As elites jovens e progressistas do Afeganistão que desafiam o Taleban

Susanne Koelbl

Em Cabul

  • Twitter/Reprodução

    25.jul.2017 - Shaharzad Akbar, do movimento Afeganistão 1400

    25.jul.2017 - Shaharzad Akbar, do movimento Afeganistão 1400

Uma elite jovem e progressista surge em Cabul, incluindo muitas mulheres. Ela resiste às atrocidades do Taleban na forma de iniciativas políticas e artísticas e quer acabar com a cultura de violência do Afeganistão

Sentada em sua casa em Cabul, protegida da rua por dois portões de aço, Shaharzad Akbar fala sobre superação do ódio. A jovem de 29 anos, que tem um mestrado em estudos de desenvolvimento pela Universidade de Oxford, usa um vestido beduíno bordado e colorido sobre uma calça jeans justa.

Em janeiro, o Taleban matou um de seus melhores amigos, Abdul Ali Shamsi, vice-governador de Kandahar. Ele não era muito mais velho que ela. No dia de seu assassinato, ele havia se encontrado com visitantes diplomatas dos Emirados Árabes Unidos. Uma bomba havia sido escondida no estofado de um sofá no gabinete do governador. A explosão matou 13 pessoas.

Shamsi e Akbar haviam fundado juntos um grupo chamado Afeganistão 1400, um movimento de afegãos jovens e instruídos que lutam para acabar com a guerra civil no Afeganistão. No dia em que assassinaram seu amigo, conta Akbar, um jovem porta-voz do Taleban havia participado de uma oficina com membros do movimento.

"Naquele momento, odiei aquele homem do fundo do meu coração, porque foi o Taleban que matou meu amigo", diz Akbar. "Mas é exatamente essa a questão: precisamos parar de odiar".

Após 16 anos de luta, ela diz, muitos membros do Taleban também estão ansiando por paz.

Como alguém pode continuar lutando por uma causa quando seu melhor amigo, seu irmão ou seu filho foi assassinado por um homem-bomba? Como alguém consegue suportar a brutalidade que permeia tudo no Afeganistão, dia após dia?

Cerca de 3.498 civis foram mortos no país no ano passado, a maioria deles em ataques com bomba. Cerca de 7 mil membros das forças de segurança afegãs também morreram, elevando a média de mortes para cerca de 30 por dia, um número inaceitável.

"Esse furor assassino precisa acabar"

A capital Cabul lembra uma fortaleza, e no momento ela está passando por seu período mais sangrento desde o início da invasão liderada pelos Estados Unidos. Ataques a bomba são comuns.

Um dos piores ataques já perpetrados na capital atingiu a embaixada da Alemanha no dia 31 de maio. Mais de 150 pessoas morreram e 460 ficaram feridas quando 1,5 tonelada de explosivos foi detonada. O prédio da embaixada estava quase vazio, mas os terroristas mataram muitos funcionários da empresa telefônica Roshan que moravam em um prédio do outro lado da rua. Quase todos os mortos eram jovens formados em universidades, o tipo de gente que poderia ter ajudado a reconstruir o país.

"Esse furor assassino precisa acabar", diz Shaharzad Akbar. Em uma intervenção artística, ela e outros ativistas do Afeganistão 1400 tingiram o rio Cabul de vermelho durante uma hora em fevereiro, fazendo com que parecesse sangue correndo através do coração da capital.

"Com corante alimentício inofensivo para o meio ambiente", Akbar se apressa em observar. O grupo queria passar aos cidadãos de Cabul a mensagem de que essa guerra não veio de Deus, mas foi criada pelo homem. O evento foi noticiado pela mídia, e centenas de pedestres permaneceram na ponte e discutiram seu significado.

Durante a última década e meia, a comunidade internacional não conseguiu resolver os problemas políticos desta região. Contudo, muitas coisas melhoraram. Hoje há estradas em todo o Afeganistão, inclusive em áreas onde não havia estradas antes. O sistema de saúde está melhorando, e até mesmo o correio funciona com certa confiabilidade.

O país produziu mulheres regentes, pilotos, paraquedistas e empreendedoras. Existem estações de rádio e jornais dirigidos por mulheres em quase todas as províncias. Dezenas de estações de TV produzem programas de entrevistas diários e transmitem notícias do mundo todo. Oitenta por cento dos afegãos têm celular, e as faculdades e universidades do país produzem dezenas de milhares de novos formados a cada ano. Milhares de jovens já estudaram no exterior.

O surgimento dessa nova geração instruída talvez seja o acontecimento mais revolucionário dos últimos anos. A semente plantada pelo Ocidente parece ter germinado. Essa nova geração é formada por filhos da comunidade global, e em muitos aspectos eles pensam de forma muito parecida com a dos jovens da Europa e dos Estados Unidos.

Rahmat Gul/AP
Local de atentado diante da Embaixada da Alemanha em Cabul, no Afeganistão

Desafiando a tradição

Apesar desse progresso social, a paz no Afeganistão está mais distante do que nunca desde o começo da invasão ocidental 16 anos atrás. Uma das regras informais de sobrevivência em Cabul é saber que 8h das quartas-feiras e sábados, antes e depois do fim de semana islâmico, é a hora preferida dos homens-bomba. É quando o maior número de pessoas está nas ruas.

Como resultado, muitos moradores de Cabul passaram a sair de suas casas meia hora mais cedo ou mais tarde. Eles evitam a rotatória de Massoud perto da embaixada americana, bem como a estrada para o aeroporto, lugares que são frequentemente visados por homens-bomba.

O espaço do zoológico de Cabul foi acrescentado recentemente à lista de lugares perigosos, porque é conhecido como um ponto de encontros para namorados. Mesquitas onde membros proeminentes do governo rezam também devem ser evitadas. Restaurantes da moda como o iCafe, o Slice e a 24/7 Pizza Shop são considerados arriscados, bem como o atraente restaurante Spujmay no lago Qargha, saindo alguns quilômetros da cidade.

A estratégia do Taleban é disseminar o máximo de terror possível. O serviço de inteligência do Afeganistão descobriu que uma madrassa em Chaman, uma cidade fronteiriça paquistanesa, supostamente treina homens-bomba para realizar ataques no Afeganistão. O objetivo, de acordo com autoridades afegãs, é matar tanta gente até chegar ao ponto de o povo afegão se rebelar contra o governo em Cabul, porque o governo é incapaz de protegê-los.

A elite jovem é contra essa cultura de violência e está lutando por mudanças fundamentais no país. Homens e mulheres podem se sentar juntos no anfiteatro da Universidade de Jahan-e-Noor, uma instituição privada de ensino no centro de Cabul. A universidade tem um programa de jornalismo e em breve terá também um departamento de ciências políticas e economia.

"Queremos um governo que funcione, justiça social e oportunidades", diz Mohammed Shoib, um estudante de 23 anos de Baghlan. Para ele e seus amigos, ele diz, o maior problema é a sociedade afegã tradicional. "Os mais velhos não entendem nada, mas eles querem decidir tudo", diz Shoib.

Uma divisão geracional

O reitor da Universidade de Jahan-e-Noor tem somente 27 anos. Como apresentador de um proeminente programa sobre política na Tolo TV durante seis anos, Muslim Shirzad se tornou uma estrela da mídia.

Shirzad entrevistou os pesos-pesados políticos do país, incluindo suspeitos de crimes de guerra como o atual vice-presidente, Rashid Dostum. Shirzad lhe perguntou sobre a fonte de sua fortuna e suas muitas armas. Quinze anos atrás, teria sido impensável para um homem tão jovem desafiar publicamente um líder de milícia tão poderoso.

"Viajei por 50 países, mas no final eu queria estar aqui", diz Shirzad. Ele usa seu cabelo curto repartido para o lado, e um terno justo com uma gravata cor de mostarda. "A Europa é boa para os europeus, a Austrália é boa para os australianos, e o Afeganistão é bom para nós. Temos um grande futuro."

Mas e a corrupção, o desemprego e as bombas? Shirzad diz obedecer o antigo ditado afegão que diz que você não deve se apaixonar a menos que tenha o coração de um leão. Em outras palavras, é melhor que fiquem em casa aqueles que não têm coragem. Ele ensina o mesmo princípio em sua universidade: "Tenha confiança em si mesmo. Você consegue, porque você é um herói".

Esse princípio foi adotado por uma de suas alunas, Basira Joya, de 20 anos. "Quero dar voz às mulheres cujas vozes foram reprimidas", ela diz. Ela usa um véu de cabeça sobre um coque, sapatos vermelhos e minissaia sobre uma legging. Ela usa lápis de olho para desenhar suas sobrancelhas e batom cor-de-rosa. Ela se mudou para a capital dois anos atrás e vive com seus irmãos. Joya trabalha como apresentadora de noticiário na Zan TV, um canal privado, e usa seu salário para pagar a anuidade da faculdade e outros gastos.

Os membros dessa nova elite instruída buscam objetivos diferentes dos de antigos combatentes. Eles não querem mais prolongar as inimizades étnicas de seus pais, que moldaram o país. Esses jovens não querem mais ouvir homens velhos e milícias que têm armas, mas não sabem nem ler ou escrever. Muitos idosos, por sua vez, ridicularizam movimentos civis como o Afeganistão 1400, dizendo que são pouco realistas e ingênuos.

Os ativistas realizam reuniões estratégicas uma vez por semana em seu pequeno escritório no bairro de Kolola Pushta. Suas discussões muitas vezes giram em torno de se eles devem operar de dentro ou de fora de instituições que eles acreditam ser "completamente podres e disfuncionais". Na parede, as palavras "Dê uma chance à paz".

Mas não é fácil acreditar na paz em um lugar dominado pela violência. Após a morte de seu amigo, a ativista Shaharzad Akbar tentou procurar conforto nas palavras do poema de um poeta afegão, chegando a recitar os versos de cor: "Você cheira ao aço de suas armas, você cheira a sangue, você cheira a ópio. Beije-me e deixe tudo para trás". Em uma manhã, bem cedo, ela foi caminhar nas montanhas perto de Cabul, e repetiu as palavras para si mesma.

Quando deu 5h da manhã, antes de o Sol nascer sobre a capital, ela já havia alcançado o pico. O céu estava limpo sobre os prédios cor de areia de Cabul. Ela conta que procurar por beleza a ajuda a afastar a depressão.

Akbar quer continuar estremecendo a sociedade. Ela e outros membros do Afeganistão 1400 plantaram recentemente 3.498 árvores na região rural do Afeganistão, em homenagem aos civis inocentes que morreram no ano passado. "Não são somente números", ela diz, "são pessoas, assim como nós".

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos