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24/11/2007
Ataques a zonas tribais ameaçam a unidade do Paquistão

Georgina Higueras
Enviada especial a Islamabad


Em seu escritório em Islamabad, vestido à ocidental e em um inglês aperfeiçoado durante seus estudos em Oxford, o letrado Iftijar adverte que os bombardeios indiscriminados do exército paquistanês contra as zonas tribais fronteiriças com o Afeganistão e povoadas por pashtuns acabarão por destruir o país.

"Não estamos dispostos a nos transformar no bode expiatório da aliança contra o terror dos EUA com Pervez Musharraf. A vingança é um dos quatro pilares do código pashtun, e a paciência do nosso povo tem um limite", afirma.

O 11 de Setembro deslocou o foco de tensão desse país conflituoso de sua fronteira oriental para a ocidental. Desligada por motivos religiosos da Índia quando ambos se tornaram independentes em 1947, a disputada região da Caxemira provocou duas guerras e alimentou a terceira (1971), na qual nasceu Bangladesh, o antigo Paquistão Ocidental.

Matiullah Achakzai/EFE - 10.nov.2007 
Membros da etnia pashtun se preparam para atravessar a fronteira com o Afeganistão

Os 2.912 quilômetros que separam a Índia do Paquistão -dois Estados nucleares desde 1998- continuam sendo, apesar do cessar-fogo estabelecido em 2004, a região mais militarizada do mundo. Por isso os especialistas temem que possa voltar a se incendiar por uma faísca do fogo que alimenta o extremismo islâmico e suas conexões com as máfias da droga e do tráfico de armas.

Hoje a situação tornou-se explosiva na chamada Província Fronteiriça do Noroeste (NWFP na sigla em inglês), uma das quatro que formam o Paquistão, junto com Baluchistão, Punjab e Sind. A maioria da população da NWFP é pashtun, etnia que representa 15,9% dos 165 milhões de paquistaneses.

Os pashtun nunca reconheceram a Linha Durand, fronteira de 2.430 quilômetros que separa o Paquistão do Afeganistão e que os taleban e a Al Qaeda transformaram em um dos maiores focos de tensão do mundo. Traçada pelo Império Britânico em 1893 depois de duas guerras contra o Afeganistão que acabaram em empate, a Linha Durand divide os pashtun: 27 milhões no Paquistão (além de 2 milhões de refugiados afegãos) e 12 milhões no Afeganistão, onde representam 42% da população.

Enquanto a Assembléia da NWFP pediu que o governo central mude o nome da província para Pajtunjua (enclave pashtun), o estado de exceção decretado pelo presidente Musharraf no último dia 3 é utilizado para bombardear o vale de Swat, onde se fortaleceram membros da Al Qaeda e militantes da ilegal Aliança para a Imposição da Lei Islâmica (TNSM). Esta, dirigida pelo religioso pró-taleban Fazlulah, proíbe o urdu -a língua nacional do Paquistão- e defende um Pashtunistão independente governado pela lei islâmica.

O advogado, que prefere que não se mencione seu sobrenome, afirma que "a honra, a hospitalidade e a submissão do vencido ao vencedor" são os outros princípios que governam essa etnia, milhares de anos antes de abraçar o islamismo. Acrescenta que os pashtun são os "mais democráticos do Paquistão", pelo menos no que se refere aos homens -as mulheres não contam-, porque suas decisões são tomadas por unanimidade do Conselho de Respeitáveis (Loya Yirga). Esse código moral, muito respeitado pelas tribos, contém o avanço das tropas de Musharraf pelas Fata (Áreas Tribais de Administração Federal), zonas nas quais nunca entraram nem o exército paquistanês nem o do Império Britânico.

As Fata, com cerca de 3,5 milhões de habitantes, são historicamente um território indômito de guerreiros, bandoleiros e contrabandistas, que cavalgaram entre a civilização persa e a Índia. Na atualidade, a marginalização imposta pelos chefes tribais em relação ao governo, as instituições e inclusive o desenvolvimento econômico do Paquistão -82% da população é analfabeta-, transformou essas áreas em caldo de cultura do integralismo islâmico, que nas décadas de 70 e 80 ajudou os EUA a combater a invasão soviética do Afeganistão.

Os bombardeios aéreos do exército paquistanês exacerbaram o sentimento de separação e serviram principalmente -segundo o jornalista Shamin ur Rehman, do prestigioso jornal "Dawn"- para "impermeabilizar" outras áreas da NWFP e do Punjab. A infiltração de grupos armados na província mais rica do Paquistão e sua eventual tentativa de desestabilizar o Punjab -que já sofre tensões entre os agricultores e os proprietários de terra- são um dos maiores medos do governo.

Essa ameaça de talebanização é o que Musharraf usa para defender sua mão de ferro contra os militantes. No entanto, o exército está dominado pelos punjabis, assim como a administração, o que agrava o mal-estar de pashtuns, beluchis e sindis e alimenta as aspirações independentistas de seus movimentos nacionalistas.

O general aposentado Masud Talal, que defende a democratização do Paquistão para conter a violência que deixou cerca de mil mortos nos últimos seis meses, afirma que as forças contrárias à unidade do país se alimentam da repressão.

Para o antropólogo Adam Nayar, porém, o que detonou a instabilidade atual não é a divisão étnica do Paquistão, mas a "ruptura do sistema tradicional imposta pela globalização, um fenômeno que o Paquistão ainda não digeriu". Nayar afirma que "os valores tradicionais se romperam pela influência do dinheiro" e que este, "mais que a violência religiosa", exacerba as relações entre as diversas comunidades e especialmente dos baluchis com o resto do país.

O Baluchistão, a maior província paquistanesa, conta com apenas 10 milhões de habitantes -60% baluchis e os demais pashtuns-, mas guarda em seu subsolo enormes reservas de gás. Com 909 km de fronteira com o Irã e o resto com o Afeganistão, os nacionalistas baluchis sempre estiveram isolados e têm uma longa lista de agravos contra o poder central paquistanês.

Na década de 1970, as tentativas do então primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto de povoar as terras baluchis com panjabis e hindis provocou uma revolta armada baluchi, brutalmente esmagada. A derrota dos taleban, cujo feudo era Kandahar, a cerca de 500 km de Queta, a capital baluchi, fez que centenas de dirigentes do antigo regime e da Al Qaeda fugissem para esta província paquistanesa.

O general Musharraf aproveitou a conjuntura para se empenhar na limpeza da região, tanto de militantes procedentes do Afeganistão como das diversas guerrilhas separatistas baluchis. O ano mais conflituoso foi 2005, quando o governo paquistanês sitiou o povoado de Dera Bugti para acabar com o chefe guerrilheiro Nawab Akbar Jan Bugti e provocou um banho de sangue. Na última quarta-feira foi decretado o toque de recolher em Queta para evitar uma chacina depois da morte em circunstâncias estranhas do líder do ilegal Exército de Libertação do Baluchistão (BLA), Nawabzada Balach Marri.

Sind é a província mais multiétnica do país. Nela estão amplamente representadas todas as nacionalidades, além dos mohairs, que são de origem indiana e língua urdu. Os sindis não chegam a 60% dos 57 milhões de habitantes. O movimento independentista se alimenta dos freqüentes choques entre sindis e mohairs. Os primeiros são proprietários de terras e agricultores, enquanto os segundos são majoritários nas cidades -incluindo a capital financeira, Karachi- e com suas conquistas econômicas deixaram para trás os sindis, o que cria um enorme mal-estar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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