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10/02/2008
J. K. Rowling, autora de "Harry Potter": "Ser invisível... seria o máximo"

Juan Cruz
Em Edimburgo


J. K. Rowling (nascida em Bristol, Inglaterra, em 1965), "Jo" para os amigos, tem o mesmo olhar assustado e feliz de Harry Potter, seu personagem de ficção. Ela escreveu o primeiro livro porque precisava, e continuou escrevendo até o número 7, que é publicado agora (em 21 de fevereiro na Espanha, pela editora Salamanca, como os demais), sem olhar para os lados, sem prestar atenção no gigantesco número de viciados, crianças, jovens e adultos, que fizeram desse enorme livro de magia e realidade o maior best seller da história.

Harry Potter é seu herói; salvou-a e lhe deixou uma seqüela emocionante: ela o abandonou, mas não consegue viver sem ele. Foi o que Rowling nos disse na manhã da última terça-feira em Edimburgo, onde vive há vários anos.

Levamos para ela um queijo asturiano, para lhe lembrar seu Prêmio Príncipe de Astúrias de la Concordia, e saudações da fundação que concede essa homenagem.

Algumas vezes ela falou em entrevistas sobre outro grande solitário como ela, Francis Scott Fitzgerald. Pareceu-nos oportuno começar por aqui a conversar com a autora sobre a solidão, a morte e a melancolia, que são os assuntos predominantes na última fase de Harry Potter, seu alter ego.

El País - A senhora costuma falar de Scott Fitzgerald, um melancólico.

J. K. Rowling -
Sim, falei sobre ele para fazer uma distinção entre um escritor que por natureza e talento teve o impulso de escrever e que não pôde combinar essa necessidade de escrever com sua vida social. O mencionei porque nestes dias tão midiáticos parece existir a obrigação de que o escritor seja um personagem público. No meu caso, as pessoas pensam que, como sou uma escritora reconhecida, deveria ser boa para dar entrevistas e sair nas fotos. As pessoas esperam que você desfrute os programas de televisão e que goste de ser um personagem público, um "performer". Mas não sou. Gosto da vida de escritor, aprecio a solidão.

EP - É curioso que às vezes em Harry Potter, sobretudo nas últimas versões, há um grau de melancolia e de solidão que lembra Fitzgerald.

Rowling -
Sem dúvida. É a melancolia que nasce de um peso. E Scott Fitzgerald teve dois pesos: o de seu talento e sua necessidade de criar, e o de sua vida privada, que foi catastrófica. Esses dois pesos são suficientes para levar qualquer um ao alcoolismo.

EP - Esses pesos podem vir dessa época entre a infância e a adolescência, quando chegam os fantasmas e ficam consigo para sempre.

Rowling -
Sim, creio que os adolescentes estão muito próximos da morte. Sentem-se tão pressionados que, para eles, a morte está a um passo. São pessoas muito frágeis. Na Grã-Bretanha há uma cultura de medo dos adolescentes, da juventude em geral. E não deveria ser assim. Deveríamos protegê-los, em vez de nos protegermos deles.

EP - A senhora fala da morte. Nos livros seis e sete de Harry Potter a morte aparece não só como palavra ou pensamento, mas como uma possibilidade, uma evidência e uma realidade.

Rowling -
O plano sempre foi esse, que a morte aparecesse aí. Desde que era menino até o capítulo 34 do sétimo livro, exige-se que Harry seja um homem mais velho, enquanto se obriga que ele assuma a inevitabilidade de sua própria morte. O plano [da série de novelas] era que ele devia ter contato com a morte, e com a experiência da morte. E sempre foi Harry, sozinho, quem devia ter essa experiência. Foi tudo feito conscientemente, pois o herói tem de viver coisas, fazer coisas, ver coisas por conta própria. Faz parte desse isolamento e dessa melancolia que significam ser um herói.

EP - Esse capítulo 34 ["Caído de boca para baixo, com o rosto no tapete empoeirado do escritório onde uma vez acreditou estar aprendendo os segredos da vitória, Harry compreendeu que não sobreviveria"] lembra o início de "Cem Anos de Solidão" de Garcia Márquez.

Rowling -
Você é muito bajulador.

EP - É um livro sobre a morte, e obviamente sobre a solidão, como o seu... O personagem de "Cem Anos" acompanha seu avô para ver o gelo, e a senhora leva Harry a visitar a morte...

Rowling -
Para mim esse capítulo é a chave de todos os livros. Tudo, tudo o que escrevi foi pensado para o momento exato em que Harry entra na floresta. Esse é o capítulo que eu tinha planejado durante 17 anos. Esse momento é o coração de todos os livros. E para mim é o verdadeiro final da história. Apesar de Harry sobreviver, disso nunca houve dúvida, ele chega a alcançar esse estado único e muito estranho que é aceitar a própria morte. Quantas pessoas têm a possibilidade de aceitar a própria morte antes de morrer?

EP - É uma experiência próxima de todos. Quando alguém viu a morte em uma pessoa próxima se pergunta como será esse olhar que nunca mais veremos, o que acontecerá depois.

Rowling -
Definitivamente. E acho extraordinário que apesar de todos sabermos que vamos morrer a morte continue sendo um mistério. Pensamos que a morte é como algo secreto que acontece com muito pouca gente. E de repente alguém próximo morre e então cai a bomba. Harry tem uma compreensão precoce da morte, muito antes do capítulo 34. E isso tem um paralelo evidente com minha vida. Se alguém de sua vida próxima morre, como minha mãe morreu, fica explícito o fato de que a morte vem para todos. E é algo com que você sempre vai viver.

EP - Vivemos em épocas sombrias e tristes, a senhora diz em seus livros, especialmente neste. Como a senhora vive esta época?

Rowling -
Preciso acreditar na bondade das pessoas. Creio que as pessoas são, por natureza, boas. Mas atualmente acompanho muito de perto a política americana. Estou obcecada pelas eleições nos EUA. Porque terão conseqüências profundas no resto do mundo. A política externa dos EUA nos últimos anos afetou negativamente tanto o seu país quanto o meu.

EP - E se a senhora tivesse uma varinha mágica, o que faria?

Rowling -
Quero um democrata na Casa Branca. E acho uma pena que Clinton e Obama tenham que ser rivais, porque ambos são extraordinários.

EP - Esta manhã, ao entrar no hotel, vi que a senhora segurava "The Times", e na capa havia uma foto de Hillary chorando.

Rowling -
Bem, era uma lágrima pequena. E ela pode se permitir uma lágrima de vez em quando. A vida política é muito dura para uma mulher. Se você não chorar, é uma filha da puta. E se chorar é fraca. É difícil. Em troca, é aceitável que o homem chore.

EP - Solidão, morte... falamos de coisas sombrias. A literatura vive um pouco disso.

Rowling -
Bem, creio que foi Tolkien quem disse que todos os livros importantes tratam da morte. E há algo de verdadeiro nisso, porque a morte é nosso destino e devemos enfrentá-lo. Tudo o que fazemos na vida é uma tentativa de negar a morte.

EP - A senhora disse que via sua alma como algo imperecível.

Rowling -
Sim, é verdade. Mas também disse que tenho muitas dúvidas sobre a religião. Sinto-me muito atraída pela religião, mas ao mesmo tempo tenho muita incerteza. Vivo em um estado de fluxo espiritual. Creio na permanência da alma, e isso se reflete no último livro.

EP - O que a faz feliz?

Rowling -
A família e o trabalho, obviamente. Considero-me tão afortunada por ter uma família... Meus filhos são o mais importante, acima de qualquer coisa. Embora seja muito difícil compatibilizar o escrever com ser mãe.

EP - Antes de vir encontrá-la, pedi ao roteirista espanhol Rafael Azcona que me desse uma pergunta para lhe fazer, e ele me respondeu que perguntaria a sua neta Sara, de 6 anos, que é viciada em Harry Potter.

Rowling -
Isso é genial.

EP - Mas a senhora disse que se deve ler seus livros a partir dos 7 anos.

Rowling -
Bem, minha filha mais velha tinha 6 quando os começou a ler. Eu sempre soube aonde ia com os livros. Então, sim, acho que uma criança de 6 anos pode entender o primeiro livro ["Harry Potter e a Pedra Filosofal"], embora o final seja bastante tenebroso. O quinto livro é o mais obscuro de todos, porque há uma falta de esperança, uma atmosfera opressiva. E creio que por isso as pessoas não gostaram tanto. Mas há leitores que preferem esse livro a todos os outros, mas são uma estranha minoria. O quinto, o sexto e este último não creio que sejam adequados para crianças de 6 anos.

EP - E quando escreveu o primeiro pensou em um determinado leitor?

Rowling -
Esse é o problema. Eu o chamava de história infantil porque o personagem principal era um menino. Mas sempre foi um menino que queria ser mais velho. E afinal é um homem, um homem jovem mas um homem. Isso é o incomum em livros infantis: que o protagonista cresça. E me alegro enormemente que as pessoas continuem lendo e gostando dos livros. Elas cresceram com Harry Potter. Mas nunca pensei nos adultos como possíveis leitores.

EP - Peter Mayer, o editor, que foi o primeiro que escutei falar de Harry Potter na Espanha, disse que a chave do êxito é que a série se transformou em leitura para adultos.

Rowling -
Sim, é incrível. Só agora sou capaz de olhar através e perceber tudo. Durante dez anos não me permiti pensar nisso. Creio que o fiz para me proteger. É muito difícil viver com essa pressão, mas eu vivia negando os fatos, constantemente. Depois de cada publicação fiz um esforço para não ler nenhuma crítica.

EP - A literatura salva as pessoas, ou ajuda a salvar-se. Como a escrita a afetou?

Rowling -
Vou lhe dizer uma coisa. O mero fato de escrever o primeiro livro salvou minha vida. Sempre me dizem que o mundo que inventei é irreal; foi isso que me serviu para me evadir. Sim, é verdade que é irreal, até certo ponto. Mas não porque meu mundo fosse mágico, e sim porque todos os escritores se evadem. Além disso, eu não fazia isso só para me evadir, mas porque procurava esclarecer assuntos que me preocupavam. Assuntos como o amor, a perda, a separação, a morte... E tudo isso está refletido no primeiro livro.

EP - E o que mais lhe deu esse primeiro volume?

Rowling -
Falando em um nível prosaico, escrever esse livro me deu a disciplina, o enfoque e a ambição, que naquela época se reduzia simplesmente a ver o livro publicado.

EP - Como seria o dia da publicação!

Rowling -
Vi meu sonho transformado em realidade. Foi um momento extraordinário. Eu não acreditava, estava em êxtase. E de maneira quase imediata senti como se um trem estivesse me empurrando a toda velocidade para trás, como em um desenho animado. Pensei: O que me aconteceu? Três meses depois recebi um adiantamento astronômico, para os meus padrões da época. Eu morava em um apartamento alugado, não tinha seguro, nem poupança. Usava roupas de segunda-mão. O dinheiro escasseava, e de repente ter aquele dinheiro foi extraordinário. Nessa noite não consegui dormir. No dia seguinte começaram a aparecer jornalistas, me deram um prêmio importante, me ligaram do "The Sun" para comprar os direitos da história da minha vida, e os jornalistas começaram a rondar a frente de minha casa. E vou lhe dizer uma coisa: aquilo me deu muito medo.

EP - Por isso teme os jornalistas até hoje?

Rowling -
Não, não os temo. Lembro especialmente de alguns jornalistas que intuíram minha incredulidade e minha vulnerabilidade e me ajudaram. Um deles me disse que tinha todo o direito de manter minha filha isolada da imprensa, porque sempre me neguei a levá-la comigo às entrevistas e que tirassem fotos dela. Estou lhe falando da imprensa do Reino Unido. É assim que funciona.

EP - Seus livros parecem cheios de símbolos pessoais.

Rowling -
Tendo a usar datas significativas. Quando preciso de uma data ou um número, uso algo que esteja relacionado à minha vida pessoal. Não sei por que faço isso, é um cacoete. O aniversário de Harry é o meu, por exemplo. Os números que aparecem ou as datas que há nos livros têm relação comigo.

EP - Escrever seu primeiro livro a deixou extasiada. E o sucesso a pressionou, saber que milhões de pessoas esperavam seus textos?

Rowling -
Fiz um grande esforço para não pensar nisso. Obviamente, houve momentos em que algumas notícias vazaram, sobretudo durante os livros 4 e 5. Aí sim, notei a pressão e creio que fica evidente na escrita.

EP - Como estava?

Rowling -
Quando cheguei ao quarto livro, estava muito queimada. Tinha produzido um livro por ano durante quatro anos, enquanto criava minha filha sozinha, sem qualquer ajuda. Sentia-me exausta. E realmente pensei: não agüento mais, tenho de parar. Disse isso ao meu editor, que se continuasse assim não poderia mais escrever. Então conheci o que hoje é meu segundo marido.

EP - A senhora é Harry Potter. E a senhora mesma o diz: "Harry é meu". Sempre soube como ia acabar? Sempre soube que seriam sete livros?

Rowling -
Sempre soube o que ia acontecer. Desde o início tinha toda a trama esboçada, sem os detalhes, mas sempre soube que sua história ia terminar. E terminou, embora muitos fãs estejam decepcionados. Não há forma de fazer ressurgir a história de Harry. Sua história terminou. Mas foi muito difícil terminá-la, foi devastador.

EP - O final é comovente: "A cicatriz (de Harry) continuava ali, e depois de 19 anos não doía mais".

Rowling -
É simbólico todos repetimos a mentira de vez em quando: que o tempo tudo cura. E não é verdade. Há coisas que não saram, como quando alguém que você ama morre.

EP - E também escreve: "Harry Potter, o menino que sobreviveu". É o que diz o mestre, e diz que sobreviveu porque foi fiel a suas convicções. Graças a isso venceu Voldemort. A senhora é assim?

Rowling -
Gostaria de poder dizer que sim, porque criei um herói com atributos heróicos. Li em algum lugar: "Um herói não é mais corajoso que os outros. É apenas corajoso por cinco minutos a mais..." Harry é assim.

EP - Em todos os livros há a consciência de que uma pessoa pode se salvar se tiver amigos, mas a história de Harry também é uma história de solidão.

Rowling -
Estou totalmente de acordo. Dei a Harry meu defeito, que é a tendência a me encerrar, a me isolar quando estou sob pressão, triste ou feliz. Tendo a me isolar. Mas sei que isso não é bom, que não é saudável. E dei isso a Harry. Mas também é isso que o torna heróico, o que o prepara para agir por si só.

EP - Harry é seu herói?

Rowling -
Sim, bem, na vida real meu herói é Robert F. Kennedy. Criei um menino que tenta agir com moralidade, que apesar de ter sido agredido e ferido física e mentalmente continua atraído pelo lado bom das coisas. E é genuíno e leal, e eu acho todas essas coisas heróicas.

EP - As pessoas se fixam nos números de sua vida, em como a senhora é rica, e poucas vezes no ser humano; parece que a vêem com a varinha mágica, como Harry Potter.

Rowling -
Lamentavelmente, é verdade. Quando vejo meu nome nas listas de gente poderosa, coisa que pouco faço, penso: o poder não é algo que eu desejava, e além disso não tenho poder. Rica, sim, eu sou.

EP - Imagine por um instante que tivesse a capacidade de se tornar invisível.

Rowling -
Invisível? Isso seria o máximo...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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