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08/08/2008 - 00h01

Argumentos internacionais contra Pequim são os mesmos usados diante de Hitler

El País
Carlos Arribas
Em Pequim
Não se pode misturar esporte com política, afirmam nestes dias as autoridades olímpicas, que, assustadas com a possível reação do governo chinês, acabaram com a liberdade de expressão dos esportistas, proibindo-os de falar de assuntos tão interessantes quanto a repressão no Tibete - Cadel Evans, por exemplo, usou uma camiseta "Free Tibet" durante toda a Volta da França; não a usará em Pequim -, a intervenção chinesa na guerra de Darfur ou os direitos humanos. Não é uma voz nova.

O olimpismo prefere celebrar nestes dias o 40º aniversário dos Jogos do México, o punho erguido do "black power", Tommie Smith e John Carlos no pódio dos 200 m rasos, símbolo do poder do esporte para mudar a sociedade, mas a realidade, mais obstinada que os desejos, o obrigam a lembrar os jogos de 1936, os da Berlim nazista enfeitada de suásticas até a náusea, e não somente para falar da bela parábola das vitórias do negro Jesse Owens no altar da exaltação do ariano, e de sua admirável amizade com o louro Lutz Long, atletas que só se moviam por altos ideais e não por dinheiro, como os de hoje, as histórias que passaram à história e que servem para que muitos lembrem os jogos de 1936 como um oásis de pureza, tolerância e bom jogo em meio aos 12 anos de pesadelo nazista, e que alimentaram o mito do espírito olímpico.

Ou poderiam comemorar o primeiro centenário dos Jogos de Londres de 1908, os primeiros em que as Olimpíadas começaram a servir de medida da vitalidade nacional: uma guerra sem armas, os primeiros em que os participantes desfilaram agrupados por países atrás de suas bandeiras. Naquele ano os americanos se negaram a inclinar sua bandeira ao passar diante do rei Eduardo VII e sua consorte, os representantes da metrópole.

"Não se pode misturar política com esporte. A única oportunidade de sobrevivência do movimento olímpico é manter-se alheio à política", proclamou em 1934 o presidente do Comitê Olímpico dos EUA, Avery Brundage, que ficou milionário com a construção imobiliária na Chicago dos anos 20, um paraíso de corrupção e subornos. E o belga Henry Baillet-Latour, então presidente do COI, também acreditava nisso: o olimpismo nunca deveria entrar na política, com uma exceção: no caso de uma infiltração comunista nos Jogos, que deveria ser evitada a todo custo.

Os dois dirigentes esportivos se esforçaram para impor sua mensagem nos anos que antecederam os Jogos de Berlim para frear o que consideravam uma catástrofe: a possibilidade de um boicote. Era a primeira vez que um movimento de protesto internacional pró-boicote, nascido entre a comunidade judia americana, ameaçava uma cidade escolhida para celebrar os Jogos.

Não venceu, mas por pouco, e principalmente pelo silêncio dos governos das grandes potências, o silêncio de Frank Delano Roosevelt, temeroso de alimentar o voto da direita reacionária dos EUA, o silêncio do governo britânico, partidário de não incomodar Hitler, melhor apaziguar que aborrecer, o silêncio da França, onde um protesto pró-boicote no Parlamento só contou com os votos da esquerda. Os mesmos argumentos dos Bush, Sarkozy, Merkel do século 21, que continuam preferindo, como então, a política de gestos.

Os jogos foram concedidos a Berlim em 1931, quando a Alemanha ainda era uma democracia formal - os nazistas ganharam as eleições em 1932 e Hitler ascendeu ao poder um ano depois - e porque o congresso do COI que deveria escolher a sede foi realizado em Barcelona uma semana depois da proclamação da República espanhola. O caos na capital catalã impediu o quórum necessário. A votação foi realizada por telefone. Ganhou Berim. Em Barcelona, as forças revolucionárias convocaram jogos populares paralelos. Infelizmente, deveriam começar em 19 de julho de 1936. Muitos esportistas fugiram da guerra civil. Outros, comprometidos, ficaram combatendo com as tropas da República.

Enquanto isso em Berlim se desenvolveu a farsa olímpica. Temporariamente as SA deixaram de fustigar os judeus. Por outro lado, um judeu participou, simbolicamente, da equipe alemã. Jesse Owens, um negro, ganhou quatro medalhas. Hitler negou-se a cumprimentá-lo. A imprensa alemã o descreveu como um animal: a vantagem genética dos habitantes da selva. E 72 anos depois, sempre que um negro ganha, ainda se lembram suas vantagens genéticas.

À parte de Owens, nos Jogos de 36 competiu Werner Seelenbinder, um lutador membro do partido comunista e de um clube de trabalhadores. Obrigado a se inscrever em um clube burguês, proclamou-se campeão da Alemanha em 1933, e no pódio se negou a fazer a obrigatória saudação nazista. Foi detido, mas o oficial da Gestapo que o interrogou era fã de luta livre e o libertou. Ganhou sua seleção para as Olimpíadas e prometeu, de acordo com seus camaradas, que se ganhasse faria um discurso antinazista e pró-liberdade na entrevista coletiva posterior à vitória, mas terminou em quarto lugar. Na guerra o detiveram por proteger um fugitivo comunista. Foi enforcado em Brandemburgo em outubro de 1944.

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