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03/08/2006
A pista de dança do mundo

Manuel Cuéllar

Um brilho da luz estroboscópica revela que o couro do colete está estampado com o logotipo Louis Vuitton. As botas altas do jovem que o usa também são de couro e suas luvas vão até os cotovelos. Quatro dominadoras o acompanham.

Chicotes, taxas, plataformas. Maquiagem preta excessiva nos olhos. Correntes da grossura de uma corda penduradas do teto. Um enorme candelabro de cristal desafia a lei da gravidade suspenso sobre seus penteados vitorianos.

Os alto-falantes cospem a música de Body Rockers. Um DJ, um guitarrista e um cantor hipnotizam mais de mil pessoas com um novo estilo que se poderia chamar de rock-house. Bem-vindos ao clube Pachá de Ibiza, uma das discotecas de mais estilo numa ilha que a partir de hoje passa de 111.107 habitantes para mais de 2 milhões de turistas, até o final de agosto.

Um desembarque incrível para a chamada Ilha Branca. Mais de 14 km de largura e 42 de comprimento, com 72 praias nas quais a música não pára.
É a maior pista de dança e a mais apreciada do mundo. Fritz Pangratz dirige desde 1992 o clube Space, outra nave-mãe na badalação ibicenca. "Não existe uma concentração de clubes, DJs e tendências igual no mundo", afirma, com segurança germânica.

Pangratz pode gabar-se de que a Space foi eleita por dois anos consecutivos a melhor discoteca do mundo na Conferência Winter Music, a feira musical de todos os invernos em Miami. "Agora o dance e a eletrônica são mais conhecidos que dez anos atrás, e o setor se profissionalizou muito. Está muito mais especializado", afirma.

O pique musical de Ibiza chegou a tal ponto que até a filha do cantor
Mick Jagger organiza às sextas-feiras, também na Pachá, sua própria festa. Puro glamour e pura vanguarda. Jade Jagger se faz chamar de Jezebel como a dama de cerimônias dessa festa, na qual se podem ver personagens como a multimilionária e polêmica Paris Hilton ou o ator Kevin Spacey. Nesta noite o Global Room parece ter-se transferido para o Brooklyn ou o Bronx.

Bailarinos de hip-hop evoluem, contratados pela filhíssima, que declarou: "Ibiza tem uma base de house, mas as raízes melódicas da ilha estão no hippy-rock".

Quer dizer, a Ilha Branca quer evoluir para a superação do cliente de discoteca de aluvião, principalmente britânico, que pega um vôo barato com entrada numa discoteca incluída, faz a festa à base de consumir êxtase ou cocaína e volta para Manchester sem ter pisado num quarto de hotel. O paradigma dessa forma de entender Ibiza continua vivo em muitos dos mais de 20 clubes espalhados pela ilha.

O jornal britânico "The Independent" o chama de "ciclo clubber". Gente que vai às festas à noite, continua nos "after hours" de manhã e à tarde e recomeça a espiral na noite do dia seguinte. Fritz Pangratz explica: "É verdade que onde há uma massa de gente tão importante há problemas. Mas são problemas que nunca poderão ser resolvidos. Nem a própria prefeitura, nem a polícia, nem os hospitais estão preparados para um fenômeno assim".

O que não escapa a ninguém que esteja nesse negócio é que muitos de seus clientes agüentam marchas descomunais com ajuda química. Um porta-voz da seção de narcóticos da polícia afirma que em Ibiza "aumentou o consumo de 'speed' [droga baseada na anfetamina] provavelmente porque seu preço é menor que a grama de cocaína". Mas a droga-rainha continua sendo o êxtase e todos os seus derivados. Segundo esse chefe policial, em agosto de 2005 foram apreendidos mais de 33 mil comprimidos, e mais de 3.200 papelotes de MDMA, cristal e LSD".

Às 4:30 da manhã, cinco amigas de Londres se divertem alheias à parte sórdida da noite. Para elas tudo é luxo e esplendor num dos terraços privativos do Pachá. Um gorila de dimensões épicas e brinco na orelha cuida para que a despedida de solteira de Natalie não seja perturbada por nenhum desconhecido. Em um canto do terraço, numa mesa, há duas garrafas de champanhe francês, sucos e refrigerantes light.

Junto delas, uma menina com aspecto de gueixa, de biquíni, rebola dentro de uma taça gigantesca cheia de água, na qual se lê Moët & Chandon. Samantha, uma das amigas da futura noiva, conta que todas trabalham em investimentos bancários. Dizem isso com os narizes empinados que lhes permitem as sandálias Jimmy Choo, os vestidos de noite Miu Miu e acessórios Chanel, Dior e Prada esparramados por um dos sofás mais exclusivos da ilha.

Depois de pedir o cardápio e informação sobre os espaços privados da discoteca, descobre-se que a festa das tubaroas dos negócios chega a 1.500 euros. A Space é muito mais democrática. "Aqui não temos áreas privativas nem VIPs, como outros lugares", afirma uma relações-públicas do clube."Queremos que nossos clientes sintam que são todos iguais."

Mas em números a Space deixa os cabelos em pé. Ali trabalham 330 pessoas, pela discoteca passam durante toda a temporada de verão 350 mil pessoas e em qualquer dia normal conta com 50 mil watts de som e 70 mil de luz, distribuídos em cinco áreas diferentes.

Às 15 para as 11 da manhã de sábado, Johana, uma jovem espanhola de 24 anos, pede carona na estrada que liga a capital à praia d'En Bossa. "Trabalho na discoteca Amnesia e ontem à noite tivemos a sessão 'Made in Italy'. Agora vou à matinê da Space. É um problema ficar servindo bebidas a noite inteira e não poder participar da festa", afirma.

Para isso existe a matinê, que às 11, quando a garçonete chega, já está funcionando há três horas. O terraço de vidro da Space está lotado de público que pede ao DJ Iordee que dê mais pique aos pratos que manipula.

Os estilismos entram na categoria da normalidade. Mas também há os
impossíveis: minishorts com aquecedores, camisetas customizadas de gosto duvidoso, bolsas de cores berrantes... E muitos óculos de sol. A luz da manhã entra a rodo pelas janelas da Space. Muitos rapazes sem camiseta mostram os músculos enquanto os aviões sobrevoam o terraço a poucos metros de altura, a caminho do aeroporto.

Brasílio Deoliveira, aos 60 anos, é o promotor de uma das melhores festas que se fazem na Space. Ela acontece às quartas-feiras à noite e intitula-se Home of La Troya. É uma sessão eminentemente gay na qual uma drag-queen faz o papel de dama de cerimônia. Deoliveira afirma ter sido ele quem "trouxe a música para Ibiza", nos anos 70. Ele é uma instituição na ilha, pois abriu em 1978 a mítica discoteca KU.

"Nos anos 80 eu quis transformar esta ilha enchendo-a de música, trouxe mais de 200 grupos para a discoteca", afirma, e afloram nomes como Spandau Ballet, Duran Duran, Matt Bianco, James Brown, Five Young Cannibals, Alaska ou Mecano. Também foi ele quem trouxe a Ibiza a festa Manummision, que na origem era um circo de tons sexuais e uma festa da carne habitada por uma fauna de cabelos despenteados e leques. "Em Ibiza estão as melhores discotecas do mundo, e tem praias muito boas. É o melhor lugar para esquecer 11 meses de trabalho, e tudo é o resultado de 30 anos de trabalho na ilha da música."

Nos últimos cinco anos algo mudou na badalação ibicenca. Os clubes ingleses já não são os reis. Hoje milhares de clubbers adoram os deuses chamados DJs e há um hedonismo que se prolonga, sem tempo para dormir, durante três meses de verão.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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