Como um "líder da resistência" age nos bastidores para enfraquecer Trump?

Mathieu von Rohr

  • Justin Sullivan/Getty Images/AFP

    20.mai.2017 - O senador Bernie Sanders fala durante campanha do candidato democrata Rob Quist para o Congresso americano, em Montana

    20.mai.2017 - O senador Bernie Sanders fala durante campanha do candidato democrata Rob Quist para o Congresso americano, em Montana

Bernie Sanders entusiasmou muitos americanos durante a campanha eleitoral dos EUA com suas ideias socialistas. Na era Trump, ele se tornou um dos líderes da "resistência". Em uma entrevista a "Der Spiegel", Sanders adverte os democratas para que não concentrem suas forças no impeachment.

O coração da resistência parece um grande hotel dilapidado em algum lugar no interior dos EUA: chique, com carpete azul, sofá com estampa floral e uma mesa com folhetos turísticos. Na parede há uma pintura a óleo de uma floresta norte-americana.

É o gabinete em Washington de Bernie Sanders, senador pelo Estado de Vermont. É o homem que muitos eleitores teriam preferido como candidato presidencial do Partido Democrata, em vez de Hillary Clinton. Sanders, 75, inspirou jovens de todo o país e hoje é considerado um dos líderes de um movimento que chama a si próprio de "resistência", de oposição ao presidente Donald Trump.

A quarta-feira da semana passada (24) tinha sido apenas mais um dia maluco entre muitos outros na política americana atual. Enquanto Trump viajava fora do país, surgiam novas revelações sobre o envolvimento da Rússia na eleição americana. Na véspera, o governo tinha apresentado um orçamento que, aos olhos de seus críticos, devastaria a rede de segurança social dos EUA. Dificilmente se passa um dia sob a liderança de Trump que não seja caracterizado pelo caos e o escândalo.

Sanders está sentado no fundo de uma poltrona em seu gabinete no Senado, seu rosto ligeiramente avermelhado, o tom habitual. Ele usa um terno azul-escuro frouxo e gravata listrada.

Já passou por tempos tão dramáticos? "Acho que este é um momento único na história moderna dos EUA", diz ele em seu típico sotaque do Brooklyn. "O que temos é um presidente que está levando nosso país em uma direção autoritária, de uma maneira que nunca vimos realmente."

Aos olhos dele, Trump é um autocrata, ou simplesmente não entende os limites constitucionais de sua Presidência? "A resposta é ambos", responde Sanders. "Acho que ele tem tendências autoritárias. O fato de se sentir à vontade com autoritários como o presidente russo, Vladimir Putin, o filipino Rodrigo Duterte e outros em todo o mundo sugere que ele é uma personalidade do tipo autoritário." Segundo Sanders, Trump também está trabalhando de mãos dadas com "a classe bilionária para mover este país em uma direção muito oligárquica".

Em vez de olhar para seu interlocutor quando responde às perguntas, Sanders olha para a parede com uma expressão de profunda concentração. Quando se entusiasma, gesticula com os dois braços no ar. Esse homem, que inspirou tanta gente no ano passado, não é exatamente uma pessoa alegre. Parece um inconformista que, apesar da idade, mantém um sorriso jovial. Ele fala de maneira clara e direta, e embora possa parecer um pouco rígido nesse processo é o que o torna autêntico para seus fãs.

Impeachment é prematuro

As instituições americanas são fortes o suficiente para resistir a Donald Trump? "Boa pergunta!", Sanders retruca, parecendo contente. "Certamente esperamos que sim, mas ele está tentando atacar essas instituições." Quando Trump ataca a imprensa e tenta intimidá-la, pergunta-se Sanders, "a mídia continuará forte e disposta a enfrentá-lo? Acho que nesta altura sim. O Judiciário continuará independente? Certamente espero que sim".

Ele diz que agora está trabalhando para tirar os "republicanos de direita" do Congresso nas eleições de meio de mandato no próximo ano, e a impopularidade de Trump já pressiona os candidatos republicanos em todo o país. Eleições especiais [para preencher vagas] estão marcadas em alguns distritos tradicionalmente republicanos para as próximas semanas, e de repente os democratas têm uma chance maior de ganhar algumas delas.

Muitos adversários de Trump, porém, não querem esperar até 2018. Querem que o presidente seja tirado do cargo por causa de sua tentativa de deter a investigação do FBI sobre sua equipe de campanha. Mas Sanders é reservado quando se trata de impeachment. "Você tem de permitir que os fatos vão aonde eles vão", diz ele. "Se formos prematuros sobre isso, se tirarmos conclusões apressadas sem base suficiente nos fatos, acho que pode ser contraproducente. O objetivo é levar a população americana como um todo em uma via bipartidária."

A essência de seu argumento é que ele não quer que as pessoas acreditem que isto é apenas um ataque político a Trump, e que ele quer atrair os republicanos. "Se Bernie Sanders diz alguma coisa, as pessoas dizem: 'Ora, você não gosta de Donald Trump'." É por isso, acrescenta ele, que é bom que o ex-diretor do FBI Robert Mueller tenha sido nomeado advogado especial. "É alguém que muita gente respeita", diz Sanders.

Na opinião dele, os democratas estariam cometendo um erro ao se concentrarem somente na Rússia? Se tudo tem a ver com a Rússia, diz Sanders, muita gente dirá: "Tudo isso é interessante, mas sabe de uma coisa? Não posso pagar o seguro-saúde. Não tenho emprego. Meus filhos não podem ir à faculdade. Por que você não dá atenção às nossas necessidades?"

"Acho que temos de fazer as duas coisas, e eu faço o possível para não me envolver simplesmente nas polêmicas sobre Trump, mas continuar enfocado em seu orçamento desastroso, seu plano de saúde desastroso e, mais importante, apresentar uma agenda progressista, capaz de entusiasmar os trabalhadores e os jovens de todo o país", diz Sanders.

Trump é "uma fraude e mentiroso"

Ele continua falando sobre o esboço de orçamento de Trump, que segundo ele "oferece trilhões em deduções fiscais para o 1% do topo, enquanto faz cortes enormes nos programas para os idosos, as crianças, os doentes e os pobres". Ele quer combater Trump em seu plano de saúde, que, segundo cálculos do Escritório de Orçamento do Congresso, faria 23 milhões de pessoas perderem o seguro-saúde até 2016.

Em muitos aspectos, a agenda de Sanders parece um apelo a um Estado do bem-estar social europeu, o que nunca existiu nos EUA. Ele incluiria coisas como atendimento de saúde universal e educação superior gratuita.

Bernie Sanders conhece bem uma parcela dos eleitores de Trump. Muitos deles também foram atraídos por ele no ano passado, especialmente os eleitores da classe trabalhadora no centro-oeste, alguns dos quais acabaram votando em Trump em vez de Hillary Clinton depois que ele prometeu que iria "renegociar" os acordos de livre comércio e reconstruir a indústria americana. Quando Sanders encontra pessoas que não conseguiram se decidir entre Trump e ele próprio, diz que Trump é "uma fraude e um mentiroso" e não cumprirá suas promessas, "o que, é claro, acabou sendo verdade". Sanders também diz que é um mito que os eleitores de Trump nunca o abandonarão, não importa o que ele faça. Mas acredita que seus eleitores são sensíveis ao fato de que "esse sujeito chegou e todo mundo está implicando com ele".

O próprio Sanders nunca foi membro do Partido Democrata. Ele se declara um socialista, parte do espectro político que há muito foi banida dos EUA. Quando perguntado sobre como os democratas perderam o voto dos trabalhadores para um bilionário, ele tem muito a dizer. Afinal, esse é seu principal tema.

"Ao longo dos anos, o Partido Democrata se tornou um partido fortemente influenciado por interesses dos ricos", diz. Isso explica por que muitos eleitores trabalhadores do país disseram: "Bem, os democratas falam muito, mas na realidade também estão do lado dos ricos e poderosos". Quando tudo isso foi somado, diz Sanders, muita gente pensou: "Não gostamos realmente de Trump, mas vamos lhe dar uma chance".

Os democratas, segundo Sanders, foram especialmente míopes sobre uma questão. "Com Obama, a economia melhorou, absolutamente." Apesar disso, "há bolsões em todo este país --no centro-oeste, no sul-- onde os trabalhadores estavam de fato pior no final dos oito anos de Obama do que quando ele entrou". Então ele diz secamente: "Os democratas não prestaram atenção nessa realidade. Trump sim". Apesar de Sanders não ser membro do partido, ele modificou os democratas com sua candidatura e acredita que devem aproveitar algo de seu próprio movimento.

Seu livro "Our Revolution: A Future to Believe In" [Nossa revolução: um futuro verossímil] é uma espécie de testamento dessa campanha presidencial inesperadamente bem sucedida. Grandes partes dele são dedicadas à sua visão política, mas é também uma espécie de autobiografia. Sanders descreve a infância do menino judeu no Brooklyn. A família de seu pai, que veio da Polônia, havia sido assassinada pelos nazistas, e a memória da guerra e do holocausto, segundo ele, moldou as etapas de sua própria vida.

Ele descreve como iniciou sua carreira no Estado de Vermont, onde se candidatou com sucesso a uma cadeira no Congresso dos EUA, depois se elegeu prefeito de Burlington graças a uma coalizão de ambientalistas e sindicalistas. Finalmente, um político independente durante toda a vida, no ano passado ele se viu no centro de um movimento anti-establishment.

É verdade que ele nem conhecia a palavra "millennial", que designa a jovem geração que tanto inspirou? "É verdade", diz Sanders. E como conseguiu inspirá-la tanto? "É uma boa pergunta, e sabe o quê? Ainda não sei a resposta. Honestamente não sei." Ele diz que acaba de ler um livro sobre Hillary Clinton chamado "Shattered" [Destroçada], uma visão interna severa de sua campanha eleitoral. Sanders diz que se surpreendeu ao ler "que você precisa de três redatores de discursos para lhe dizer por que você é candidata a presidente. Eu não preciso que alguém me diga o motivo. Se eu não soubesse por que era candidato, para começar... (...) Você tem de saber o que você defende".

O livro descreve quantas pessoas estiveram envolvidas no primeiro discurso de Hillary, e que até o final sua campanha avaliavam a questão de por que exatamente ela queria ser presidente. "Isso é realmente incrível. Nós sabíamos desde o primeiro dia." Ele mesmo escreveu seu primeiro discurso, diz, com uma ajuda na edição. Sanders descarta candidatar-se a presidente novamente em 2020? "O que eu sempre digo quando me fazem essa pergunta é que é prematuro, e é uma questão que a mídia enfoca demais."

Ele diz que precisa ir embora e me dá um aperto de mão amistoso. Está novamente na TV pouco depois, dessa vez falando sobre o "orçamento grotesco, imoral" e a reforma da saúde. Parece honesto, sério e revoltado.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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