Entrevista: "Não publicamos material para receber 'curtidas'", diz Assange

Michael Sontheimer e Jörg Schindler

Em Londres (Inglaterra)

  • Justin Tallis/ AFP

    O fundador do WikiLeaks, Julian Assange

    O fundador do WikiLeaks, Julian Assange

O WikiLeaks se transformou em ferramenta da propaganda russa? O fundador da plataforma, Julian Assange, 45 anos, responde às acusações, fala sobre os efeitos dos hackers nas eleições no Ocidente e sobre o ataque "WannaCry".

Sr. Assange, após a publicação pelo WikiLeaks de e-mails e documentos do Partido Democrata durante a campanha presidencial do ano passado, Donald Trump disse: "Eu adoro o WikiLeaks". Mas em abril, o diretor da CIA (Agência Central de Inteligência), Mike Pompeo, chamou a organização de "serviço de inteligência hostil não estatal". O governo americano está intensificando seu combate ao WikiLeaks?

As pessoas adoram o WikiLeaks quando ele expõe a corrupção de seus oponentes. As pessoas são contra o WikiLeaks quando expõe o comportamento corrupto e perigoso delas próprias. Nós expusemos incompetência extremamente perigosa da CIA, com seu programa gigante de hackeamento e o grupo de hackers que ela instalou no consulado americano em Frankfurt. Agora, o diretor da CIA sob Trump, Pompeo, deu início ao contra-ataque.

Ele disse: "Isso acaba agora", referindo-se ao WikiLeaks. Isso soa um tanto ameaçador.

Acho muito sério que ele tenha escolhido tornar o WikiLeaks o tema dominante de seu primeiro discurso como chefe da CIA. Particularmente quando combinado com a declaração do secretário de Justiça dos Estados Unidos de que minha prisão é uma prioridade.

Que membros do WikiLeaks estão sob investigação pelo grande júri na Virgínia, fora você?

Até onde sei, o grande júri está investigando os jornalistas Sarah Harrison, Joseph Farrell e Kristinn Hrafnsson do WikiLeaks. Está me investigando e a Jacob Appelbaum, que é um apoiador do WikiLeaks. E autoridades americanas também disseram recentemente que estão atrás dos funcionários do WikiLeaks.

A fonte mais importante do WikiLeaks, a ex-soldado do Exército americano, Chelsea Manning, foi solta da prisão militar na quarta-feira, resultado de um perdão concedido por Barack Obama após ela ter cumprido sete anos atrás das grades. Ela revelou uma possível cooperação com o WikiLeaks?

Primeiro, a soltura dela é uma vitória incrível pela qual nós e muitas outras pessoas lutamos arduamente. Estamos orgulhosos disso, apesar de que ela deve ser perdoada e indenizada, não apenas receber a clemência por Barack Obama. É preciso lembrar que o relator especial das Nações Unidas para tortura, Juan Mendes, apontou que Manning foi submetida a tratamento cruel, desumano e degradante. Em seu julgamento, ela declarou que entrou em contato com alguém do WikiLeaks, mas, diferente do que alega o diretor Pompeo da CIA, ela não foi instruída pelo WikiLeaks.

Recentemente, você foi foco de fortes críticas por parte de um número crescente de políticos e jornalistas, que estão associando o WikiLeaks à propaganda e desinformação russa.

Tudo isso é distorção. Após Hillary Clinton perder a eleição, ela e seu diretor de campanha, John Podesta, decidiram culpar o diretor do FBI (Birô Federal de Investigação, a polícia federal americana), James Comey, a Rússia e o WikiLeaks.

A credibilidade do WikiLeaks depende de ser não partidário, de não ter uma agenda política escondida.

A credibilidade do WikiLeaks junto ao público depende de nosso histórico comprovado de veracidade. Em 10 anos, nós publicamos mais de 10 milhões de documentos. Nenhum deles foi provado ter sido forjado. Mas, é claro, cada fonte tem seu próprio interesse. Essa é uma lei básica do jornalismo.

Você conhece suas fontes?

Geralmente temos um bom entendimento de nosso material para autenticá-lo. Em alguns casos, isso significa que também desenvolvemos um entendimento da fonte.

Se o governo americano puder provar que os documentos da CIA publicados pelo WikiLeaks foram submetidos por fontes russas, isso prejudicaria seriamente a credibilidade do WikiLeaks, não acha?

Isso é fantasia da mídia. A posição oficial do governo americano, como expressada por Barack Obama em sua última coletiva de imprensa como presidente, é que não há qualquer evidência de conluio entre o WikiLeaks e a Rússia. As autoridades americanas disseram acreditar que os documentos da CIA não foram provenientes de um Estado, mas sim de um prestador de serviços privado americano.

Mas você não nega que o WikiLeaks perdeu muito de sua popularidade desde a publicação dos documentos sobre Hillary Clinton e sua campanha.

O que você está dizendo? Se não tivéssemos publicado as palestras da Hillary Clinton para o Goldman Sachs, ela teria vencido? Ou deveríamos ter censurado informação para favorecer um candidato? O WikiLeaks nunca fará isso.

Porém, cada vez mais os serviços secretos parecem estar tentando influenciar os resultados de eleições em países estrangeiros.

Isso pode estar ocorrendo.

Se serviços secretos estão usando o WikiLeaks como uma arma útil, você não pode simplesmente se reclinar e dizer: "Isso pode estar ocorrendo".

Os serviços secretos plantam coisas na mídia todo dia. E se o WikiLeaks é logisticamente capaz de publicar documentos antes de uma eleição, nós o faremos, pois é exatamente o que o público espera.

Você não se importa que o WikiLeaks possa influenciar o resultado de eleições?

O WikiLeaks é composto de seres humanos que têm diferentes posições políticas. Mas não podemos minar nossos compromissos públicos, nossos princípios declarados publicamente.

E esses princípios exigem que você publique documentos autênticos o mais rápido possível, independente de quem se beneficie ou seja prejudicado?

Essa é nossa política atual, que poderia ser mudada sob circunstâncias extremas.

Que tipo de circunstâncias?

Se estivéssemos à beira de uma guerra nuclear e uma publicação pelo WikiLeaks pudesse ser interpretada de forma equivocada, então faria sentido adiar a publicação.

Você não adiou a publicação do material que prejudicou Hillary Clinton.

Não estamos nesse negócio para receber "curtidas". O WikiLeaks publica documentos sobre organizações poderosas. O WikiLeaks sempre será o "bad boy".

O que você tem a dizer para pessoas que acusam o WikiLeaks, entre outros, de ser responsável pela eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos?

O WikiLeaks revelou as táticas sujas da campanha de Hillary Clinton. Alguns eleitores levaram isso em consideração. Eles são livres para fazê-lo. É o direito deles. Isso é democracia.

Como secretária de Estado, Hillary Clinton buscou agir contra o WikiLeaks. A publicação de documentos do Partido Democrata foi uma espécie de vingança?

Isso é psicobaboseira da Costa Leste americana. O motivo para o WikiLeaks seguir seus princípios é porque um homem tem um problema? Não! Mas aqui há uma ironia histórica. Hillary esteve envolvida na colocação de nossa suposta fonte, Chelsea Manning, na prisão. Parece haver uma espécie de justiça natural.

Você teve satisfação com a derrota dela?

Assange: ...

Você está sorrindo.

Em um  nível pessoal, eu provavelmente me daria bem com ela. Ela é uma pessoa carismática. É estudiosa, assim como eu. Um pouco desajeitada, assim como eu. Entretanto, é preciso traçar uma linha. Ela decidiu destruir o Estado líbio. Como resultado, ela alimentou a crise dos refugiados europeia. Nós publicamos muitos de seus e-mails sobre como isso se desenrolou. Parece ser inevitável a conclusão de que ela é uma criminosa de guerra.

Estamos caminhando para uma era em que o partido com melhores hackers vencerá a eleição?

Não necessariamente. Se olharmos para os vazamentos de Macron, ficou claro que ocorreram tarde demais para ter um impacto na eleição. Os documentos têm uma inserção visível de metadados, que apontam para um sujeito que presta serviço para o serviço secreto russo, o FSB. Mas por que a Rússia sinalizaria estar por trás disso? Seria um jogo mental um tanto estúpido.

A declaração inicial de missão do WikiLeaks, de 2006, dizia: "Nossos alvos principais são os regimes altamente opressores na China, Rússia e Eurásia Central". Mas não tivemos muitas informações sobre esses países por parte de sua organização.

Isso é absolutamente falso. Essa impressão errada é resultado do Ocidente e dos Estados Unidos só olharem para o próprio umbigo. Quando publicamos em línguas diferentes do inglês, eles não dão atenção.

Mas seus maiores furos, como os documentos sobre as guerras no Afeganistão e Iraque, os e-mails de Hillary Clinton e os recentes documentos da CIA, todos visam os Estados Unidos.

Porque os Estados Unidos são um império com 700 bases militares espalhadas pelo mundo. Aquilo que expõe o poder americano é de interesse de todo o mundo. Quando publicamos 2,3 milhões de documentos sírios, incluindo e-mails de Bashar al-Assad, isso não foi visto como sendo um furo.

Após a anexação da Crimeia pela Rússia, você escreveu pelo Twitter que os Estados Unidos anexaram todo o mundo com vigilância em massa. É sábio justificar um crime com outro?

Qualé! Isso é típica seletividade jornalística. Tenho sido muito crítico a respeito das ações da Rússia na Ucrânia. Em um nível estratégico foi um desastre, tanto para Ucrânia quanto para a Rússia.

Se você tivesse a chance de derrubar o presidente russo, Vladimir Putin, com documentos vazados, você o faria?

Não publicamos documentos para derrubar pessoas. Se os documentos forem autênticos, nós os publicaremos. Não aceitamos censura. Achamos que liberdade de informação é o que a civilização humana precisa para ser justa e imparcial.

Você não acredita que haja limites para a transparência?

Essa não é uma questão para o WikiLeaks. Essa é uma questão para a sociedade. Cada organização tem o seu papel. A polícia tem o papel de deter a Máfia. A mídia tem o dever de dizer a verdade para as pessoas. Esse é nosso principal papel. Não censura.

Você acha que há um risco de que uma fonte anônima possa transformar o WikiLeaks em um instrumento?

Certos grupos de mídia têm tentado dizer isso visando se justificarem por sua falta de sucesso e sua produção relativamente pobre. Enquanto isso, muitos jornais e revistas copiaram o WikiLeaks e estão oferecendo a possibilidade de entrega anônima de documentos. O WikiLeaks publica mais que qualquer outro. O WikiLeaks é bem-sucedido graças ao compromisso com seus valores e graças a sua firmeza na defesa de suas fontes. Isso atrai fontes.

O que você acha do ataque global (do vírus) "WannaCry"?

A Agência de Segurança Nacional americana, a NSA, desenvolveu um estoque gigante de armas digitais, mas perdeu controle dele em 2013. A NSA, entretanto, não informou à Microsoft e outras empresas para que pudessem consertar seus programas, para os quais a NSA tinha ferramentas de ataque.

Você acha que algo pior está por vir?

Há sérias perguntas a serem feitas: a NSA e a CIA esconderam o fato de que tinham perdido o controle sobre a maioria de suas ciberarmas ou informaram o presidente Obama e seu governo? Após as revelações de Edward Snowden, o governo americano prometeu que não esconderia essas vulnerabilidades, mas sim informaria as empresas de TI (tecnologia da informação) para que pudessem consertar os programas vulneráveis. Na verdade, isso foi uma mentira. Outra pergunta importante é: o quanto a NSA é responsável pelos danos causados pelo ataque "WannaCry" em todo o mundo?

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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