UOL Notícias Internacional
 

18/10/2008

Os santuários do terror no Peru

El País
Jaime Cordero
Em Lima
O fantasma do Sendero Luminoso ainda assusta. O grupo terrorista que mergulhou todo o Peru no terror e provocou uma guerra interna que causou cerca de 60 mil vítimas entre 1980 e meados dos anos 1990, de acordo com a Comissão da Verdade e Reconciliação, foi derrotado em sua tentativa de tomar o poder, mas não aniquilado. Seus remanescentes sobrevivem em duas importantes bacias "cocaleras" [de plantação de coca]. Longe dos centros urbanos, do foco da imprensa e dos grandes atentados, mas ainda capazes de atacar graças ao fator surpresa e a seu conhecimento do terreno, como ficou demonstrado em 9 de outubro passado. Nesse dia, um comboio de caminhões militares foi emboscado no distrito de Tintay Punco, um lugar tão afastado que a notícia do ataque só chegou à capital, Lima, no dia seguinte.

Morreram 16 pessoas, entre elas 13 soldados. Foi o golpe mais duro do Sendero contra as forças de segurança peruanas em quase uma década. E abalou o governo no pior momento possível, quando um escândalo de corrupção (o Petrogate) estava prestes a causar a queda do gabinete de Alan García. De repente o terrorismo ressurgia como mais uma dor de cabeça.

O que resta do Sendero não é muito. As autoridades falam em menos de 500 homens distribuídos em duas regiões de selva: o vale do Alto Huallaga, no norte, e o vale dos rios Apurímac e Ene, mais conhecido por sua sigla, VRAE, situado na região centro-sul. Ambas, sobretudo o VRAE, são zonas agrestes, muito pobres e de difícil acesso. Também são as regiões mais importantes de produção de folha de coca no país, e o Sendero opera nelas desde o início de sua luta armada. Mas com o tempo parece ter mudado de orientação.

"A partir de 2000 estabeleceu uma aliança com os traficantes de droga, mas de 2004 em diante se transformou em uma empresa de narcotráfico", indica o pesquisador Jaime Antezana. Segundo ele, o marco ideológico maoísta e o objetivo de tomar o poder pelas armas ficaram de lado e se mantêm apenas em termos de retórica. "O Sendero não está ressurgindo, agora estamos enfrentando um ciclo de violência diferente, o narco-senderismo", enfatiza.

"A relação entre terrorismo e narcotráfico não é nova, começou em 1984, quando o Sendero ingressou nas áreas de coca em busca de financiamento", indica Rubén Vargas, outro especialista no tema. Antezana explica que o que começou como um acordo de proteção aos plantadores de coca e os traficantes locais logo derivou em uma aliança e finalmente em um negócio próprio, no estilo das Farc colombianas. "Atualmente têm suas próprias plantações e poços de maceração para elaborar a pasta-base de cocaína, por isso agora se fortaleceram e contam com armamento moderno", afirma.

Sua força renovada ficou demonstrada não só em Tintay Punco, como também em outros atentados de menor porte. O ponto nevrálgico da atividade senderista é a localidade de Vizcatán, situada no coração do VRAE, uma zona que foi dominada pelo Sendero durante décadas e na qual o exército - encarregado da frente VRAE, mas não do Huallaga, da qual se ocupa a polícia - iniciou em agosto uma ofensiva que retomou o controle da zona, mas não conseguiu aniquilar nenhuma coluna importante nem capturar os chefes, que se retiraram para áreas vizinhas como a província de Tayacaja, onde se situa Tintay Punco. Desde então houve pelo menos três ataques do Sendero na região, mas a decisão do governo e dos comandos militares é de não se retirar.

"Obviamente, recuperar um território ocupado há mais de uma década é difícil", afirma Vargas. "Além disso, falar da força do Sendero na região é muito arbitrário. O Ministério da Defesa diz que se trata de 300 homens armados, mas a estrutura maoísta entrou nas comunidades. Há bases e comitês de apoio que não têm o fuzil nas mãos, mas dão apoio logístico. Já não se trata de uma adesão ideológica, mas pragmática." A coca é a fonte de sustento para muitos moradores desses vales e também a coluna vertebral de um problema que tem cada vez menos a ver com Marx, Lênin e Mao, e mais com o grande capitalismo da droga.

Um caminho que se bifurca

Do Sendero Luminoso liderado por Abimael Guzmán resta muito pouco. Nem sequer se pode falar de uma coordenação entre seus remanescentes. Depois da captura de Guzmán e a maior parte de sua cúpula em 1992, o grupo terrorista começou a se dividir e hoje as duas facções compartilham apenas o nome e pouco mais. As colunas do VRAE, sob o comando de dois homens conhecidos por "José" e "Alípio" inclusive renegaram seu antigo líder e fundador, que chamaram de "revisionista, capitulador e traidor", depois que ele colocou a possibilidade de uma "solução política" que pusesse fim ao conflito em troca da libertação dos senderistas presos. "Artemio", líder em Huallaga e o único membro da antiga cúpula senderista que continua em liberdade, se pronunciou a favor da solução política e pelo menos em teoria se mantém fiel a Guzmán, preso há 16 anos na base naval de Callao.

Suas fileiras são as que receberam os piores golpes por parte das forças de segurança. Nos últimos três anos, três de seus lugar-tenentes foram abatidos em confrontos com a polícia, e suas colunas estão recuadas. Em várias ocasiões as autoridades afirmaram estar prestes a capturá-lo, mas ainda não conseguiram. Sua última "ação armada" consistiu em chamar por telefone uma rádio para anunciar que não deixará as armas, mas ao mesmo tempo insistiu em pedir ao governo uma saída política para o conflito.

No que as duas facções se parecem é em seus novos métodos. Já não impõem o terror às comunidades assassinando autoridades civis ou destruindo infra-estruturas. Suas ações armadas são dirigidas contra as forças de segurança e tentam se posicionar como promotores e defensores do direito a plantar coca. Dessa maneira conseguiram se mimetizar entre as populações que vivem desse cultivo. O que resta do Sendero Luminoso, convertido ao narcotráfico, se refugia em duas importantes áreas de produção de coca na selva peruana

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