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21/04/2007
Quimeras para curar doenças

Javier Sampedro

Apesar de sua lenda negra, as quimeras - seres híbridos de animal e humano - são uma valiosa ferramenta da pesquisa biomédica. Esses monstros mitológicos estão há muito tempo entre suas ferramentas mais úteis. São, por exemplo, as linhagens celulares híbridas das quais se obtêm anticorpos monoclonais, como o trastuzumab (Herceptin) utilizado no tratamento de câncer de mama, ou os ratos com neurônios humanos que são usados em pesquisas de terapias contra o mal de Parkinson.

George W. Bush disse no ano passado em seu discurso sobre o Estado da União: "Hoje lhes peço que legislem para proibir os mais atrozes abusos da pesquisa médica: a clonagem humana em todas as suas formas, criar ou implantar embriões com fins experimentais e criar híbridos de animal e humano".

Da lista de pecados capitais do presidente americano, o de "criar híbridos de animal e humano" provavelmente provocaria a adesão de qualquer pessoa sensata. Mas os pesquisadores biomédicos o são, e não compartilham esse ponto de vista. Alguns, como o neurobiólogo Paul Myers, da Universidade de Minnesota em Morris, sentiram-se extremamente ofendidos pelas palavras do presidente: "Ele quer que todo mundo pense que está proibindo um crime monstruoso contra a natureza. E contra o que está arremetendo são os frágeis e os doentes, asfixiando vias de pesquisa úteis criadas especificamente para que nos ajudem a entender a doença humana".

Myers citou o exemplo da síndrome de Down, causada pelo excesso de doses do cromossomo 21 ou de uma parte dele. A síndrome é muito complexa e inclui defeitos cardíacos e deficiências do sistema imunológico que é necessário compreender a fundo para buscar formas de melhorar a qualidade de vida dessas pessoas. "Gostaríamos muito de ter um modelo animal da síndrome de Down", afirma Myers, "para que pudéssemos saber exatamente que dose excessiva de quais genes causa os problemas no sistema imunológico, e quais no coração, e desenvolver melhores tratamentos para eles."

Os pesquisadores, de fato, já estão se aproximando desse objetivo. No ano passado inseriram um cromossomo 21 completo em células-mães embrionárias de rato e usaram essas células para clonar ratos. Os animais resultantes são aneuplóides (têm um número anormal de cromossomos). E também são quimeras, porque um de seus cromossomos é humano.

Mas podem ser uma valiosa ferramenta de pesquisa, porque têm muitos dos sintomas da síndrome de Down, incluindo os defeitos cardíacos e uma série de problemas de aprendizagem espacial e memorização. Graças a esses "atrozes abusos da pesquisa médica", os cientistas conseguiram identificar alguns mecanismos neurais específicos responsáveis pela síndrome, como a "potencialização em longo prazo" das conexões sinápticas.

Poucas coisas terão uma repercussão tão ruim quanto as quimeras. Desde os minotauros e basiliscos da mitologia clássica até os monstros e soldados-gorilas da fantasia moderna, as quimeras funcionaram como ilustração perfeita da perversão - divina ou científica - e delimitaram na imaginação coletiva a última fronteira moral que jamais deveria ser cruzada.

Mas os pesquisadores em biologia não vêem nada de estranho nas quimeras: esses monstros mitológicos estão há muito tempo entre suas mais úteis ferramentas. Os hibridomas são as linhagens celulares híbridas de humano e rato que os cientistas utilizam para gerar anticorpos monoclonais. Meia dúzia desses anticorpos, como o trastuzumab (Herceptin) e o rituximab, são utilizados como tratamento contra o câncer de mama metastático, certos linfomas, a artrite reumatóide e a doença de Crohn, e também para prevenir a coagulação durante cirurgias e evitar a rejeição dos transplantes de rins.

E os hibridomas não só são quimeras em si, como também necessitam de quimeras para gerar-se. Os anticorpos monoclonais são proteínas híbridas de humano e rato, e por isso podem produzir reações alérgicas nos pacientes.

Para evitá-las, os cientistas utilizam hoje ratos humanizados como fonte de células. São animais cujos genes do sistema imunológico foram substituídos em maior ou menor medida pelos genes humanos correspondentes: outro desses "atrozes abusos da pesquisa médica".

A pesquisa com células-mães abriu um grande campo de possibilidades para outro tipo de híbridos: os obtidos injetando células-mães humanas em embriões de ratos e outros animais de laboratório. Cientistas como o neurobiólogo Fred Gage, do Instituto Salk em La Jolla, Califórnia, estão convencidos de que esses experimentos são ótimos para aprender a manejar células-mães humanas com vistas a seu futuro uso em medicina degenerativa.

Gage já construiu ratos que têm neurônios humanos integrados em seu cérebro e funcionando nas rotas normais de processamento da informação no rato. Seu objetivo final é buscar tratamentos contra o Parkinson e outras doenças neurodegenerativas.

Apesar da lenda negra, as quimeras são uma valiosa ferramenta da pesquisa biomédica. Valiosa demais para renunciar a ela por causa de uma lenda.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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