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16/03/2007
Doença insidiosa é causada por contato com aves

Joan Carles Ambrojo
em Barcelona


Ter um periquito, uma pomba ou um papagaio na sala pode ser um risco para a saúde de algumas pessoas. O contato prolongado com esses ou outros animais pode provocar em certas pessoas pneumonia por hipersensibilidade às aves, uma doença respiratória produzida ao inalar repetidamente o pó orgânico deixado pelas penas e a limpeza dos excrementos.

Carme Ruiz, 67 anos, não suspeitava que no dia em que começou a acolher pombas inválidas colocou um inimigo dentro de sua casa em Barcelona. Quando diagnosticaram sua doença, há 15 anos, fazia algum tempo que tinha resfriados e uma pneumonia leve. Pensou que fosse a idade o motivo de não poder mais alcançar o fundo do mar em seus mergulhos. Os primeiros sintomas da pneumonia apareceram quando trabalhava em uma granja. Depois, em uma loja de móveis, tiveram que tirar as almofadas de plumas. Agora trata sua fibrose pulmonar com cortisona, evita visitar amigos com pássaros e das aventuras marítimas só restam as recordações fotográficas.

A pneumonia por hipersensibilidade às aves é uma doença de tipo imunológico. Certos pássaros eliminam proteínas do soro através do trato digestivo e das penas em forma de um pó muito fino, abundante em certas temporadas. Ao limpar a gaiola ou o pombal, o tratador inala essas proteínas, que entram no circuito respiratório e causam a reação.

Em geral o quadro inicial é pouco grave. A forma aguda da doença aparece em pessoas que estão em contato com muitas aves: provoca febre, tosse, certa pressão pré-torácica e em alguns casos expectoração. Alguns pacientes podem sofrer uma crise hiperaguda e exigir o internamento em UTI com um quadro de insuficiência respiratória.

O doente costuma melhorar e curar-se sozinho ao se afastar da ave. Não fazê-lo pode ser muito perigoso. Um estudo realizado pelo Serviço de Pneumologia do Hospital Vall d'Hebron de Barcelona com 86 doentes de pneumonia por hipersensibilidade às aves atendidos nos últimos 30 anos indica que 38% desses pacientes evoluem para uma forma crônica e desenvolve doença pulmonar obstrutiva crônica e inclusive fibrose pulmonar, ambas irreversíveis, explica Ferran Morell, chefe do serviço.

Mas não é preciso alarmar-se: a prevalência e incidência da pneumonia por hipersensibilidade é baixa. Muito poucas pessoas têm essa predisposição e se desconhecem os genes causadores, embora também seja uma enfermidade profissional que costuma ocorrer entre os que têm contato com gesso nas construções, os granjeiros ou os trabalhadores da cortiça, que também aspiram partículas orgânicas.

Ramazzini di Carpi já descreveu em 1713 a primeira relação entre a inalação de pequenas partículas orgânicas e a doença nos tratadores de gado. Em 1932, Campbell descreve esse processo no pulmão do granjeiro e, em 1962, Charles E. Reed a descreve nos tratadores de pombos.

Qualquer ave é potencialmente prejudicial? Foram descritos casos por contato com pombos, periquitos, canários, louros, inclusive com patos e cegonhas empalhadas; muito poucas vezes por contato com galinhas e frangos e só em alguma ocasião se adoeceu por dormir com travesseiros ou edredons de plumas.

A maior freqüência de casos diagnosticados ocorre entre os criadores de pombos, "mas apesar de adquirir a doença eles demoram muito para abandonar esse hobbie", acrescenta Morell. "Alguns doentes continuam em contato com as aves e paradoxalmente não pioram; também se comprovou que a doença ocorre menos nos fumantes, embora se ignore o motivo."

Segundo um estudo do Hospital Vall d'Hebron, os pacientes passaram em média 9,9 anos de exposição às aves antes de adoecer. Além disso, o período de latência (desde o primeiro contato até que começam os sintomas) é de 8,7 anos em média e a demora do diagnóstico desde o início dos sintomas é de 1,6 ano. Essa enfermidade tem um diagnóstico tardio "porque os sintomas não são imediatos, como as alergias ou a asma, mas começam entre quatro e 12 horas depois do contato com o pássaro."

O diagnóstico é confirmado por meio de testes cutâneos com um extrato do soro da ave em questão e um estudo da resposta imunológica à ave, radiografia e tomografia torácica, broncofibroscopia com estudo da inflamação local, testes de função pulmonar e finalmente um teste em que os pacientes inalam soro da ave para comprovar se os sintomas se reproduzem e diminui a capacidade respiratória. "O que mais surpreende ao examinar os dados do estudo é que durante dez ou 15 anos de doença 30% dos pacientes evoluíram para a fase crônica, alguns deles chegaram à insuficiência respiratória e três tiveram de sofrer transplante de pulmão."

A forma subaguda da doença é a mais traiçoeira e ocorre em pessoas que têm em casa só um ou dois periquitos. Nesses indivíduos a doença se manifesta lentamente: começam a emagrecer, tossem um pouco, têm mal-estar geral e encontram-se fracos. "Muitas vezes, quando diagnosticamos no hospital, a capacidade respiratória já diminuiu para 60% e estão em fase subaguda crônica. Entre o início dos sintomas e o diagnóstico concreto podem ter passado entre um e dez anos."

Recentemente se observou que muitas fibroses pulmonares que eram consideradas de origem desconhecida são na realidade provocadas por contato com aves, mas os sintomas não apresentam diferenças clínicas que possam alertar sobre essa possível origem.

Pombais em julgamento

Rosalina Adrián Palenque, uma mulher de 75 anos que vive em Barcelona, sempre ouvia a mesma coisa dos pneumologistas: "A senhora tem pássaros em casa?" Ela nunca tivera animais de estimação. "Eu tossia sem estar resfriada: ria e tossia; falava demais e tossia", conta Rosalina. Em 1995 apareceram os primeiros sintomas da pneumonia por hipersensibilidade. Por quê? Há cinco anos encontraram a resposta: "No edifício em frente há dois pombais", ela disse aos médicos. Calcula que esteve em contato com as aves desde antes dos Jogos Olímpicos de Barcelona. Rosalina já não consegue subir escadas e enquanto se resolve a denúncia que apresentou à prefeitura, escapa do foco fatal vários meses por ano viajando para sua terra natal.

Algo parecido aconteceu com Santa López García, uma telefonista de 48 anos. Essa mulher foi obrigada a alugar um apartamento. Viver na casa familiar, que sua filha herdou, a mataria. Seu calvário começou há quatro anos, quando apareceram os primeiros sintomas de cansaço e falta de ar. Atribuiu à fibromialgia de que sofre. Sua situação se agravou tanto que não tinha forças nem para subir ao quarto. No hospital de Vall d'Hebron diagnosticaram sua pneumonia por hipersensibilidade, depois de conviver durante 15 anos ao lado do pombal do vizinho. O controle ambiental realizado em sua casa confirmou a relação de causa e efeito: os níveis de aeroalergenos de pombo superavam dez vezes os habituais em uma cidade. Os médicos foram taxativos: "Não espere amanhã para sair de casa porque se continuar em contato com esses pombos não sairá viva."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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