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28/04/2007
Muito além do carnaval

Carlos Galilea
Em Madri


Centenas de milhares de pessoas dançaram atrás dele pela Castellana de Madri ou no Paseo de Gracia de Barcelona, e sua canção "Mariacaipirinha" tocou até a exaustão; estrelou a campanha publicitária de um refrigerante e foi visto num programa de Los Lunnis. Antes tinha gravado "Tribalistas", junto com seus amigos Marisa Monte e Arnaldo Antunes, e Fernando Trueba filmou seu habitat e seu compromisso com os mais pobres em "El Milagro del Candeal".

EFE 
Em novo disco, Carlilnhos Brown mistura percussão com música eletrônica

Agora Carlinhos Brown volta com "A Gente Ainda não Sonhou", um disco que mostra seu talento criativo - "gostaria que as pessoas percebessem que não sou só um músico de carnaval" - e vários concertos na Espanha, começando por Madri em 8 de maio e em outras cidades até 2 de junho. O novo disco é publicado dez anos depois do extraordinário "Alfagametizado".

"Carlito Marrom teve de fazê-lo a toda pressa, mas neste caso tive quase um ano e meio para trabalhar", ele conta por telefone de sua casa na Bahia. Foi gravado na Ilha dos Sapos, o estúdio de Carlinhos Brown pelo qual já passaram Björk, Manolo García, Ricky Martin ou William. Ele compõe, produz, dirige o desenho gráfico e toca um sem-fim de instrumentos.

Brown, que como Obelix parece ter caído quando pequeno no caldeirão da poção mágica - na realidade caiu em um poço e quase morreu afogado -, tem idéias brilhantes e encontra soluções sonoras deslumbrantes que o conectam de forma intuitiva e genial à música contemporânea. Quando vendia sorvetes na porta dos colégios, tocava percussão com a caixa de isopor e as borrachas que serviam para fechá-la.

"A criatividade musical não pode ser reduzida a um CD ou à Internet. Temos de usar o dom das ferramentas artísticas como um objeto único de comunicação e auto-estima em tempos de desesperança. John Lennon decretou que o sonho tinha acabado, mas estava falando do sonho dele, o de sua geração. Em nosso século ainda não sonhamos. Às vezes você precisa até perder algumas coisas para recomeçar. Há um anúncio do Greenpeace muito sensato: 'Sua geração quis mudar o mundo e conseguiu: vocês mudaram o clima", ele diz, rindo.

Recebeu um prêmio da Unesco por sua ação social no Candeal, o bairro pobre de Salvador onde nasceu. E em fevereiro de 2005 os príncipes de Astúrias depositaram a primeira pedra da creche que hoje recebe 280 crianças. "Não conseguimos salvar todos os que se afogavam, mas este sim", disse quem afirmou um dia que veio da merda, da engrenagem podre do Brasil, e prometeu que não seria ladrão nem corrupto.

Há algumas semanas inaugurou em Salvador o Museu do Ritmo, no espaço cultural na parte baixa da cidade que abrigará uma sala de concertos, um museu... "Um lugar para conservar a memória, porque o Brasil não se interessa por sua história. Quero que as pessoas vejam que vale a pena lutar pela cultura", explica. Entre as peças está a guitarra assinada que James Brown lhe enviou. Mas Antônio Carlos Santos de Freitas (nascido em Salvador em 1962) não adotou o apelido de Brown por causa do cantor, como se repete erroneamente, e sim por causa de Henry Box Brown, um escravo do sul dos EUA que fugiu para a Filadélfia dentro de uma caixa de madeira e lutou pela abolição da escravidão.

Carlinhos Brown pintou em um ano mais de 200 quadros. "Meu pai era pintor de casas e eu tentava pintar as paredes de cores, mas não me deixava. Quarenta anos depois, vejo que é um dom que tinha abandonado", explica. Suas telas despertaram o interesse de um importante negociante de Nova York. "Quando pinto, minha alma sai e suo mais que cantando. Amo a pintura e quero pintar. Paul Klee escreveu que todo mundo pode ver o passado, mas só os grandes criadores, o futuro. Pintar melhorou muito minha escritura. Parece-me que os pintores escrevem melhor que os escritores. Eu, pelo menos, os entendo melhor", diz, rindo.

O novo cubano mágico

O pianista Roberto Fonseca, amante do funk, do soul, do pop e dos clássicos, edita um disco com Omara Portuondo e Carlinhos Brown

Mais de 400 concertos acompanhando Ibrahim Ferrer, com quem se deu a conhecer e de quem sente "muita falta". O pianista Roberto Fonseca (nascido em Havana em 1975) - que gosta de funk, soul, música clássica, pop, da tradição afro-cubana ou do jazz - já produziu com Nick Gold "Mi Sueño", o disco póstumo de boleros de Ferrer. "Nós nos sentávamos para conversar em seu quarto de hotel. Ele de camiseta. E falávamos sobre qualquer coisa. E sempre que tocávamos, ele me olhava e ria comigo. E brincava", lembra.

Fonseca não vem da escola do jazz. Nem se sente herdeiro da tradição pianística cubana. Perguntado por alguma referência, sua resposta é rápida: "Lilí Martínez". E justifica: "Eu estava mixando um dos meus discos no estúdio em Havana e vieram me buscar porque precisavam de um pianista para a gravação do Guajiro Mirabal. Abro a porta, vejo todos esses monstros do Buena Vista e me assustei. Estavam escutando 'No me llores más', cantada por Arsenio Rodrigues. E logo se ouve 'vai, Lilí', e Lilí começa esse solo. Aquilo foi como um estudo de Rachmaninov, mas à moda cubana".

Embora escutasse Peruchín e Bebo Valdés, preferia Stevie Wonder ou Earth Wind & Fire. Talvez por isso não lhe agrade ser classificado como pianista de jazz, e menos ainda de jazz latino: "O problema muitas vezes é a agressividade. É preciso tocar rápido. Muitas notas e blocos. Para ver quem faz mais notas. Eu não quero isso".

Fonseca transformou-se em um dos pianistas essenciais de nosso tempo. É célebre e desmistificador. Em julho passado esteve tocando no desfile da estilista francesa Agnés B. no Men's Fashion Show de Paris. "Você vê modelos pela televisão e logo está aí usando sua roupa. Todo mundo imagina um músico cubano com charuto, chapéu guajiro, camisa de 'guayabera' ou de flores, e um 'mojito'. Eu não bebo nem fumo. Quero que as pessoas saibam que em Cuba há quem se vista com terno ou roupa igual a qualquer outro lugar do Ocidente. Não é só praia com sol, palmeiras e maracas. Também temos dias chuvosos".

Além de produzir o disco de Ibrahim Ferrer, Fonseca edita agora seu novo trabalho, o refinado "Zamazu", do qual participam Omara Portuondo, Carlinhos Brown e Vicente Amigo. E, na produção, o brasileiro Alê Siqueira, responsável por discos como "Tribalistas". Sem deixar de ser cubano, soa diferente. Há uma peça do sul-africano Abdullah Ibrahim: "Quando o escutei, me tirou do meu mundo e me colocou na África".

O disco começa com o fragmento de uma missa popular cantada pela mãe de Robertico. "Desde pequeno me fascina a doçura que têm os cantos aos orixás e a energia do toque dos tambores batás. Impressiona-me como as pessoas se concentram, e a fé quando pedem que o mal se afaste." Um caminho espiritual que interessa particularmente a Fonseca: há batás no intenso "Clandestino" e tambores abakuá na belíssima "Suspiro".
"Llegó Cachaíto" é sua homenagem "a um músico que se expressa com o baixo.

Você coloca música clássica para Cachaíto e ele o acompanha; começa a tocar jazz e ele faz bem; toca hip-hop e ele também. O faz com facilidade, porque imagina fácil. Se você tiver todo o conhecimento e o domínio do instrumento, deixa que o corpo o leve".
Fonseca tocou com Herbie Hancock em Tóquio em 2002. "No final do concerto, ele fazia uma jam com computadores e DJs. E o escuto dizer: 'Quero convidar fulano, sicrano e Roberto Fonseca'. Fiquei petrificado. Ele começa a tocar piano comigo e se levanta para dirigir. Eu pensava: 'Não posso acreditar que estou aqui'. Com Wayne Shorter, Michael Brecker... As pessoas enlouqueceram".

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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