"Não serve a ninguém ser visto como uma extensão dos EUA", diz premiê do Canadá

Klaus Brinkbäumer e Barbara Hans

  • Der Spiegel

    O premiê canadense, Justin Trudeau

    O premiê canadense, Justin Trudeau

O primeiro-ministro canadense fala sobre livre comércio, mudança climática e o delicado relacionamento de seu país com seu vizinho ao sul: os EUA de Donald Trump

A foto foi tirada bem no final, nos últimos 30 segundos de nosso encontro no quarto 215 do Hotel Atlantic, em Hamburgo (Alemanha). E essa foto também diz algo sobre Justin Trudeau.

Ele vai até a janela, atrás da qual brilha o lago Alster. Olha para a câmera e baixa o queixo. Sorri --e mantém o sorriso. Tensiona os bíceps --suas mangas já estavam enroladas quando entramos no quarto-- e se inclina ligeiramente para a frente. Está pronto.

Ele é um profissional, totalmente, e sabe que a postura em cena faz parte do ser político. E certamente sabe qual é sua aparência e o efeito que exerce nas pessoas.

Justin Trudeau, 45, é o primeiro-ministro do Canadá há 18 meses, e o oposto absoluto do presidente americano, Donald Trump. Convidativo. Destemido. Engraçado. Liberal. Ele é um defensor da proteção climática e da migração; quando Trump anunciou a intenção de construir um muro na fronteira dos EUA com o México, Trudeau disse que o Canadá recebe o mundo de braços abertos.

Ele é a favor do livre comércio e tenta a difícil reconciliação com a população indígena do Canadá. Quando apresentou seu gabinete, formado meio a meio por homens e mulheres, perguntaram-lhe o porquê disso, e ele respondeu com uma frase que ficou famosa: "Porque estamos em 2015".

Trudeau é o filho mais velho de Pierre Trudeau, que foi primeiro-ministro do Canadá de 1968 a 1979 e novamente de 1980 a 1984. Justin cresceu brincando nos prédios do governo em Ottawa, e talvez isso explique por que o atual primeiro-ministro é tão autoconfiante, nunca nervoso. Sua presença lembra a de Barack Obama, mas Trudeau assume mais riscos: faz piadas sobre si mesmo, usa meias coloridas e na campanha teve uma luta de boxe com um adversário, que poderia ter resultado em um olho roxo ou mesmo um nocaute.

Após concluir seus estudos (em educação e literatura), ele ensinou francês e estudos sociais, além de teatro. E deu aulas de snowboarding em Whistler, a estação de esqui perto de Vancouver.

Trudeau conquistou proeminência em parte devido ao elogio fúnebre que fez a seu pai, 17 anos atrás: o discurso foi ao mesmo tempo tão controlado e comovente que sua carreira política começou pouco depois, ao entrar no Parlamento em 2008 e assumir a liderança do Partido Liberal em 2013.

Ele chegou à cúpula do G-20 em Hamburgo às 14h de quinta-feira (6), vindo de Edimburgo (Escócia). Do aeroporto Fuhlsbüttel, foi conduzido por uma cidade estranhamente silenciosa, quase vazia, até o Hotel Atlantic -- lugar que se tornou o centro do mundo durante algumas horas na quinta-feira. Donald Trump também estava a caminho do hotel, assim como Angela Merkel, e os dois se encontrariam aqui.

Trudeau entra no quarto. Não quer comer nem beber nada. Só dá um radiante "Olá". E a entrevista começa.

Spiegel: Senhor primeiro-ministro, a metade do mundo o considera o "anti-Trump". O senhor e Donald Trump têm algo em comum?

Justin Trudeau: Sim. Fui eleito por causa de meu compromisso com os canadenses de que faria um crescimento para todos. Eu me concentraria na classe média e nos que trabalham duro para entrar nela. Eu iria garantir que as pessoas que sentiram que o crescimento econômico as deixou para trás fossem incluídas. Isso se assemelha à promessa com que Trump se elegeu.

Mas nossas abordagens do mesmo problema são um pouco diferentes. Em minhas conversas com ele, porém, conseguimos praticamente concordar que queremos ajudar os cidadãos de nossos países de maneiras tangíveis.

Spiegel: Depois da eleição de Trump, tinha-se a impressão de que o Canadá é uma versão um pouco mais liberal dos EUA. Enquanto os EUA se isolaram dos refugiados, o senhor levou refugiados sírios ao Canadá para ajudá-los. Qual é sua estratégia para lidar com Trump?

Trudeau: Como seu primeiro-ministro, os canadenses esperam que eu faça duas coisas: defender os interesses canadenses e proteger os valores canadenses; e ter um relacionamento bom e construtivo com nosso vizinho mais próximo e maior parceiro comercial, os EUA. Essas duas coisas não são incompatíveis. Exigem uma estratégia e abordagem muito deliberadas, mas acho que fazemos isso.

Spiegel: De que forma? Seu objetivo parece ser independente e apresentar o Canadá como uma alternativa, e ao mesmo tempo tentar não provocar Donald Trump.

Trudeau: Desde 1945, o Canadá teve uma política externa independente. Foi quando se tornou independente da política externa do Reino Unido como um antigo domínio. Mas mesmo antes disso nós sempre tentamos ter nossa própria visão de mundo.

De fato, muitas vezes por causa do tamanho e peso de nosso vizinho no mundo, nós no Canadá nos definimos em contraste com as posições americanas em coisas como Cuba, a guerra do Vietnã e o desarmamento nuclear. Historicamente, o Canadá nem sempre esteve alinhado com os EUA. Não serve necessariamente aos interesses de ninguém --canadense ou americano-- ser visto como uma extensão dos EUA.

Spiegel: Qual foi o seu primeiro pensamento quando soube que Donald Trump tinha ganhado a eleição?

Trudeau: Foi uma surpresa. Não acho que muitas pessoas esperavam que ele vencesse. Mas também houve um reconhecimento de que a raiva e os temores que muitos americanos tinham eram reais. Que isso seria ao mesmo tempo um desafio no relacionamento, obviamente --um presidente que chega com uma ideologia nem sempre alinhada à minha--, mas também o desafio de realmente ter de lidar com essa raiva, essa expressão de frustração com as instituições de governo, partidos e estruturas que, durante muitos anos, demonstraram que não fizeram um bom trabalho de escutar as pessoas comuns.

Spiegel: O senhor acredita que essa raiva representa uma ameaça séria à democracia?

Trudeau: Tivemos uma eleição no Canadá em 2015 em que o governante em exercício usou a política da divisão, a política do medo --dos imigrantes e muçulmanos, especificamente-- e de inveja de classe e segurança para tentar promover o que está repercutindo muito em alguns movimentos populistas de direita. Contra-atacamos isso com uma visão inclusiva. Em vez de tentar dizer que iríamos proteger as pessoas dos piores entre nós, vamos tentar dar o melhor de todos e uma visão positiva de trabalharmos juntos para resolver grandes problemas, reconhecer que nem tudo está certo, as coisas precisam ser consertadas.

É melhor resolver as coisas trabalhando juntos do que apontar dedos contra os outros. Emmanuel Macron e Sadiq Khan, o prefeito de Londres, adotaram uma abordagem muito parecida. Eles disseram: "Somos mais fortes unidos". E deu certo.

Spiegel: As pessoas esperam muito do senhor, de Macron e de Merkel. O senhor foi romantizado e idealizado. O que vocês três realmente têm em comum?

Trudeau: Em primeiro lugar, o que temos muito em comum --além de estarmos felizes por nosso envolvimento positivo no cenário mundial-- é que nosso enfoque é para nossos próprios cidadãos e garantir que os estamos apoiando e criando soluções. Vemos muita frustração, medo e raiva. Sempre haverá pessoas que dizem "Devemos destruir as coisas, elas simplesmente não funcionam e devemos nos voltar para dentro".

Nós três --Angela, Emmanuel e eu-- estamos tentando mostrar que podemos trabalhar com os sistemas existentes e que precisamos garantir que eles funcionem para todos os cidadãos e que criem as liberdades e as oportunidades sem precisarmos ser mais temerosos, o que a direita sempre está tentando, ou mais irados, o que a esquerda parece forçar.

Spiegel: O senhor se considera de centro. Os centristas têm dificuldade para se manter em tempos tumultuados?

Trudeau: O centro teve o desafio de sempre ter de ser racional, equilibrado. Se você está à direita, pode recorrer à direita; e na esquerda pode recorrer à esquerda. Mas o centro nem sempre se vendeu tão bem na política --ele não fica bem em um adesivo de parachoque.

Mas o que estamos vendo é que os cidadãos de países do mundo todo estão percebendo que é mais importante ser responsável, otimista e ponderado sobre as soluções, e não contribuir com emoções negativas, sobressaltadas.

Spiegel: Angela Merkel é um pouco mais experiente que o senhor. Há algo que possa aprender com ela?

Trudeau: Em minhas primeiras conversas com ela e no trabalho que fizemos nos últimos 18 meses, eu sempre a escutei cuidadosamente e respeitei sua experiência e sua perspectiva das coisas.

Spiegel: Pode ser um pouco mais específico?

Trudeau: Ela se dedica às coisas certas. Ela se concentrou nos interesses de seus cidadãos --e não apenas de uma maneira estreita, de curto prazo, mas de um modo muito pensado: "Vamos fazer do mundo um lugar para as futuras gerações também".

Seja sobre o clima ou a migração, ela não tem medo de examinar as tendências de longo prazo e dizer: "Está bem, precisamos nos posicionar aqui, mesmo que isso não pareça óbvio --essa é a direção que devemos seguir". As pessoas respeitam isso em Merkel, que uma política tenha uma visão de longo prazo.

Spiegel: Há algo como um populismo bom ou mau, legítimo ou ilegítimo?

Trudeau: Uma das coisas mais importantes em qualquer líder ou em qualquer abordagem bem sucedida é se dedicar a conectar-se com as pessoas e realmente escutá-las. Não devemos apenas dizer: "Oh, sim, as pessoas estão protestando". Precisamos lhes perguntar por que estão protestando e tentar entender se há algo que podemos fazer para incluí-las e reagir a essas preocupações.

Isso não é populismo, é ser escrupulosamente aberto ao fato de que nossos cidadãos têm o direito de ter, e é até justificável que tenham, preocupações e perguntas muito reais para as pessoas responsáveis por servi-las. Excluir a voz dos cidadãos da política leva a um caminho descendente muito ruim.

Spiegel: Mas Donald Trump também afirma isso --que ele é uma pessoa que escuta as preocupações e os temores da população.

Trudeau: Em última instância, é a população que julga, por meio das eleições, se alguém governa bem ou não. Não cabe a outros políticos definir e determinar nossos colegas.

Spiegel: Os EUA anunciaram a intenção de se retirar do Acordo de Paris. Há uma maneira de avançar na proteção climática?

Trudeau: Meu antecessor, Stephen Harper, não se importou muito com o combate à mudança climática. Durante dez anos sob esse governo, o que vimos foi uma tremenda liderança de nossas províncias, de nossas cidades, de nossas grandes empresas --apesar do governo federal na época.

O que eu vi nos EUA é que os prefeitos das grandes cidades se apresentam, pequenos municípios querem participar, os Estados se oferecem e, é claro, os atores importantes na economia americana estão dizendo que vão cumprir os compromissos de Paris, mesmo que o governo federal não o faça.

Spiegel: O senhor pode contornar o governo federal dos EUA e falar diretamente com os Estados?

Trudeau: Sim, e fazemos isso, mas também estaremos muito envolvidos com o presidente Trump e encontraremos questões que podemos resolver juntos --sobre política energética, por exemplo. Ele indicou, por exemplo, o interesse de trabalhar conosco nos regulamentos sobre poluição. É claro que é decepcionante, e eu digo isso constantemente, que ele não queira participar do Acordo de Paris.

Spiegel: Pode-se defender a opinião de que a política americana de sair do Acordo de Paris é mais honesta que as políticas do Canadá ou da Alemanha? A Alemanha e o Canadá gostam de falar sobre a proteção climática, mas a chanceler não faz nada que prejudique a indústria de automóveis, e o Canadá continua construindo oleodutos.

Trudeau: Não posso falar pela Alemanha, mas certamente posso falar de uma perspectiva canadense. Combater a mudança climática sempre será uma espécie de desafio em um país tão frio e vasto. Estamos trabalhando o mais rapidamente possível por uma energia mais verde, mas ao mesmo tempo sabemos que vamos depender dos combustíveis fósseis durante vários anos.

Neste momento também dependemos do mercado americano. Os canadenses podem ter sentimentos diferentes sobre Trump conforme o lugar do país em que estão, mas estamos comprometidos com avançar e ter êxito em nossas obrigações do Acordo de Paris.

Spiegel: Os EUA deveriam ser isolados, o que significaria um G-19 em vez de G-20?

Trudeau: As 20 maiores economias globais se reúnem no G-20 para conversar sobre problemas econômicos. A mudança climática é uma das maiores questões econômicas que todos enfrentamos. O mundo está avançando sobre o compromisso de Paris. Mas devemos reconhecer que, por enquanto, os EUA mantêm uma posição diferente.

Spiegel: Líderes como Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, e Trump estão promovendo o isolacionismo, mas o senhor defende o livre comércio. O senhor ainda acredita realmente no Acordo de Livre Comércio entre o Canadá e a União Europeia (Ceta)?

Trudeau: O comércio é bom para a economia. O comércio gera crescimento. O problema é que ele gera crescimento, mas não pensa na distribuição dos benefícios desse crescimento. E ao longo dos anos, particularmente, vimos uma minoria muito pequena de pessoas se beneficiarem do crescimento maior, e muitas pessoas se perguntam o que está acontecendo e por que não funciona para elas. Mas se a UE não pode assinar um acordo de livre comércio com um país tão parecido quanto o Canadá, com que país irá assinar um acordo?

Spiegel: Talvez com a China?

Trudeau: Essas são questões que a Europa obviamente tem de se perguntar.

Spiegel: Mas parece que o Ceta já desmoronou. Como o senhor pretende transmitir um sucesso sobre o acordo?

Trudeau: Temos visto manchetes de que o "Ceta está prestes a desmoronar" há alguns anos. Nós no Canadá fizemos praticamente tudo o que foi possível. A UE deve decidir se acredita no comércio com o Canadá ou não.

Spiegel: O que a Europa pode aprender com o Canadá sobre migração?

Trudeau: Primeiro, somos muito diferentes. O Canadá tem a sorte de ser protegido por oceanos e por um vizinho ao sul que, você sabe, é muito cuidadoso sobre a migração e suas fronteiras. Por isso não temos o fluxo irregular que a Europa teve de enfrentar ultimamente.

Mas por causa disso as pessoas aqui viram que receber bem as pessoas, ajudá-las a se integrar, é na verdade um tremendo benefício para as economias locais. Cria empregos, inovação e oportunidade. Uma das coisas que vêm com isso, entretanto, é conter o fluxo de migração irregular. Mas você não pode simplesmente criar barreiras --também é preciso trabalhar com os países de origem.

Spiegel: Seu pai foi primeiro-ministro do Canadá durante 15 anos. O que o senhor aprendeu com ele?

Trudeau: Meu pai me ensinou muitas coisas. Duas delas me vêm à mente agora: seja fiel a seus valores. Você pode fazer compromissos com políticas, mas não com seus valores fundamentais, ou você se perderá no mundo da política. A segunda coisa é escutar seu interlocutor, seja quem for. As pessoas na rua, outros políticos, diretores de empresas e trabalhadores. Aprenda com eles.

Spiegel: Há algo que o senhor faria de modo diferente de seu pai?

Trudeau: O mundo hoje é muito diferente. As redes sociais, que eu uso para me conectar com as pessoas, são algo que meu pai nunca usou. Não me preocupo em defender o legado de meu pai. Preocupo-me muito com o que o futuro trará.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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