UOL Mídia GlobalUOL Mídia Global
UOL BUSCA

RECEBA O BOLETIM
UOL MÍDIA GLOBAL


06/12/2006
Calcutá, levanta-te e anda

Georgina Higueras

Basta pôr os pés em Calcutá para perceber a mudança vivida pela cidade nos últimos anos. Símbolo da miséria lacerante que levou Madre Teresa a se transformar na mãe dos "pobres dos pobres" e fundar as Missionárias da Caridade, a capital do estado indiano de Bengala Ocidental vive um espetacular crescimento econômico, que devolveu a suas ruas sempre lotadas a prosperidade e a paixão do comércio, enquanto em suas periferias crescem parques tecnológicos e uma multidão de edifícios que abrigam a nova classe média.

<BR>EFE - 01.dez.06 
A Índia desperta dos anos que dormiu à sombra da desaparecida União Soviética

Orgulhosa de sua marcha à frente, Calcutá - primeira capital da jóia da coroa britânica (1757-1911) - foi rebatizada em 2000 com o nome da aldeia que lhe deu origem, e hoje chama-se Kolkata. Além do nome, pretende recuperar a grandeza que teve sob o domínio britânico e ser novamente o grande foco cultural e econômico do subcontinente asiático.

Sua sofisticação é tal que não quer que seus parques tecnológicos sejam confundidos com outros que proliferam pela Índia, cujo principal negócio são os centros telefônicos de atendimento a clientes de grandes companhias americanas, britânicas e canadenses, basicamente. A ambição de Kolkata é muito mais ampla. Pretende ser o núcleo do chamado Modelo Global de Subcontratação de Serviços (Global Service Delivery Model), pelo qual um banco, uma consultoria, uma agência de seguros e outras empresas em qualquer parte do mundo oferecem, com as garantias da companhia, um serviço aos clientes que será realizado na Índia.

"É como um carro. O que vale é a garantia Mercedes, e ninguém se importa se as rodas, os bancos ou os faróis foram fabricados em outro país", explica Roopen Roy, diretor em Kolkata da PricewaterhouseCoopers, com 3 mil funcionários na Índia, um terço dos quais trabalha na sede bengali. A firma de auditorias, que começou os serviços de tecnologia da informação na Índia em 1996, mantém um crescimento anual médio de 55%.

Já são 235 empresas de informática instaladas em Bengala Ocidental, entre as quais se destacam a IBM e as gigantes indianas da indústria de software Wipro e Tata Consultancy Services. A Infosys, terceira do país, está em negociações para estabelecer uma ampla sucursal em um dos 13 parques tecnológicos projetados, cuja construção deve terminar em dois anos.

A Índia desperta dos anos que dormiu à sombra da desaparecida URSS e, cortejada pelos EUA, que temem um crescimento descontrolado da influência chinesa na Ásia, abriu as comportas que a protegiam da concorrência externa para mergulhar na globalização. Os primeiros passos nesse caminho foram dados pela mão da tecnologia da informação, mas a necessidade urgente de criar postos de trabalho para seus mais de 1,1 bilhão de habitantes a levou a criar um generoso plano de infra-estruturas até 2010, no qual serão investidos 18 bilhões de euros. O plano, que pretende facilitar o fomento da indústria manufatureira, foi recebido com entusiasmo em Kolkata, que até a década de 70 foi a capital comercial da Índia.

Calcutá recebeu seu primeiro golpe com a transferência da capital para Nova Déli, mas conservou o controle econômico até depois da Segunda Guerra Mundial. A decadência veio com a independência do Império Britânico e a divisão em Índia e Paquistão (1947), que deixou do outro lado da fronteira as terras em que se cultivava a juta e, em Calcutá, toda uma indústria e um comércio sem matéria-prima para se abastecer. Além disso, centenas de milhares de refugiados de Bengala Oriental inundaram a cidade. A guerra de Bangladesh (1971) produziu uma nova enchente de miseráveis que, sem trabalho nem recursos, se instalaram nas ruas em um período em que a cidade fervia de greves e protestos por causa dos milhares de operários vítimas do fechamento maciço de fábricas.

Os profissionais emigraram; as empresas também. A greve geral era quase permanente. Calcutá se transformou num inferno, o símbolo do lado mais obscuro da humanidade, cujas únicas luzes vinham do exército de voluntários, com madre Teresa à sua frente, que tentavam distribuir comida, consolo e abrigo, e que inspiraram a Dominique Lapierre seu famoso livro "A Cidade da Alegria".

Governada desde 1977 pelo Partido Comunista da Índia (marxista), Calcutá chegou esgotada ao início da última década, quando o governo central decidiu abrir as portas da protegida economia indiana. Ninguém acreditou então que essa lufada de ar fresco pudesse acabar com os odores nauseabundos da putrefação que infectava as ruas de Calcutá. Mas em menos de uma década o nível de vida em Bengala Ocidental passou do 26º dos 29 estados da União Indiana para o terceiro.

"Somos comunistas, mas não loucos. O comunismo mudou em todo o mundo, e é claro que nas circunstâncias atuais e em meio a um ambiente capitalista é melhor ser pragmático e realista." Quem fala assim é o chefe do governo de Bengala Ocidental. Aos 62 anos, apesar de não gostar dos flashes dos fotógrafos, Buddhadeb Bhattacharjee se transformou em uma das estrelas da política indiana e em um dos dirigentes mais cotados da Ásia.

Tem uma fama merecida: eleito pela primeira vez em 2000 e reeleito em maio passado por uma maioria arrasadora, Bhattacharjee empenhou-se em revitalizar a economia do estado, promover o desenvolvimento da indústria manufatureira e de alta tecnologia e recuperar os cérebros que emigraram na época negra.

"No passado foram cometidos sérios erros. Foi o caos. Agora queremos alcançar a harmonia e mudar essa imagem estereotipada que tanto prejuízo causou a Kolkata", salienta o líder comunista, em que muitos vêem o Deng Xiaoping da transformação de Bengala Ocidental.
Para atrair investidores e convencê-los do novo clima empresarial, ele proibiu as greves de funcionários do setor tecnológico e liberou de impostos o investimento estrangeiro. A oposição no Lok Sabha (Parlamento central) o acusa de "fazer economia em Kolkata e política em Nova Déli", onde o Partido do Congresso lidera a coalizão governamental integrada por seu partido.

Bengala Ocidental é o único estado da Índia onde os comunistas realizaram uma reforma agrária que acabou com os latifúndios e redistribuiu as terras entre o campesinato, que representa 72% dos 80 milhões de bengaleses. Mas Bhattacharjee não vacila quando, visando a nova industrialização, confisca terras de cultivo para estabelecer parques tecnológicos e dar terrenos às companhias que decidiram se instalar na região.

De pouco serviram os meses de protestos de mais de 15 mil agricultores, meeiros não-registrados, trabalhadores da indústria artesanal e pequenos comerciantes que vivem em Singur, na margem esquerda do rio Hugli, obrigados a aceitar uma simples indenização em troca de suas plantações e suas casas para a construção pela Tata Motors de uma fábrica de pequenos utilitários, carros de custo muito baixo - cerca de 3.500 euros - com os quais o primeiro conglomerado industrial do país pretende revolucionar o mercado indiano.

Vestindo um "salwar kamiz" (calças frouxas e camisa quase até os joelhos) de algodão branco, Bhattacharjee revela, numa sala austera vizinha a seu escritório, seus desejos de acabar com a imagem de violência sindical que Kolkata adquiriu. Para esse comunista pragmático, que se diz "um homem de consenso", o importante é aproveitar o momento, e "na atualidade o capitalismo está ganhando". Embora afirme que o capitalismo é o caminho, e que a meta é a alternativa de esquerda.

Professor de filosofia e tradutor do inglês para o bengali de poemas de Federico García Lorca e romances de Gabriel García Márquez, o primeiro-ministro de Bengala Ocidental não é só um político incomum - foge de recepções e comemorações públicas -, mas, sobretudo um comunista atípico, que louva a produtividade - "sem ela não há crescimento" - e afirma que "a distribuição da riqueza não é a prioridade".

A vitória arrasadora nas eleições de maio, quando depois de 29 anos de governo os comunistas conseguiram 235 dos 293 lugares no Parlamento de Bengala Ocidental, reforçou o humor de seus seguidores, que contam que a indústria bengali do futuro será a turística, porque "dentro de alguns anos, quando o comunismo tiver desaparecido de Cuba, China e Coréia do Norte, milhões de curiosos de todo o mundo virão a Kolkata ver como são os comunistas".

Um passeio pela rua Park, uma das mais comerciais, revela a que ponto a distribuição da riqueza deixou de importar. O luxo e o design europeu aparecem em muitas de suas vitrines. Cafés como o Fiuris são os lugares da moda dos novos ricos e da emergente classe média.

Ninguém duvida de que a Índia trocou as pilhas, e menos ainda S. B. Ganguly, presidente da Exide, maior fabricante de baterias do país, uma empresa fundada em 1945 pelos colonizadores britânicos, que conservam 55% de seu capital. Com nove fábricas espalhadas pela Índia, duas delas em Bengala Ocidental, Ganguly afirma que na última década a empresa teve um crescimento médio anual de 20%, e ele mesmo se surpreende de como depois dos conflitos trabalhistas dos anos 70 e 80 "os operários agora tentam recuperar o tempo perdido e se sentam à mesa para negociar".

Sumit Mazumder, diretor-geral da TIL, empresa dedicada à importação de maquinário pesado para alugá-lo a construtoras privadas e públicas, afirma que o forte impulso nas infra-estruturas fez sua companhia crescer 30% ao ano desde 2002. E, o que é mais significativo, multiplicou por oito o valor de suas ações na Bolsa. Ele atribui boa parte do sucesso à redução dos impostos de importação, de 150% em 1992 para os atuais 15%.

Porém, quando se atravessa a ponte sobre o rio Hugli para entrar em Howrah, bairro que Lapierre batizou de Cidade da Alegria, a pobreza continua sendo o denominador comum de seus milhões de habitantes. Empregos precários, salários mínimos e uma economia de sobrevivência para a imensa maioria, que continua sem se beneficiar do crescimento econômico do país.

"Pedi a uma ONG indiana que fizesse a seleção das 30 meninas com graves problemas familiares que atendemos no projeto Anand Bhavan. Eu teria selecionado milhares", afirma Antonio Mesas, presidente da ONG espanhola Un Ladrillo en Calcuta, que abriu em Howrah uma casa para que 30 indigentes vivam e estudem. Ele está há quatro anos como voluntário em Calcutá.

"Se a Índia hoje está rica, aqui não se nota. Aqui não muda nada", afirma Teresa Volpato, enfermeira italiana de 70 anos que há dez trabalha como voluntária em Kalighat, a Casa dos Moribundos, primeira instituição fundada por Madre Teresa de Calcutá, para dar uma morte digna aos que tinham vivido uma vida indigna. Kalighat tem uma sala para homens e outra para mulheres, cada uma com 50 camas, mas sempre há mais de 60 pessoas. Trata-se de indigentes aos quais uma doença, um acidente ou a fome deixam à beira da morte, e seus conhecidos, ou os que os encontram nessas circunstâncias, informam às Missionárias da Caridade para que os recolham. Volpato reconhece, porém, que há uma mudança na atitude das pessoas: "Antes os ricos não se incomodavam em vir aqui, e agora vêm, se emocionam, e principalmente os homens choram."

Na rua Sudder, onde se hospedam em pensões pequenas e humildes a maioria dos voluntários de todo o mundo que vêm a Kolkata - no último verão havia cerca de 300 espanhóis que trabalharam entre um dia e um mês em tarefas de apoio aos indigentes -, nota-se a mudança na maior limpeza e na diminuição do batalhão de mendigos. Mas nas oficinas desse bairro central, de maioria muçulmana, apesar da proibição legal, a maioria dos trabalhadores é de meninos entre 8 e 12 anos.

Embalado pelo investimento externo, o governo acredita que esse é o caminho para tirar da miséria os 30% da população que ainda vivem com menos de 1 euro por dia.

Em Bengala está o maior projeto indiano com financiamento externo: 302 milhões de euros. Trata-se de uma fábrica da Mitsubishi Chemicals para produzir PTA (material com que se fabrica o plástico), estabelecida em 1997.

O mais interessante é que a empresa japonesa decidiu duplicar o investimento até 2008. "É um exemplo do muito que se pode fazer", diz o chefe de governo comunista, que não deixa de convidar as empresas espanholas para que invistam em biotecnologia, hotelaria ou couro.

Globalização transformadora

O frenesi de Calcutá, suas ruas largas repletas de pessoas, seus incríveis contrastes, a beleza de sua arquitetura colonial e a cultura profundamente bengali que impregna a cidade correm perigo de extinção. Surgida a poucos quilômetros da foz do rio Ganges - o rio sagrado dos hindus -, do espírito comercial da antiga Companhia das Índias Orientais, o caráter indômito de Calcutá esmaece sob a influência da globalização. A musa hospitaleira de hindus, muçulmanos e cristãos, que inspirou tantos escritores - um dos livros mais recentes é o de Ana M. Briongos, "Esto es Calcuta!" - desaparece em sua apressada imersão no século 21.

O crescimento econômico da última década - acima da média anual nacional: 8% contra 6% - se traduziu em uma fúria da construção. O destaque são os centros comerciais. Kolkata foi infectada pela grande invenção americana que se estendeu como uma praga pelo mundo e mudou a fisionomia das cidades.

"Assistimos à vulgarização da cultura. A cidade muda para perder sua alma e deixa-se povoar pelos mesmos edifícios de vidro ou metal promovidos pelos filmes de Hollywood e Bollywood (a indústria de cinema indiana)", afirma o poeta e romancista Nabarun Bhattacharya.

Alimentado culturalmente pela megalópole que oficialmente tem 9 milhões de habitantes e na realidade cerca de 12 milhões, Bhattacharya, 58 anos, afirma que os únicos beneficiários da mudança de rumo da política do governo comunista bengali são os oportunistas e os novos ricos.

Mas Dibyajyoti, vice-presidente do Instituto de Cultura da Fundação Ramakrishna, considera que a melhora do nível de vida representou "um importante impulso para a Feira do Livro de Calcutá", a mais importante da Índia, e para a literatura em inglês, embora reconheça certo abandono das obras escritas em bengali, assim como sucede com as muitas outras línguas vernáculas indianas. A pintura, por sua vez, experimenta um apogeu considerável, tanto em estilos quanto em preços. Entre os artistas mais cotados está Sunil Das. Os galeristas, entretanto, apuram a vista e procuram novos talentos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

ÍNDICE DE NOTÍCIAS  IMPRIMIR  ENVIE POR E-MAIL

Folha Online
Reforma visual da Folha facilita a leitura; conheça as mudanças
UOL Esporte
Após fiasco de público, CBF reduz preços de ingressos para partida
UOL Economia
Bovespa reduz ritmo de perdas
perto do fim dos negócios

UOL Tecnologia
Fãs do iPhone promovem encontro no Brasil; veja mais
UOL Notícias
Chuvas deixam quatro mortos e afetam mais de 4 mil no Paraná
UOL Vestibular
Cotista tem nota parecida com de não-cotista aponta Unifesp
UOL Televisão
Nova novela da Record terá máfia e Gabriel Braga Nunes como protagonista
UOL Música
Radiohead entra em estúdio para trabalhar em disco novo
UOL Diversão & Arte
Escritor indiano Aravind Adiga ganha o Booker Prize
UOL Cinema
Novo filme dos irmãos
Coen tem maior bilheteria nos EUA





Shopping UOL

Gravadores Externosde DVD a partir
de R$ 255,00
Câmera Sony6MP a partir
de R$ 498,00
TVs 29 polegadas:Encontre modelos
a partir de R$ 699