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07/06/2008 - 00h35

Confissões de um cineasta errante chamado Mohsen Makhmalbaf

El País
Rocío García

Em Granada
"Ele vai mudar sua vida." Mais de uma pessoa tinha avisado a jornalista sobre a capacidade de fascinação de Mohsen Makhmalbaf, o patriarca do cinema iraniano e também de toda uma família dedicada ao cinema -mãe e três filhos-, acossada e perseguida pela ditadura do regime de Ahmadinejad.

Esse cineasta errante não levanta a voz quando, em um farsi suave e melodioso, relata o horror das torturas sofridas quando jovem, o auto-exílio que se impôs há três anos e a obrigação de viajar de um lugar para outro e trabalhar em diversos países e cidades para tentar se proteger. "Perdi meu lar pelo cinema", afirma tranqüilo o cineasta, um homem de entradas profundas que aparenta mais idade do que seus 50 anos. "O governo iraniano faz o impossível para que eu fique em um lugar concreto e assim possa me controlar. Ameaçou o Afeganistão para não podermos filmar lá, quis subornar um festival italiano para que não projete meus filmes, deu ordem às embaixadas do Irã em todo o mundo para que não renovem meu passaporte."

Kimimasa Mayama/Reuters - 11.jan.2002 
O cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf dirigiu os filmes Gabbeh" e "Kandahar"

Quando se pergunta como é a vida de um cineasta ameaçado, Makhmalbaf não hesita para responder: "Difícil, mas também estimulante". E relata o atentado a bomba que sua filha Samira sofreu em plena rodagem de um filme e que acabou com a vida de um membro da equipe (morreu dois meses depois), ou a dupla tentativa de seqüestro de sua outra filha, Hana, cujo filme "Buda Explodiu de Vergonha" obteve o prêmio do júri no último Festival de Cinema de San Sebastián. "Se nos atacam dessa maneira é porque realmente estamos fazendo o que é certo. Se querem me matar, estarei aí para dizer o que tenho a dizer. O único problema é que quando atentam contra a nossa vida os que nos rodeiam também têm de pagar por isso, e quando sua vida está em perigo perde um grupo de gente que não quer mais trabalhar com você."

Ele cresceu selvagem. Foi ao colégio só durante alguns anos. É um autodidata, intelectual e cinematograficamente. Não pisou em um cinema na infância -sua avó, mulher de sólida confissão islâmica, afirmava que o cinema levava diretamente ao inferno-, e foi somente quando saiu da prisão, com 21 anos, que se decidiu por essa arte. Opositor ferrenho da ditadura do xá Reza Pahlevi, foi detido por tentar roubar uma pistola de um policial. Foram quase quatro anos de torturas e surras, pelas quais teve de ser hospitalizado duas vezes.

"Uma pessoa que sofreu como eu, como não vai sair para gritar, denunciar e levantar a voz contra as injustiças?", parece justificar-se Makhmalbaf, para acrescentar em seguida: "Quando saí da prisão tinha duas opções: ou pegar uma arma ou pegar uma câmera. Optei pela última, porque sabia que com ela poderia ajudar a efetuar uma mudança na mentalidade do meu povo". Hoje se alegra por aquele desconhecimento infantil do cinema, porque acredita que o ajudou a ter um olhar mais limpo.

Autor de filmes imprescindíveis do cinema iraniano, como "Gabbeh" ou "Kandahar", Mohsen Makhmalbaf é um homem de uma cortesia extrema. Cumprimenta a todos com sorrisos e com as mãos juntas em sinal de reverência. Diz que o iraniano é um povo consciente, mas tem medo, e esse medo o impede de viver muitas experiências na vida. Depois de todas as suas experiências trágicas, ele mesmo não superou o medo, mas aprendeu a viver com ele e a aproveitá-lo. "Meus filmes me dão a possibilidade de sentir coragem, de poder falar, de mostrar o que penso e sinto."

Afirma com segurança que "o Irã vive na Idade Média". Não escapa de suas diatribes o presidente dos EUA: "Que fique claro para todo o mundo: Bush ameaça atacar o Irã não porque queira eliminar a Idade Média e levar ao povo liberdade e justiça, mas pelo petróleo e porque interessa a aproximação geopolítica com a região".

Makhmalbaf acaba de rodar um filme no Cazaquistão sobre a queda do comunismo e o vazio que criou na sociedade e na família, e não sabe o que será sua vida nos próximos meses. Por enquanto, em Granada, reviu na escuridão das salas alguns de seus filmes mais antigos. "Foi importante porque eu via as cenas e não lembrava da seguinte. As lágrimas me saltaram mais de uma vez. Percebi em que situação difícil vivíamos. Agora entendo por que os políticos nos temem: porque temos a capacidade de fazer tremer os corações das pessoas, e eles só apontam a pistola para a cabeça dessa gente."

Não se sabe se a vida muda depois de conhecer Mohsen Makhmalbaf. Mas com certeza nos faz vê-la de outra maneira.

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