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31/07/2008 - 00h01

Longos seqüestros afetam relações amorosas de libertados

El País
Pilar Lozano
"Levaram um homem e devolveram outro", afirmou com um toque de dor Lucy de Géchen, no dia em que anunciou o divórcio de seu marido, Jorge Eduardo. Tinham passado apenas quatro meses desde que ele, com 20 quilos a menos, cabelos esbranquiçados e aparência de muitos anos a mais do que realmente tinha, recuperara a liberdade depois de seis anos seqüestrado pela guerrilha Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). "Se apaixonou por outra", acrescentou Lucy sentida, como se lembrasse o longo tempo que esperou por seu marido.

AFP 
Ingrid Betancourt deu apenas um frio abraço no marido, no reencontro após a libertação

Não é um caso isolado. Os seqüestros, todos eles, causam um efeito emocional enorme. Tão grande que os sentimentos mudam. E se transformam no que está lá, isolado, humilhado, e no que fica sonhando com o abraço de boas vindas. Quarenta e oito por cento dos casais concordam que a dolorosa experiência afetou suas relações, como afirma a fundação País Livre, que tenta decifrar as mais profundas marcas deixadas pelo seqüestro, que na Colômbia prolifera com as Farc, o narcotráfico e a criminalidade comum. Foi o que disse Jorge Eduardo Géchen em um comunicado público: "Nossa separação é uma das seqüelas que nos deixaram esse seis anos de profundo sofrimento".

Na Colômbia não passou despercebida para ninguém a frieza, a indiferença com que Ingrid Betancourt saudou seu segundo marido, Juan Carlos Lecompte, ao chegar a Bogotá depois de seu resgate em 2 de julho passado. Ela viajou um dia depois para Paris e ele ficou em Bogotá. Para conter os rumores e as conjecturas, Lecompte deu a cara. Em uma entrevista ao jornal "El Tiempo", abriu sua alma: "Esperava um abraço forte", disse. "O amor por mim pode ter se acabado na selva." E afirmou que as fofocas sobre as supostas relações que ele teve podem ter levado a esse frio encontro.

A diretora da País Livre, Olga Lucía Gómez, explica graficamente o que acontece. "É um filme de vídeo; alguém dá pausa, pára o filme e entra em outro mundo. No momento de voltar, deseja que ao apertar de novo pausa continue rodando o mesmo filme; mas acontece que não é mais a mesma." É o mesmo processo que vivem as famílias. "Voltar a combinar esse acúmulo de vivências e sentimentos, colocá-los em um só caminho, é um tema muito complexo", afirma a psicóloga.

Os rumores sobre o que acontece aqui e lá estão na lista dos fatores que influem para que o desejado encontro não funcione. Há outros. Nas intermináveis horas de solidão há tempo para revisar, para avaliar cada expressão da relação. Às vezes essa reavaliação não coincide. E há a mudança de papéis. O homem volta e encontra sua mulher - antes tímida e dependente - transformada em hábil negociante, desenvolta em cenários públicos pois assumiu, em sua ausência, a bandeira contra o seqüestro, o manejo do dinheiro...

O choque também acontece com os filhos. O filho de um dos que continuam na selva confessou há pouco tempo: "Não sei se vou aceitar que meu pai me dê bronca quando ele voltar". O levaram quando ele era um estudante primário de 9 anos. Hoje é um universitário crescido. Mas para outros o impacto é ainda maior: voltam e um menino que nunca viram se pendura de seu pescoço e os chama de papai. Suas mulheres estavam grávidas quando partiram sua vida em dois.

Clara Rojas, seqüestrada com Ingrid Betancourt no início de 2002, afirma que retomar o fio da "novela em pausa" é mais fácil para o seqüestrado. "As famílias mudam mas estão no mesmo ambiente. Mas nós tivemos uma vivência totalmente diferente, difícil de explicar e conseguir que se entenda com a óptica daqui."

Sua experiência foi especialmente dramática. Dois anos depois do seqüestro soube que estava grávida de um guerrilheiro. Sempre quisera ser mãe. Nesse momento tinha 40 anos e pensou: "E se depois não surgir a oportunidade? Por isso não me coloquei a opção de abortar: decidi lutar por meu filho", conta, enquanto acaricia a pulseira cheia de imagens de virgens que ganhou de presente de um de seus irmãos. E foi uma decisão difícil de explicar aos que compartilhavam com ela um cárcere de arame no meio da selva. "Sobretudo os homens estavam inquietos, muito preocupados. Eu lhes disse: como nenhum de vocês é o pai, fiquem tranqüilos, o problema é todo meu. E tomei o controle de minha situação."

Hoje Clara está "se reinventando", como ela mesma diz. Dedica-se a escrever um livro sobre sua dura experiência. O resto do tempo emprega em consentir ao amor que nasceu lá. Emmanuel, de 4 anos, grandes olhos pretos e uma franja lisa sobre a testa. "A gente muda, torna-se mais prática, menos apaixonada. Me pergunto, entre outras coisas, se terei a capacidade de voltar a me apaixonar..." Diz isso como se pesasse cada palavra, no meio de um sorriso tímido. Tenta falar o mínimo. Acredita que é a maneira de "cicatrizar feridas".

"No seqüestro é preciso construir outra vida. Tem de ter algum sentido, algum significado o que se faz lá", afirma, enfática, Olga Lucía Gómez. Enquanto fuma, conta que muitos guardam os sentimentos, os bloqueiam - "se pensar muito em sua família, enfraquece" - e concentram toda a energia em sobreviver, enfrentar o presente. "Nas experiências limites, se você não canaliza os sentimentos de amor para algo ou alguém, há menos possibilidade de viver..."

E esse amor se canaliza às vezes para um companheiro de pesadelo. Uma ex-seqüestrada confessou a este jornal que teve opções de se envolver com reféns como ela, mas as recusou. "Todos eram homens casados e não sabíamos se realmente se esforçariam para mudar sua vida quando voltassem." Ela não queria somar outra dor ao seu calvário. Hoje se alegra. Alguns de seus companheiros "não visualizaram a encruzilhada que os esperava ao recobrar a liberdade e hoje sofrem diante de um novo dilema".

Esses amores que nascem no meio do seqüestro quase nunca sobrevivem. Perduram fortes laços de lealdade, se dilui a paixão. Dary Lucía Nieto, psicóloga da País Livre, fala de outras relações que ocorrem no âmbito da sobrevivência, que são difíceis de curar. As de afeto, de agradecimento, pelos captores que tiveram gestos mínimos de humanidade. Uma mulher, ela conta, chorava e tinha saudade do guerrilheiro que, no meio das eternas marchas pela selva, a carregava no ombro quando ela tinha os pés cheios de bolhas.

O tempo de separação imposto pelo seqüestro aos casais se transforma em uma espécie de interinidade afetiva, injusta de um lado e de outro. As mulheres dos 11 deputados assassinados pelas Farc depois de seis anos de cativeiro, várias delas jovens e bonitas, pintaram assim sua condição durante esse longo tempo de espera: "Não somos viúvas nem separadas nem casadas..." Muitos olhos estão fixos nos movimentos dos que ficam. As censuras chovem com o mais inocente gesto de flerte com o sexo oposto. As sogras se transformam em vigilantes da fidelidade de seus genros e noras; pensam que continuam sua vida muito à vontade.

Mas também há seqüestrados que não têm opção de tentar o reencontro. Um dos 11 soldados que voltou à vida junto com Ingrid Betancourt descobriu que sua mulher já tinha uma família com outro... E também aconteceu com o ex-chanceler Fernando Araujo, que foi seqüestrado quando estava estreando o segundo casamento com uma mulher bem mais moça. Pouco tempo depois começou a estranhar as mensagens dela por rádio - na Colômbia há programas dedicados a enviar mensagens para seqüestrados -, perguntou aos seqüestradores buscando respostas para o silêncio. Mas só quando voltou, seis anos depois, confirmou o que havia se negado a aceitar: ela era feliz ao lado de seu novo marido e seu pequeno filho. Hoje o ex-chanceler também reencontrou o amor. Como diz Olga Lucía Gómez, o seqüestro, que se vive e depois se assimila de diferentes maneiras, às vezes é possível esquecer, mas sempre deixa marcas.

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