. Ele me compra roupas, jantares e me faz prometer que irei para a casa dele. Eu aceito as coisas, mas nunca vou para a casa dele", ele diz, rindo.

A professora de Harvard Jacqueline Bhabha foi coautora de um relatório chocante sobre a situação de crianças migrantes na Grécia. Ela acusa a União Europeia de ser "culpada de uma negligência maciça de responsabilidade" no que diz respeito aos refugiados menores. "Dar abrigo e comida para as crianças não é suficiente. Elas precisam de um futuro, de educação, de trabalho", ela diz. Bhabha e a coautora do relatório Vasileia Digidiki fazem um apelo ao governo grego para que acabe com a prática da detenção, crie abrigos especializados para vítimas de abuso e exploração, nomeiem guardiões treinados para proteger as crianças, estabeleça um mecanismo independente de supervisão das ONGs e, como "prioridade urgente", integre todas as crianças migrantes ao sistema de ensino formal grego.

Mas para Mohammad, Arash e Ahmad, pode ser tarde demais para tudo isso.

Ahmad, o adolescente com a longa lista de clientes, diz que há tempos ele abandonou qualquer esperança de ter uma vida decente na Grécia. "Eu digo para mim mesmo, faça isso só uma vez na sua vida. Faça isso e chega. Você terá o dinheiro e poderá ir embora. Esse capítulo estará encerrado".

Ele sonha em estudar direito ou jornalismo, de preferência na Alemanha. "E com meu diploma em mãos, posso um dia voltar para casa e dizer para minha família: consegui".

Tradutor: UOL

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