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08/03/2008 - 00h30

A nova cara da fome no século 21

El País
Lali Cambra

Na Cidade do Cabo, África do Sul
O México foi um dos primeiros, no ano passado, com o protesto pelo preço do milho. Mas nos últimos meses o desespero de muitos cidadãos devido ao custo de produtos básicos derivou em protestos violentos em países de todo o mundo: Indonésia, Mauritânia, Marrocos, Iêmen, Guiné, Moçambique, Senegal e, na semana passada, Camarões e Burquina-Faso. Marchas da fome que acabaram com centenas de detidos e dezenas de mortos em confrontos com a polícia. Dois na Mauritânia, 12 no Iêmen e mais de uma centena em Camarões, segundo as organizações de direitos humanos, à falta de uma contagem oficial, desde que começou a revolta há cerca de dez dias.

"É a nova cara da fome. Há comida nos supermercados, mas as pessoas não podem comprá-la. Há uma vulnerabilidade nas áreas urbanas que não tínhamos visto antes e revoltas em países nos quais nunca ocorreram", alertava ontem Josette Sheeran, diretora do Programa Mundial de Alimentos da ONU, em Bruxelas. A ONU pediu ajuda à comunidade internacional para conseguir US$ 500 milhões em ajudas para os países mais pobres enfrentarem a carestia.

Sheeran advertiu que se os preços continuarem tão elevados a agência será incapaz de prosseguir seu programa, que alimenta 73 milhões de pessoas em 81 países -somente 10% dos desnutridos do mundo- e que tem um déficit de US$ 500 milhões causado pelo aumento de preços. A diretora explicou ao Parlamento Europeu que as reservas do programa estão em seu nível mais baixo em 30 anos, com somente 53 dias de reservas para emergências.

Romaric Hien/AFP - 7.mar.2008 
Mulheres cuidam de hortaliças plantadas atrás de um mercado em Burquina Fasso

A última das revoltas, a de Camarões, começou com uma greve de taxistas que protestavam contra o preço da gasolina em Duala, a capital econômica. "A população se uniu devido ao aumento do custo de alimentos como farinha ou arroz", explicou o jornalista Dibussi Tande. "O pão é básico na dieta deste país; nas províncias de língua francesa a maioria das famílias pobres vive só de pão. E o arroz é fundamental em todo o território. Um aumento de preços significa que muitas famílias vão dormir com fome", afirma. O caos, a pilhagem e os incêndios de postos de gasolina se estenderam de Duala a Iaundé, a capital, que em poucos dias ficou inundada de cartazes nos quais se liam mensagens como "Sim à vida menos cara". De acordo com organizações de direitos humanos, mais de cem pessoas morreram nos choques com a polícia e o exército de um país que se transformou em uma barricada.

Tudo se explica com uma simples equação. O crescimento econômico geral, especialmente na Índia e na China, representou um aumento da demanda de alimentos, não só de cereais mas também de carne e leite, de acordo com um estudo de Joachim von Braun, diretor do Instituto Internacional para Pesquisa de Políticas de Alimentação. "Isso representa um aumento de preços nas rações animais. O trigo, o leite e a manteiga triplicaram de preço desde 2000 e o frango, o arroz e o milho custam o dobro", comenta. A isto somam-se os polêmicos cultivos para produzir combustível: "O destinado ao consumo humano ou animal aumentou entre 4% e 7% desde 2000, o de biocombustível 25%, com especuladores financeiros no meio que causam maior volatilidade nos preços". Finalmente, há o efeito da mudança climática, da qual Von Braun pinta um panorama devastador: "Inundações e secas representam a perda de colheitas sobretudo na África; em 2020 o Produto Interno Bruto global da agricultura sofrerá perdas de até 16%; um aumento de temperaturas de 3 graus corresponde a um aumento de preços dos alimentos de até 40%. Muitos países em desenvolvimento dependerão mais das importações".

Não é de estranhar que os que já dependem de importações sejam os primeiros a se rebelar. O protesto popular em Burquina Fasso começou na semana passada em Bobo-Dioulasso (264 detidos e acusações de torturas e detenções ilegais por parte de organizações de direitos humanos) devido à passividade do governo em atacar os aumentos de preços entre 16% e 40% dos alimentos e da gasolina. As manifestações se reproduziram na quinta-feira na capital, Ouagadougou, tomada pelo exército. "Agora está mais tranqüilo, as pessoas não podem perder dias, sobretudo porque a maioria trabalha no setor informal", explica o jornalista John Liebhardt. "O sabão, a gasolina, arroz, açúcar, milho estão nas nuvens. Embora o crescimento econômico do país seja bom, de 6%, e se vejam butiques caras e carros enormes, cabe se perguntar se isso beneficia a maioria da população."

Parece que não. De acordo com Von Braun, de 34 países com insegurança alimentar no mundo, 22 têm crescimento econômico entre 5% e 16%. O diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, pôs na semana passada à disposição dos países mais afetados pela alta de preços provisões em curto prazo em forma de créditos e assessoria em impostos e política econômica. Uma atuação que já foi criticada: a porta-voz da organização Jubilee Debt 2000, Sarah Williams, considera que o FMI deveria aliviar a dívida dos países pobres sem ditar políticas econômicas. "É antidemocrático e se cancela a dívida em troca de mais privatizações e menos gastos no setor público."

A solução não é fácil: em curto prazo, o Egito incluiu 10 milhões de pessoas em sua rede de assistência social; a Rússia congelou os preços do leite, ovos, óleo e pão; o Afeganistão pediu ajuda ao Programa de Alimentos da ONU para incluir 2,5 milhões de pessoas a mais; as cartilhas de racionamento voltaram ao Paquistão como nos anos 1980; a Índia proibiu a exportação de arroz; a China, com uma inflação de 18,2%, limita a exportação e impõe cotas de importação, e a Indonésia, para aplacar seus cidadãos, triplicou os subsídios alimentares.

De acordo com Von Braun, que alerta que os preços vão continuar astronômicos nos próximos anos, as soluções devem ser de longo prazo -"continuar como até agora só vai aumentar a miséria"- e incluir uma abertura de mercados -"em um mundo com falta de comida os mercados devem se ampliar, e não restringir-se, e dar mais oportunidades a todos". Investir em ciência e tecnologia na agricultura, aumentar as redes sociais nos países mais afetados e incluir a alimentação nos programas internacionais destinados a combater a mudança climática são outras medidas que o especialista destaca.

Moratória ao biocombustível
Os membros da African Biodiversity Network (ABN, Rede para a Biodiversidade na África), que reúne diversas organizações de pesquisa, pediram na semana passada uma moratória dos novos projetos para a produção de biocombustível nos países do continente. Consideram que são mais uma ameaça que um benefício. "Temos de proteger a segurança alimentar, as florestas, a água, os direitos de propriedade da terra, os pequenos agricultores e os povos indígenas da campanha agressiva dos projetos de biocombustível", afirma o comunicado da ABN.

Essa organização refuta a crença de que o biocombustível será positivo para o crescimento econômico, dará trabalho e prosperidade para os agricultores africanos, ou que seja uma solução para a mudança climática. Explicam que o aumento do preço dos alimentos que se verifica globalmente também é em parte responsabilidade desse tipo de cultivos. Henk Hobbelink, coordenador da associação Grain, que faz parte da ABN, lembra que os grandes projetos representam em muitos casos que os investidores comprem grandes extensões de terra que antes havia sido utilizada pelos agricultores para seu gado ou com florestas ou áreas de valor natural. "Além do desmatamento, a abertura de terras não trabalhadas também representa a liberação de grandes quantidades de CO2."

Os cientistas da rede lembram o desmatamento da selva da Indonésia ou da Amazônia brasileira para reclamar a moratória. A ABN afirma que os grandes projetos em Moçambique, Etiópia, Quênia ou Uganda têm seus objetivos na exportação do produto, o que não representará uma melhora na situação energética dos países produtores. Se os investidores ocidentais, indianos ou chineses, puderam chegar a acordos com países africanos, uma companhia de Gana, a Biodiesel One, teve de fechar por falta de líquido. A Grain pediu que a UE reconsidere por todos esses motivos seu objetivo de promover o uso de agrocombustíveis.

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