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17/06/2006
'Riqueza sempre é sinal de habilidade', diz Tom Zé

Miguel Mora
Em Lisboa


Ele acaba de lançar o disco "Estudando o Pagode: Segrega Mulher e Amor", uma opereta contra a segregação racial e sexual. Já prepara outro que servirá para comemorar em outubro seus inverossímeis 70 anos. E acaba de encerrar em Portugal uma turnê européia.

Magro como um caniço e gracioso como um menino, Tom Zé continua passeando pelo mundo a bandeira do tropicalismo em sua vertente mais experimental, irônica e irreverente, corrente da qual é o único membro e que o afastou do caminho da fama e do sucesso de seus principais companheiros de Tropicália, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

O músico e compositor de Irará (Bahia) apresentou em Lisboa, no Porto e em Faro o espetáculo Tropicália jacta est, em que explica "o abismo entre o período pré-Gutenberg e o pós-Gutenberg que nós mestiços da Bahia atravessamos", e recupera a essência brincalhona de suas velhas canções, que David Byrne compilou de maneira crucial em 1990, justamente quando Tom Zé estava prestes a se aposentar da música diante do fracasso obtido para começar a trabalhar num posto de gasolina de seu sobrinho.

O show ao vivo de Tom Zé, que na vida real está surdo como uma parede, é uma lição de ritmo, filosofia, história e poesia inspirada na máxima "antes morto que apocalíptico".

Em cena, ele fala mais que canta e até utiliza uma lousa para explicar melhor a arte antilivresca e gozadora do sertão. No final, o público levanta-se em bloco para aplaudi-lo. Certa noite, na Casa da Música do Porto, os jovens funcionários do teatro não foram embora enquanto não tiraram sua foto com o artista. Ou seja, Tom Zé cada dia se parece mais com Chano Lobato. Ou talvez a Bahia seja a Cádiz brasileira.

El País - O senhor já representou a opereta "Pagode"?

Tom Zé -
Não, embora os universitários tenham encenado meus discos antigos. A opereta é uma tentativa de criar um pouco de agitação para chamar a atenção dos jovens. Vi em uma pesquisa na MTV brasileira que eles estão cada vez menos solidários e mais egoístas. E que lêem cada vez menos e preferem as canções mais curtas. Está bem, eu disse. Se querem quadrinhos e canções de 30 segundos, não há problema: serei "ludositor" em vez de compositor.

EP - Como os artistas podem se adaptar a esse novo público?

Tom Zé -
Me parece que fazendo qualquer coisa, menos ser apocalípticos. Dizem que eu sempre evoco um Brasil desaparecido, do passado, me chamam de "passadista". Mas quanto mais velho eu fico mais jovem se torna meu público. Me colocaram o estigma de que canto para um público jovem. Quando um artista observa a realidade e depois a conta, não pode sair tão sombrio como quando um filósofo conta. Se as pessoas não abrem portas para certa esperança só resta uma nuvem negra. Estou fazendo um disco contra os apocalípticos para comemorar meus 70 anos.

EP - Mas acaba de sair o outro...

Tom Zé -
É a primeira vez que vou fazer dois seguidos em tão pouco tempo. Meus discos são sonhos sonoros que demoram muito para se materializar em algo que pareça música. Costumo demorar três anos, mas não penso no passado nem no futuro, só penso em transformar isso em matéria. Talvez por isso tenho um público tão minoritário, talvez na Europa maior que no Brasil, apesar de lá eu encher alguns teatros sem ter ido à televisão, o que é uma novidade.

EP - Como vão suas relações com Gilberto Gil e Caetano Veloso?

Tom Zé -
Eles não quiseram ser artistas ou estrelas, é que são gênios da música e de mover-se como estrelas pelo mundo, por isso agora têm outras atividades além da música. A energia atômica explode em cadeia. Eu ainda os amo, embora tenham mantido atitudes que não aprovo, tenho muita inveja deles: são estrelas. Gil sempre quis ser político. Eu lhe mando mensagens por correio, comentários sobre seu trabalho de ministro, sempre carinhosos.

Sempre há alguém disposto a soltar bombas contra este governo: a classe média e os artistas estão acostumados a mamar nas tetas do governo e todo mundo o ataca, é natural. Gil quer acabar com esses privilégios e está sendo crucificado. Coitado. Tentar arrumar esse país é muito complicado. Lula e o PT foram a grande esperança dos intelectuais, mas apareceu a corrupção e com ela apareceu o silêncio dos intelectuais. Ninguém diz nada. Os jornais estão desaparecendo.

EP - O senhor é mais livre que Gil e Veloso?

Tom Zé -
Eles são lindos, também devem ser livres. Talvez não opinem como eu, temos muitas diferenças... Mas eu não quero passar a vida pondo os pingos nos is. A generosidade é uma bela virtude.

EP - E o senhor continua fazendo música pensando no "cinturão da proteína", os milhões de pessoas do sertão que vivem em São Paulo e nunca provaram carne?

Tom Zé -
Eu não vivo em Marte... na minha educação, a ética foi muito importante. As conversas tratavam sobre isso. A riqueza sempre é sinal de habilidade, pelo menos comercial...

É verdade que agora no Brasil acontece uma coisa selvagem que na Europa acontece menos: os ricos de São Paulo vivem presos, seus filhos não podem sair da porta de casa. A metade dos pobres do Brasil está presa, a outra metade solta, mas todos os ricos estão presos. Monteiro Lobato, um escritor, disse que é bom ser preso porque aí você não tem medo de ser preso. (Risos)

EP - Como está o Brasil? Melhorou?

Tom Zé -
Sou um péssimo analista político, mas o povo e a classe média estão cada vez mais oprimidos pelos impostos e sofrendo uma grande redução do nível de vida. A Igreja continua fazendo das regiões mais pobres fábricas de desempregados, há famílias com 11 filhos e as favelas estão cheias de crianças que passam fome e necessidade. Tudo por causa da proibição da camisinha.

EP - Como é um dia seu?

Tom Zé -
Me levanto às 4 porque minhas musas têm um fuso horário diferente do do Brasil. Faço tai-chi, componho um pouco de música com o violoncelo, às 7 tomo o desjejum de iogurte e sopa de verduras, depois estudo até as 4, volto a almoçar, faço uma sesta espanhola, vou um pouco ao escritório de Neusa e depois para casa.

EP - Sente-se um artista?

Tom Zé -
Tenho uma coisa que me protege. Sou um analfabeto da música. Não sei se isso é bom ou não, porque é uma dessas coisas íntimas que a gente prefere não averiguar. Mas sei que estou fora de moda, sempre estou escutando música clássica. Para começar, tenho horror ao jazz. Apesar de já ter tocado um dia, antes de saber o que era, com um trompetista caolho.

EP - Acho que tudo isso é uma pose, uma espécie de poética de perdedor.

Tom Zé -
Meus discos têm a pretensão de ser bons e poéticos. Mas o mundo está cheio de jovens bonitos com boa voz e boa tecnologia. Eu não tenho boa voz, não componho bem, não canto bem, mas exijo de mim uma coisa: que os discos sejam bons, divertidos, interessantes. E me perdoe a audácia de dizer isso! Está bom assim? Mande muitas lembranças a Carlos Galilea e ao pessoal do Bar Zé de Madri, por favor.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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