UOL Notícias Internacional
 

01/07/2008 - 02h21

"Que tipo de penteado é esse?"

El País
Ángeles Espinosa
Em Teerã
Ao ver aproximar-se o carro da polícia, Siavosh e Sohrab sabiam que o problema era com eles. Não que os dois jovens universitários tivessem cometido qualquer tipo de delito, mas ambos ostentavam o cabelo eriçado e no Irã isso é suficiente para enfrentar problemas com as autoridades. A polícia lançou na semana passada uma nova fase de sua campanha contra a "corrupção social". Naquela ocasião, os vigilantes da moral queriam dar uma lição não só aos rapazes "com penteados ocidentais" como às mulheres "mal cobertas" assim como aos seus cabeleireiros e lojas de roupas.

"Sohrab acabara de cortar o cabelo e nós íamos fazer umas compras," lembra Siavosh, que não estava com gel nos cabelos. "O policial nos perguntou: 'que tipo de aparência é essa' e eu respondi que não via qual o problema, e que não estávamos causando dano a ninguém. Isso o deixou perturbado e ele nos disse: 'Venham comigo que eu vou explicar.'" Nenhum dos dois havia ouvido falar da nova campanha e embora acostumados aos controles aleatórios, o zelo policial os pegou de surpresa.

O agente foi seguido pela van do Ministério da Orientação Islâmica, onde apesar de seus 23 anos, um oficial lhes fez uma severa reprimenda por causa da aparência e pediu que entrassem no veículo vazio, até que este ficasse lotado para ir até o comissariado. Ao perceber que a situação era séria, Siavosh telefonou para um coronel, amigo de seu pai, e em 45 minutos os dois estavam livres.

Mas nem todo mundo tem os contatos adequados. Nesse mesmo dia, o porta-voz policial, o coronel Mehdi Ahmad, anunciou que nas primeiras 48 horas da campanha haviam sido fechadas 32 lojas de roupas e cabeleireiros em Teerã. O delito deles: vender roupas ou fazer cortes de cabelo "demasiadamente ocidentais". Também disse que suas patrulhas haviam "detido 21 motoristas, porque usavam roupas pouco convencionais".

Depois da revolução islâmica de 1979, as autoridades determinaram que todas as mulheres cobrissem o corpo da cabeça aos pés, com um manto (chador) e um vestido largo, o ropuch. Também desestimularam os homens a usar gravatas, camisetas, camisas de mangas curtas ou calças justas. O controle foi menos rígido durante a presidência do reformista Mohamed Katami, mas com a chegada do ultraconservador Mahamud Ahmadinejad foram organizadas as operações periódicas para lembrar as normas, em especial no verão, quando o calor predispõe ao uso de roupas mais leves.

A novidade nessa ocasião é que os agentes da moral investigam onde os jovens cortaram os cabelos. Ou no caso das moças, onde eles compraram as vestes cada vez mais curtas, mais justas e leves, embora recatadas para os costumes ocidentais. "As pessoas que se vestem com roupa inadequada ou aqueles que as vendem já sabem que estão violando a lei", justifica Nader Sarkani, um funcionário da polícia, citado pela agência Irna.

B., o proprietário de um cabeleireiro na região leste de Teerã, não se sente seguro. Seu estabelecimento já foi fechado três vezes no último ano durante 15 dias, apesar de ele garantir que não fez cortes proibidos. "Um estilo apropriado para os jovens significa que o cabelo não fique solto", explica esse homem que agora recebe visitas quase diárias da polícia.

"Se estão tão preocupados com a corrupção na sociedade, porque não reprimem o tráfico de influências ou de drogas?" indaga Asie Amini, uma destacada ativista dos direitos humanos. Em sua opinião, a polícia só está protegendo as autoridades e o tema do hiyab (o véu islâmico) não é religioso e sim político. "O governo quer assustar as pessoas, em especial nesse momento, em que está submetido a uma grande pressão internacional e não deseja ser visto como fraco."

Mas com 60% da população com menos de 30 anos, suprimir o desejo de individualidade de toda uma geração pode ser complicado. Diferentemente de Siavosh, Sajede, uma fotógrafa de 24 anos, tinha conhecimento da campanha. Tanto é que na quarta-feira à noite, de volta para sua casa perto da praça Vali Asr, quando um policial aproximou-se dela para dizer que sua ropuch era curta demais, respondeu que não voltaria a usá-la e escapou por uma rua lateral, sem dar outra opção a ele.

"Já fui detida em setembro porque estava com uma túnica curta demais para o gosto do policial e não estava disposta a repetir a experiência", justifica antes de falar de seu calvário de cinco horas no comissariado contra a corrupção social, na rua Vozara, onde as jovens detidas por usar roupa muito justa esperam, junto de prostitutas e drogados. "A maioria chorava desconsoladamente", lembra Sajede.

E não é para menos. A primeira visita ao comissariado se encerra com a assinatura de uma declaração, segundo a qual as infratoras prometem respeitar a lei. Uma nova detenção inclui uma multa, mas a terceira acaba nos tribunais, que costumam castigar a rebeldia com um número variável de chibatadas. Mas depois de dois meses usando túnicas largas e sem forma, Sajede se voltou para os modelos com mais estilo: "A roupa reflete a minha personalidade e embora eu deva respeitar as normas, não me identifico com esses sacos sem forma que esse governo quer nos impor."

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    1,02
    3,178
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,90
    67.976,80
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host