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Análise: No vácuo americano, Alemanha deve aprender a liderar

REUTERS/John MACDOUGALL
Angela Merkel comanda reunião do G7 em Hamburgo, em julho de Imagem: REUTERS/John MACDOUGALL
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Christiane Hoffmann

08/01/2018 00h01

A decisão de Washington de abandonar seu papel de liderança global marca o fim da inocência em política externa da Alemanha. Berlim, em breve, enfrentará algumas escolhas difíceis que podem arranhar sua posição moral.

Com frequência, é uma única frase que entra para a história, uma que resume uma ideia, um movimento, uma era ou personalidade. Duas frases de Angela Merkel vêm à mente. Uma, focada na política doméstica, foi uma súplica: "Podemos fazê-lo". Foi uma promessa e um apelo a todos os alemães diante do imenso afluxo de refugiados sírios que entravam na Alemanha em 2015.

A outra, focada na política externa, foi como um terremoto. "Os tempos em que podíamos depender completamente de outros, de certo modo, acabaram", disse Merkel, em 28 de maio, durante uma aparição em Munique. Ela fez de tudo para fazer a frase parecer o mais improvisada e trivial possível. Ela não estava falando em frente ao Portão de Brandemburgo, em Berlim. Ela estava em um festival em Munique, com cheiro de cerveja pairando no ar. Ela hesitou, relativizou, atenuou a linguagem e falou de "outros", apesar de ter ficado claro que ela se referia aos Estados Unidos.

Mesmo assim, o impacto de suas palavras foi inegável. A chanceler alemã basicamente anunciou o fim de uma aliança que garantiu a segurança da Alemanha por meio século e moldou suas políticas e valores. Quando ela fez a declaração em maio, a Alemanha estava no meio de uma campanha eleitoral, que informou a forma como ela foi interpretada e descontada. Mesmo hoje, seu radicalismo é em grande parte ignorado, talvez porque fazer de outro modo seria doloroso ou perturbador demais. Os alemães preferem evitar tal introspecção. Os Estados Unidos continuam sendo nossos parceiros mais importantes, como as autoridades do governo gostam de dizer, e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar ocidental) permanece intacta. Isso pode ser verdade. Mas até quando?

Michael Probst/AP Photo
Angela Merkel, da CDU, faz comício enquanto apoiadores do partido de direita AfD seguram cartaz "O Islã não é parte da Alemanha. A liberdade da mulher não é negociável" Imagem: Michael Probst/AP Photo

A Alemanha tem estado ocupada com seus próprios assuntos desde maio, quando sua campanha eleitoral teve início para as eleições de setembro, que ainda não produziram um novo governo. Mas assim que Berlim tiver novamente uma aliança de governo capaz de conduzir os assuntos internacionais, enfrentará circunstâncias que mudaram dramaticamente. A ordem mundial liberal que os Estados Unidos gastaram sete décadas construindo está se desintegrando. Enquanto isso, os Estados Unidos estão saindo do palco global em três frentes diferentes: militar, moral e como principal líder da comunidade internacional. Eles estão se retirando de seu papel como garantia confiável da segurança europeia, como moldadores das políticas globais e como principal potência do Ocidente livre. O que o futuro reserva sem os Estados Unidos no comando? O que o futuro reserva quando a constante mais importante da política externa alemã não está mais lá? Como será o futuro se todos os países buscarem copiar a postura de "a América em primeiro lugar"?

Para a Alemanha, isso significa o fim daquela que basicamente tem sido uma política externa protegida, uma na qual outros com frequência tomavam as decisões difíceis por ela. Nos últimos anos, a Alemanha tem demonstrado uma maior disposição em assumir uma responsabilidade proporcional ao país que é o mais populoso e economicamente poderoso da Europa. Até o momento, entretanto, a Alemanha tem preferido reagir em vez de agir preventivamente, como visto nas crises da Ucrânia e do euro.

Por anos, a Alemanha conseguiu escapar impune com uma política externa que não exigia que o país assumisse muita responsabilidade. A soberania da Alemanha Ocidental era limitada e a reserva alemã era compreensível por razões históricas. O país dividido também era pequeno demais para exercer um papel na política internacional. Olhando à frente, entretanto, a Alemanha terá que liderar. Mas para onde? A consequência mais radical do novo estado dos assuntos globais é que a Alemanha agora precisa ser clara a respeito do que deseja. Isso pode soar banal, mas não é.

A abstinência global da Alemanha lhe permitiu o luxo de basear sua política externa basicamente em valores, enquanto outros cuidavam do trabalho sujo da "realpolitik". As políticas de Merkel para refugiados, que colocavam princípios humanitários acima da coesão da União Europeia, é apenas o exemplo mais radical dessa tradição alemã. A nova situação global também significará o fim da boa Alemanha. Quando princípios colidem com pragmatismo, quando valores colidem com interesses, Berlim será forçada a tomar decisões difíceis. Mas quão longe iremos? Que meios estaremos dispostos a empregar visando defender a Europa, aproximar o Oriente Médio ou estabilizar a África?

Estados Unidos

Especialistas alemães em política externa ainda estão debatendo quão radical o estranhamento entre os Estados Unidos e a Europa se tornou. Os atlanticistas pedem por otimismo, apesar de Trump, até o momento, ter apenas reafirmado as preocupações dos pessimistas. Eles continuam se agarrando à ilusão de que, fora Trump, as relações transatlânticas permanecem intactas. Eles veem o presidente americano como um mal doloroso, porém temporário. Eles acreditam que assim que os Estados Unidos recuperarem sua saúde, o status quo retornará às relações transatlânticas.

O problema com essa posição, entretanto, é que a retirada dos Estados Unidos de seu papel como moldadores da política global teve início antes de Trump, e também não terminará com sua partida. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Sigmar Gabriel, foi ainda mais longe ao reiterar os sentimentos de Merkel na tenda de cerveja, em um importante discurso de política externa feito poucas semanas atrás, ao declarar que a Alemanha também precisa aprender a se virar sem os Estados Unidos se necessário.

Liderança

O que significa quando os Estados Unidos abandonam seu papel de liderança global? A ideia de que a Alemanha poderia assumir esse papel foi uma tolice desde o início. A noção de que a chanceler alemã assumiria como líder do mundo livre e que a Alemanha, como colocou o ator e filantropo Richard Gere, seria o "país moralmente sábio, estável e de pensamento progressista do planeta", representava a esperança desesperada de um punhado de românticos americanos. Eles lisonjearam a Alemanha e alimentaram a ilusão ingênua de que valores podem ser mantidos sem a necessidade de defendê-los.

Mark Blinchc/Reuters
Para Richard Gere, a Alemanha é o país moralmente sábio, estável e de pensamento progressista do planeta Imagem: Mark Blinchc/Reuters

A Alemanha pode ver a si mesma como uma grande potência moral, mas política e economicamente, não somos fortes o bastante, e militarmente, contamos com forças armadas apenas moderadamente equipadas, sem nenhuma dissuasão nuclear.

Além disso, a incapacidade da Alemanha de formar uma coalizão de governo até agora mostra que Berlim não está imune à crise da democracia liberal. A Alemanha não pode salvar o Ocidente, mas, juntamente com a França, poderia fazer muito mais na Europa e em seu quintal do que vem fazendo. Há quatro anos, Joachim Gauck e Frank-Walter Steinmeier, o presidente e ministro das Relações Exteriores da Alemanha na época, pediram por tal foco, dizendo que a Alemanha precisava agir "de modo mais antecipado, de modo mais decisivo e de modo mais substancial".

Valores

Em suas obras, o historiador alemão Heinrich August Winkler descreveu o triunfo do Ocidente, seus valores e suas ideias. Mas mesmo ele parece perdido desde que os Estados Unidos deixaram de defender esses valores. Em seu livro mais recente, "Is the West Crumbling?" (O Ocidente está ruindo? em tradução livre, não lançado no Brasil), ele não consegue nem mesmo responder a pergunta que faz. Winkler se tornou o narrador de um evento histórico que ele não mais consegue interpretar.

A crise do Ocidente é particularmente dolorosa para a Alemanha. A longa jornada do país para o Ocidente descrita por Winkler terminou quando o declínio do Ocidente teve início, como um trem que chega a uma estação que acabou de ser desativada.

À medida que desmorona a posição de poder do Ocidente, suas alegações de liderança moral apenas se tornaram mais ruidosas. Essa divergência foi particularmente evidente para aqueles observando de fora da Europa. Lá, o Ocidente há muito é visto como presunçoso e arrogante. Era um tom com o qual discordavam e reagiram com rejeição e desafio.

Sistemas autoritários agora entraram em rivalidade aberta com o Ocidente, colocando seus modelos contra os nossos. A narrativa, disseminada acima de tudo pela China, é de semiditadores eficientes, benevolentes, que prometem prosperidade e progresso em contraste com democracias desajeitadas, ineficientes e atormentadas por crises.

Estratégia

A Europa precisa defender seus valores. Para isso, seria de ajuda se mudasse sua postura e tom, assim como se livrasse de sua arrogância, abandonando gestos de apontar de dedo e censura. A Europa precisa permitir que suas virtudes falem por si só. Ela precisa manter sua posição na competição com outros modelos de sociedade. Com Emmanuel Macron no comando da França, temos agora uma oportunidade de tornar a Europa atraente de novo.

Jonathan Ernst/Reuters
Angela Merkel e Emmanuel Macron se encontram Imagem: Jonathan Ernst/Reuters

Uma das sabedorias favoritas adotadas pelo merkelismo é que a política começa por meio da observação da realidade. Mas isso não é fácil atualmente. A política externa alemã carece de uma abordagem estratégica que descreva, analise e mostre possibilidades. Como a maioria das coordenadas principais já tinha sido estabelecida, a Alemanha não precisava pensar nelas de modo crítico. Outros costumavam fazer isso por nós, mas esses tempos acabaram. Há poucos anos, o Ministério das Relações Exteriores deu início a um processo de revisão e o Ministério da Defesa também começou a trabalhar em um novo "livro branco" de políticas. Tudo isso é bom, mas não vai longe o bastante. A Alemanha precisa de mais mentes na política externa, que por sua vez tenham mais influência. Os pensadores mais inteligentes na política não devem partir para o setor privado, como muitos têm feito. Eles deveriam seguir para fundações e centros de estudos.

Não é mais suficiente que cada nação planeje e pense sozinha. Se Berlim e Paris desejam liderar juntas, então também precisam pensar juntas. O Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), o mais importante centro de estudos de política externa da Alemanha, propôs recentemente a criação de um "livro branco" conjunto franco-alemão. Isso, ao menos, seria um início.

Interesses

Valores e interesses não são mutuamente excludentes por natureza. É de interesse da Alemanha promover o Estado de Direito, direitos humanos, multilateralismo e o cumprimento dos acordos internacionais. Mesmo assim, pode ainda ser necessário aceitar limitações para se atingir as metas de políticas externas. A política externa alemã deve pesar valores morais e interesses. Por exemplo: o Acordo de Associação à UE com a Ucrânia representava uma decisão soberana de Kiev de se associar mais estreitamente à União Europeia. Mas era de interesse europeu diante do custo final, uma guerra na Ucrânia e uma briga com a Rússia? No final, a não disposição em ceder não serviu nem à Ucrânia e nem à UE.

Outro exemplo: foi acertado insistir junto ao Reino Unido que o princípio de liberdade de movimento não era negociável, abrindo assim o caminho para a Brexit (a saída do Reino Unido da UE)? Certamente, a liberdade de movimento dos trabalhadores é um princípio central do mercado único. Mas por temor de que o princípio fosse abandonado, nunca houve uma discussão sobre se uma concessão poderia ser feita.

Mais outro exemplo: no conflito em torno da busca pela Catalunha de sua independência, a Alemanha e a UE seguiram rigidamente o princípio de não interferência na política doméstica de um Estado membro. Mas seria do interesse da Europa se Berlim ou Bruxelas, ou qualquer outra, pudesse encontrar uma forma de servir como mediadora entre Madri e Barcelona.

Parte de nossa consideração precisa ser aceitar coisas que não temos o poder de mudar. A Alemanha deve se preparar para o fato de que desenvolvimentos democráticos são improváveis na Rússia no futuro previsível. Mas ainda assim precisamos de políticas que aproximem a Rússia e a Turquia à Europa. No Oriente Médio, precisamos chegar a um entendimento de que a Rússia preencheu o vácuo deixado pelos Estados Unidos. E em relação à China, precisamos de uma política europeia que limite a influência de Pequim.

Finalmente, há a Polônia. Em breve poderá ser levantada lá a pergunta sobre o que é mais importante? A permanência da Polônia na União Europeia ou o cumprimento dos princípios de Estado de Direito democrático? Pode não ser realista esperar ambos. Em uma situação como essa, poderia ser de interesse da Alemanha assegurar a permanência dos europeus orientais na UE, mesmo que não atendam a seus padrões em todos os valores.

A Alemanha terá de enfrentar esses conflitos no futuro, ao mesmo tempo tomando decisões que poderão ser decisivas. É um erro haver tão pouca discussão honesta a respeito deles. Precisamos ter debates mais acirrados, e devem ser tão acirrados quanto públicos. Em vez disso, a política alemã ainda está focada na ilusão de ser um potência moral. Se a Alemanha quiser liderar, então também precisará ter uma visão realista do mundo. A era de inocência na política externa acabou.