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02/02/2008
Jack Nicholson: "Sou apenas um sujeito que faz filmes"

Jesús Ruiz Mantilla
Em Londres


Desde o 11 de Setembro ele decidiu se dedicar à comédia. E, salvo alguma exceção, esse ganhador de três Oscars mantém sua decisão. Inclusive com "Antes de Partir" , sua próxima estréia, na qual encarna um doente de câncer que ri diante da morte.

De perto as lendas adquirem uma naturalidade que às vezes é desconcertante. Quando fui conversar com Jack Nicholson, imaginei que encontraria a malícia de seus personagens corrosivos no olhar, o perigo de certa dose diabólica em seu sorriso, que ficaria paralisado pelo poder magnífico de sua voz... A sedução, em suma, desse homem que transformou a histrionice em virtude e ganhou três Oscars por isso, com "Um Estranho no Ninho", "Laços de Ternura" e essa obra-prima da vida que é "Melhor É Impossível"...

Tudo isso se percebe frente a frente: as marcas de uma vida errante e no limite; selvagem e vital, cheia de conquistas, brigas, farras e algum trauma, como o que deve tê-lo assaltado quando descobriu que sua mãe era a que considerava sua irmã, e não sua avó, como lhe haviam dito desde que era menino. Mas também se encontra um homem trabalhador e paciente, que atende com uma amabilidade cálida os que o procuram -"Eu também fui um fã", afirma este que foi vizinho de Marlon Brando até a morte do gênio-, acompanhado de um maço de Camel com filtro e um café que compartilha com seus interlocutores em um hotel luxuoso em Londres: "Jack não é como meus personagens; senão não haveria jogo".

Daniel Deme/EFE - 23.jan.2008 
Jack Nicholson em Londres para a estréia de seu novo filme "Antes de Partir"

Na próxima semana estréia "Antes de Partir", de Rob Reiner. É o último de seus quase 70 filmes, a última de suas comédias, porque essa é a única coisa que gosta de fazer ultimamente, com exceção de "Os Infiltrados", em que trabalhou com Martin Scorsese dando vida a um mafioso irlandês padrinho do submundo de Boston. "Desde o 11 de Setembro não tenho vontade de fazer outra coisa que não seja comédia", afirma. E é nesse gênero que encontrou um modo de expressão profundo, tão definitivo quanto o de seus outros personagens fascinantes, como o do escritor racista, misógino e cruel de "Melhor É Impossível", ou essa outra jóia em sua carreira que é o viúvo aposentado de "As Confissões de Schmidt", de Alexander Payne.

Agora dá um baile na morte com outro mestre de parceria, Morgan Freeman. Juntos abordaram, com essa sabedoria que só possuem os gigantes, a louca aventura de dois homens unidos pelo acaso de um quarto compartilhado num hospital público, aos quais dão essa notícia que Nicholson (nascido em Manhattan, Nova York, em 1937) jamais gostaria de ouvir: que só lhes restam seis meses de vida.

El País - É pena que, tendo a oportunidade de falar com Jack Nicholson, alguém que ama tanto a vida, seja preciso falar da morte.
Jack Nicholson -
Não temos outro remédio. A primeira coisa que eu gostaria de dizer é que esse filme causou um grande impacto nesses testes de público que as produtoras fazem antes da estréia. Foi o segundo mais considerado na história da Warner Brothers, algo que me surpreendeu. E uma das coisas que o público notava é que não se trata de um filme sobre a morte, mas sobre a vida. Temos de ficar contentes por tê-la feito. Cumprimos o objetivo...

EP - Essa é a graça, entre outras coisas. Por exemplo, que seu personagem vê a morte como uma grande piada final.
Nicholson -
Bem, tudo depende de como se descreve. São as circunstâncias. Quando você se encontra nesse aperto em que sente a foice da velha senhora apontada para você, coloca-se em outra dimensão.

EP - Na qual entra o humor negro.
Nicholson -
Sim, por isso meu personagem diz que morre mais gente pelas visitas do que pela doença. Essas coisas unem os dois. Eles se observaram mutuamente, vêm de mundos diferentes, um é um trabalhador no qual influiu muito sua economia, o outro é rico e o dinheiro não é problema para ele, mas sim a solidão. São dois casos tão diferentes que talvez por isso decidam se lançar juntos na aventura. Desafiam um ao outro dizendo: quer acabar seus dias fingindo que se importa se as pessoas têm pena de você, ou quer devorar o que lhe resta de vida, cada minuto de ouro? Não é novo, mas é um projeto maravilhoso, sem sentimentalismos.

EP - O senhor gostaria de saber quando vai morrer?
Nicholson -
Não. É difícil ter preferências nesse sentido. O único que sei é que eu gostaria que a última coisa que fizer seja realmente a última coisa que desejo fazer.

EP - Concordo totalmente.
Nicholson -
Como controlar a dor até o final. Entrar nessa inconsciência me preocupa. Eu percebi que muitos verbalizam sua desgraça de maneira hipócrita, consolando-se com o além. Mas a dor é tão imensa, faz sua pele enrugar tanto, que dá na mesma. Ninguém quer saber que vai morrer. É mentira. Foi o que vi em todos os casos com que me deparei.

EP - Certamente esse filme o fez refletir sobre seu passado. Onde fica o Jack selvagem? O vê distante?
Nicholson -
Não, não. O que acontece é que a passagem do tempo o afeta, mina certas capacidades suas. Você não pode escolher. Não é que eu tenha piorado, é que a vida me arrebatou coisas e justamente por isso eu melhorei outras. Não quero parecer comum, mas sou um pouco camaleão. O que vocês vêem de mim nos filmes não é o que sou. Minha vida me serve para o trabalho, mas não é minha vida que refletem os personagens que faço. As pessoas não devem conhecer a verdadeira natureza dos atores, se acreditam que o conhecem é pior para seu trabalho, você precisa "desatuar", fazer o que eu defino como "unjack", desfazer-me de Jack.

EP - O que você fez foi transformar a histrionice em uma virtude.
Nicholson -
É verdade. A frieza é mais fácil. Você deve deixar que a emoção o surpreenda nas situações.

EP - E assim conseguiu três Oscars. Como vê [o ator espanhol] Javier Bardem na disputa deste ano?
Nicholson -
Javier é muito bom, mas desta vez gostei menos dele do que em "Antes do Anoitecer". Da minha parte, tudo o que tenho eu ganhei trabalhando... Um dos meus princípios na vida é honrar o trabalhador. Também facilitar as coisas para os que estão com você. Se você quer ter sucesso, esforce-se para que seus companheiros se saiam bem. Tudo será mais agradável.

EP - Que outras façanhas quer conseguir?
Nicholson -
Não sei. Outro dia pensei que estou trabalhando quase a metade do tempo da história do cinema. Temos pouco mais de cem anos e eu estou há mais de 50. Perceber isso me causou um impacto. Sou um trabalhador, às vezes me canso, mas tenho a sorte de que quando quero descansar, descanso.

EP - Mas parece em estado de graça, nos últimos tempos conseguiu interpretações especiais. É a experiência?
Nicholson -
E não me calar. Quando não entendo algo, não gosto de fechar a boca. Mas também porque quero desfrutar e que as pessoas desfrutem mais com meu trabalho. Depois desse panorama terrível a que chegamos depois do 11 de Setembro, tomei uma decisão implacável: não quero saber de nada, por isso vou me dedicar à comédia.

EP - O mais difícil.
Nicholson -
O mais duro, como percebi. A forma de atuação mais sofisticada, mas tenho sorte, porque trabalhei com especialistas nesse campo, James L. Brooks, Nancy Myers, Adam Sandler, Alexander Payne e agora com Rob Reiner. Sabem o que fazem e eu contribuo. Eu sou um simples cineasta, um sujeito que faz filmes.

EP - Através da comédia pode-se chegar ao mais profundo, como acontece em "Melhor É Impossível", em que um canalha se transforma em uma boa pessoa. Pode-se pedir mais?
Nicholson -
Ele se transforma por amor.

EP - E por um cachorro...
Nicholson -
É a interação, vai-se construindo através dos ensinamentos dos outros. É preciso estar aberto para o que o rodeia. Aquele personagem vivia em uma cerração, não se pode pensar que 95% das pessoas estejam enganadas. A vida também lhe ensina tudo o que você queira aprender, ainda mais se você tiver sido empresário teatral, salva-vidas ou bombeiro, como eu. Nesses casos é preciso ter algo claro: não se pode levar nada com leviandade, isso o destrói. Também não ser tão imbecil como os políticos dos EUA, que pensam: as pessoas são tão pouco inteligentes que precisam de líderes. Não se pode desprezar ninguém, ainda mais quando não fazem outra coisa além de lhe pedir um autógrafo, porque eu também já fui um fã.

EP - De quem?
Nicholson -
Do cinema. Comecei a trabalhar na Metro como garoto de recados para poder ver as estrelas de perto. Nem sonhava que fosse entrar nos filmes, mas...

EP - Começou assim.
Nicholson -
Sim. Mas há coisas que me incomodam na fama. Se vou a um museu, por exemplo, e as pessoas não olham para Van Gogh, e sim para mim. Ofende meu sentido da medida e minha sensibilidade estética, mas devo ter consciência do impacto do cinema em nossas vidas. Talvez a gente não dê tanta importância quando vive em Londres ou em Nova York, mas em Nebraska... As pessoas não vêem estrelas do cinema, e se você aparecer por lá vão se lembrar por toda a vida. Você precisa saber de onde vem, pode se cansar até dizer basta, mas se puder ser amável, deve ser. Não custa nada deixar uma boa lembrança. É tão fácil...

EP - Não andar por aí amargurado pelo êxito, como tantos outros?
Nicholson -
Exatamente. Pensar que, para as pessoas, ver você será uma recordação inesquecível. Também acontece conosco. Gostamos de aproveitar ao máximo o momento. Mas somos tão tolos que quando o desfrutamos já é uma recordação. Se não tivermos consciência de espremer o sumo de cada instante, nos equivocamos.

EP - Perde-se a oportunidade.
Nicholson -
Sim, como dizia Churchill, que se definia como otimista porque, segundo ele, todas as outras alternativas pioravam tudo. Essa obsessão de que a vida é uma merda! E daí? Saber disso não adianta nada, só piora!

EP - Uma das coisas que piorou é Hollywood. Em que mãos está?
Nicholson -
Eu cheguei a Hollywood quando as grandes produtoras mudavam de mãos por uma questão de impostos. Passar de propriedades privadas e individuais a grandes alianças saía mais barato. Por isso os atores foram criando produtoras independentes. Antes dessa mudança era impossível. Hoje as multinacionais mudaram. Há ovos demais em uma única cesta, e baixa o nível. Produzem muito e perdem o controle. Qualquer um deveria se concentrar em três ou quatro filmes que são os que deseja fazer por ano, mas o trabalho dos grandes executivos se concentra nos outros 12 de que não gostam. Tomam decisões que os desgastam sobre o que não gostam de fazer. Certamente ninguém da indústria reconhece isso, mas eu me importo com esse mundo e é assim que vejo. Sabedoria é força. Também não lhes interessa distribuir cinema estrangeiro. Nós crescemos vendo Buñuel, Fellini, Truffaut. Íamos ao cinema toda semana com a esperança de encontrar uma obra-prima, mas hoje o negócio é tão difícil que pensam que distribuir obras de arte é filantropia. Só se interessam pelos resultados, os lucros.

EP - A bilheteria, pura e simples?
Nicholson -
Quando eu começava a fazer sucesso, estrear em 500 salas era uma barbaridade. Hoje projetam em milhares. Por quê? Porque querem arrecadar tudo rapidamente, de uma vez. Também não se importam que em cada país se mude o título conforme convenha. Não culpo ninguém por querer fazer seu trabalho de maneira fácil, mas sim por não fazê-lo bem. Tudo é importante, até os pequenos detalhes.

EP - Em sua lista de últimos desejos, de coisas pendentes, o que colocaria? Certamente ainda não a fez, mas já pensou?
Nicholson -
Coisas simples. Cozinhar como um artista, falar muitos idiomas, acertar a bola de uma só tacada no golfe, inventar algo tão grande quanto um clipe para papéis.

EP - Alguma coisa útil ou mais algum filme?
Nicholson -
Bem, isso não está tão presente na minha lista, mas se você conhecer Almodóvar diga-lhe que uma das coisas seria trabalhar com ele. Com Marilyn Monroe também...

EP - A tecnologia avança, e esse último desejo até poderia fazer.
Nicholson -
Faz tempo que eu saberia o que fazer em um filme com Marilyn Monroe, mas não vou lhe contar...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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