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01/02/2007
Os amores públicos de Berlusconi

Enric González
em Roma


Silvio Berlusconi divide a Itália. A metade do país o adora. A outra metade o detesta e defende incondicionalmente sua esposa. As duas Itálias assistiram na quarta-feira, entre estupefatas e apaixonadas, a uma briga conjugal pública e terrível. Verónica Lario, a mulher de Berlusconi, exigiu de seu marido "desculpas públicas" pela primeira página do jornal "La Repubblica", o menos 'berlusconiano' dos diários, por tê-la ofendido flertando com uma deputada do Forza Italia. Il Cavaliere demorou algumas horas, mas reagiu. E pediu perdão de forma pública, em uma carta aberta na qual reconhece que o casamento atravessa "um período problemático".

Alessandro Bianchi/Reuters - Arquivo 
Verónica Lario se sentiu ofendida, e Silvio Berlusconi pediu perdão publicamente

Verónica Lario, nome artístico de Miriam Bartolini, é a segunda mulher de Berlusconi e, até onde se sabe, o único elemento discreto na vida desregrada do ex-primeiro-ministro italiano. Não costuma participar de atos oficiais, não costuma aparecer na imprensa - embora sejam conhecidas suas tendências progressistas -, não o acompanha nos fins de semana na Sardenha e não costuma queixar-se. Calou-se inclusive quando seu marido, em uma entrevista coletiva, brincou sobre um suposto namoro entre a própria Verónica e Massimo Cacciari, prefeito de Veneza e filósofo de esquerda. Por isso criou comoção a capa publicada nesta quarta-feira (31/1) por "La Repubblica", tradicionalmente hostil a Berlusconi: "Verónica Lario: 'Meu marido me deve desculpas públicas'" era a manchete.

Os antecedentes eram bem conhecidos do público. Berlusconi chegou ao jantar dos Telegatti [prêmios televisivos concedidos no último sábado] à 1h da manhã em um estado próximo da euforia. Às 2h, prodigalizava piadas e propostas de casamento. Às 3h ofereceu-se como letrista ao cantor Zucchero. Às 4h proclamou que Gianfranco Fini seria seu sucessor como líder da centro-direita. Isto foi cuidadosamente desmentido por seus porta-vozes na manhã seguinte. O enésimo show de Berlusconi ocupou amplo espaço na imprensa.

Não tanto quanto a carta de Verónica. Poucas cartas à redação merecem tanto alarde tipográfico. Neste caso, justificado. "Com dificuldade supero a reserva que caracterizou meu modo de ser durante os 27 anos transcorridos junto de um homem público, primeiro empresário e depois político ilustre, como o meu marido. Considerei que meu papel deve se circunscrever principalmente à esfera privada, com o objetivo de dar serenidade e equilíbrio a minha família. Enfrentei com respeito e discrição as inevitáveis discussões e os momentos dolorosos que fazem parte de uma longa relação conjugal. Agora escrevo para expressar minha reação diante das afirmações feitas por meu marido durante o jantar de gala que se seguiu à entrega dos Telegatti, no qual, dirigindo-se a algumas das senhoras presentes, entregou-se a considerações para mim inaceitáveis: '... se eu não estivesse casado me casaria com você imediatamente', 'com você iria a qualquer lugar'."

"São afirmações", continua a carta, "que considero lesivas a minha dignidade, afirmações que pela idade, o papel político e social e o contexto familiar (dois filhos de um primeiro casamento e três do segundo) da pessoa da qual procedem não podem ser consideradas simples comentários jocosos. De meu marido e do homem público, exijo, portanto, desculpas públicas, não havendo-as recebido em privado. (...) Na relação com meu marido escolhi não deixar espaço para o conflito conjugal, mesmo quando seu comportamento criou condições para isso. (...) Sempre levei em conta as conseqüências que minhas possíveis reações poderiam gerar na dimensão extrafamiliar de meu marido e em meus filhos. Esta linha de conduta encontra um único limite, o da dignidade de uma mulher que deve constituir um exemplo para seus filhos. (...) Diante de minhas filhas, hoje adultas, o exemplo de uma mulher capaz de defender sua dignidade diante dos homens assume uma importância particular. (...) Creio que a defesa de minha dignidade ajudará meu filho a situar entre seus valores fundamentais o respeito às mulheres, de forma que possa manter com elas relações saudáveis e equilibradas."

Na metade da manhã os telefones celulares soltavam fumaça. Uma mensagem circulava por todo o país: "Verónica é grande". Também lançava fumaça a página da Forza Italia na Internet. Diversas admiradoras de Berlusconi acusaram "La Repubblica" de ter inventado a carta. Depois, quando não era mais possível duvidar, chamaram Verónica de tudo. Nos corredores da Câmara dos Deputados, onde se discutia exatamente o projeto de lei sobre casais de fato, não se falava em outra coisa. O prefeito de Veneza, Massimo Cacciari, de reconhecida amizade com Verónica, comentou que a "belíssima carta" não deveria ter sido publicada, mas acrescentou que era "evidente" que o casamento dos Berlusconi estava "roto".

O epicentro da tormenta matrimonial se encontrava exatamente na Forza Italia. Porque a frase de Berlusconi que mais incomodou Verónica, "me casaria com você imediatamente", foi dirigida a Mara Carfagna, antiga "velina" (moças que enfeitam quase todos os programas da televisão italiana) e atual deputada do Forza Italia. Algumas deputadas do partido assumiram o lado da esposa e aproveitaram para se queixar da abundância de antigas "veline" no grupo parlamentar. A crise matrimonial ameaçava se transformar em crise política.

Era preciso intervir, e Berlusconi o fez. Na primeira hora da tarde, enviou sua própria carta às agências de notícias: "Querida Verónica, aqui estão minhas desculpas. Era reticente em privado porque sou brincalhão, mas também orgulhoso. Desafiado em público, a tentação de ceder é forte. E não resisto a ela. Estamos juntos há uma vida. Temos três filhos maravilhosos que você preparou para a vida com a atenção e o rigor amoroso próprios da esplêndida pessoa que é e sempre foi, desde o dia em que nos conhecemos e nos apaixonamos. Fizemos juntos mais coisas do que estamos dispostos a reconhecer em um período de problemas e turbulências. Esta fase terminará, e terminará docemente, como todas as histórias autênticas. Meus dias são uma loucura, você sabe. O trabalho, a política, os problemas, os deslocamentos, os exames públicos que não terminam nunca, uma vida sob pressão constante. (...) Tudo isso abre espaço para as pequenas irresponsabilidades de um caráter jocoso, auto-irônico e muitas vezes irreverente. Mas sua dignidade não tem nada a ver, protejo-a como um bem precioso inclusive quando de minha boca saem frases irrefletidas. (...) Não, acredite-me, não fiz propostas de casamento. Desculpe-me, portanto, e lhe suplico que aceite este testemunho público de um orgulho privado que cede diante de sua cólera com um ato de amor. Um dentre tantos. Um grande beijo, Silvio."

Verónica Lario não quis comentar a carta de seu marido.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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