Análise: A cúpula do G-20 realmente valeu a pena?

Florian Gathmann e Philipp Wittrock

  • Axel Schmidt/ Reuters

    7.jul.2017 - Líderes mundiais posam para a foto oficial da cúpula do G20, em Hamburgo, Alemanha

    7.jul.2017 - Líderes mundiais posam para a foto oficial da cúpula do G20, em Hamburgo, Alemanha

A cúpula de Hamburgo terminou. Obscurecidos pela violência nas ruas lá fora, Angela Merkel e os demais líderes do G-20 conseguiram chegar a mini compromissos sobre questões importantes. Mas fica a pergunta: valeu a pena?

Violência desenfreada. Brutalidade incontida. Fora de nossa comunidade democrática. Quando Angela Merkel fez seu discurso de encerramento da cúpula do G-20 em Hamburgo, no sábado (8) à tarde, usou palavras claras para denunciar o que havia ocorrido nas ruas da cidade no dia e na noite anteriores.

Carros e barricadas em chamas, lojas saqueadas, canhões de água em constante operação, ferimentos, bairros devastados, unidades policiais fortemente armadas: as imagens da violência em Hamburgo rodaram o mundo.

E marcaram um forte contraste com as dos 20 chefes de Estado e de governo que, ao mesmo tempo, escutavam a "Ode à Alegria" de Beethoven na nova e elegante sala de concertos Elbphilharmonie. Música clássica lá dentro, choques lá fora.

A pergunta que tem de ser feita agora, que a chanceler alemã também deve responder, é: tudo isso valeu a pena? Ou o preço foi alto demais?

À primeira vista, os resultados políticos e as mensagens apresentados pelo clube das potências econômicas globais deixam espaço para dúvidas. A declaração de encerramento, arduamente negociada, é formulada de modo tão fraco que, como sempre, todos os países participantes podem aceitá-la.

Comércio: o G-20 declara sua oposição ao protecionismo. Mas ainda não é um compromisso claro com o livre comércio. Na declaração, as práticas comerciais injustas são criticadas e o "papel dos instrumentos de defesa comercial legítimos" é reconhecido, sendo o último uma concessão à tendência do presidente americano, Donald Trump, a isolar ainda mais seu país.

Mas não foi esclarecido o que seriam as práticas comerciais injustas, nem foram elucidados os instrumentos de defesa comercial. E a disputa sobre o aço com os EUA foi adiada.

Clima: sobre a proteção ao clima, o G-20 essencialmente concordou que não concorda. O resultado final foi 19 a 1 quando se tratou de manifestar compromisso em favor do acordo climático de Paris. Os EUA são o país fora do jogo. Mas pouco depois do fim da cúpula o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, indicou que seu país não pretende ratificar o acordo de Paris, apesar de ele ter assinado a declaração final do G-20.

Combate ao terrorismo: os países do G-20 pretendem trabalhar mais estreitamente no combate ao terrorismo, com o objetivo de conter o financiamento aos extremistas assim como sua propaganda na internet e a comunicação interna.

Empresas, agências policiais e organizações financeiras internacionais devem aprofundar sua colaboração para melhor descobrir transações destinadas a financiar o terrorismo.

Apoio às mulheres nos países em desenvolvimento: um projeto mascote de Donald Trump porque foi lançado por sua filha, Ivanka. Cerca de 300 milhões de euros serão disponibilizados em microempréstimos para ajudar mulheres nos países em desenvolvimento a criar suas próprias empresas e escapar da pobreza. Antes da cúpula, Merkel também deu apoio ao projeto.

Os resultados dificilmente constituem uma derrota. Mas tampouco são um avanço. Merkel, de todo modo, expressou satisfação com os resultados. Com Trump agora na Casa Branca, o que dificultou o progresso em muitas questões, Merkel tentou reduzir as expectativas antes da reunião.

Mas as autoridades do governo continuam convencidas de que essas reuniões em grande escala valem o esforço e as vultosas medidas de segurança necessárias, mesmo que, neste caso, não fossem capazes de conter a violência excessiva.

E apesar das críticas maciças e em parte justificadas contra ele, o fórum do G-20 tem valor. Quando tantos chefes de Estado e de governo se reúnem, alianças sobre todo tipo de questões políticas tornam-se possíveis, enquanto se pode exercer pressão sobre os outros --embora nem sempre funcione, como no caso de Trump. Tais eventos também oferecem a oportunidade de discussões pessoais nos bastidores.

Algumas palavras amáveis

Quem sabe, por exemplo, quando e sob que circunstâncias Donald Trump e o presidente russo, Vladimir Putin, teriam se encontrado se não fosse aqui? Em Hamburgo, eles acabaram conversando durante tanto tempo que quase perderam o concerto da Elbphilharmonie. Sua conversa produziu até um cessar-fogo no sul da Síria, mesmo que na verdade já tivesse sido negociado.

Trump disse algumas palavras amáveis a Merkel no sábado. "Foi realmente incrível o modo como as coisas foram conduzidas e nada é fácil, mas tão profissionalmente, sem muita interrupção apesar de tanta gente, e elas parecem acompanhar seu G-20" [sic], disse Trump.

Merkel, porém, não pode ser tão superficial sobre os tumultos quanto o presidente americano. Com as eleições alemãs se aproximando em pouco mais de dois meses, ela esperava que a cúpula produzisse algumas imagens bonitas --como as da cúpula do G-20 na Baviera em 2015, com os belos Alpes ao fundo.

Depois daquela reunião, ela foi acusada de se isolar da população --então desta vez resolveu receber os líderes das economias mais poderosas do mundo no centro de uma grande cidade.

Mas tinha de ser Hamburgo, uma metrópole famosa pela atuante cena de esquerda radical? Por outro lado, por que o Estado deveria ceder diante da previsível militância de opositores da cúpula?

Uma questão de campanha

Essas são perguntas que a chanceler tem de enfrentar agora, no meio de sua campanha à reeleição. Ela não pode evitar a responsabilidade. Mas tampouco podem seus adversários principais do Partido Social Democrata (SPD na sigla em alemão).

O prefeito de Hamburgo, Olaf Scholz, afinal, é membro do SPD. E sua mensagem de tranquilidade ao se aproximar a cúpula do G-20 --"Não se preocupem, podemos garantir sua segurança"-- já entrou no panteão das promessas políticas desorientadas na Alemanha.

Não admira, portanto, que representantes do SPD e dos conservadores de Merkel venham tentando superar uns aos outros na condenação à violência que ocorreu.

O chefe de gabinete de Merkel, Peter Altmaier, referiu-se a isso como "terrorismo de extrema esquerda", enquanto Martin Schulz, o ex-presidente do Parlamento Europeu que disputa a candidatura do SPD para chanceler, chamou os manifestantes de "incendiários assassinos".

A chanceler, por sua vez, tentou no sábado tranquilizar a raiva dos que foram afetados pela violência. Junto com a Prefeitura de Hamburgo, ela anunciou que o Ministério das Finanças fará um plano para ajudar as vítimas a reparar os danos rápida e facilmente.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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