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21/10/2008

Michael Burleigh, historiador: "A tolerância multicultural européia ajuda os terroristas"

El País
Pere Rusiñol
Em Madri
Michael Burleigh, historiador britânico de 53 anos, é fleumático e nunca eleva a voz. Mas é um interlocutor implacável, curtido em mil debates e com anos nas costas de batalhas contra a esquerda e o politicamente correto. Seu tema é o terrorismo e sua erudição ficou clara em "Sangre y rabia - Una historia cultural del terrorismo" (ed. Taurus), que lança nestes dias em Madri. "A tolerância multicultural das sociedades européias ajuda os terroristas", conclui Burleigh, que contrapõe a sociedade britânica ao "cosmopolitismo" dos EUA.

"A tolerância multicultural é uma construção da esquerda liberal", aponta esse pensador formado em Oxford e na Escola de Economia de Londres. O multiculturalismo contra o qual ele adverte é o seguinte: "É uma ideologia que reduz a complexidade e divide a sociedade em tribos confrontadas com uma única identidade. Por exemplo, se você é muçulmano não pode ser gay, e será representado diante do governo por um autoproclamado líder tribal com um discurso vitimista". "Esse entorno facilita o arraigamento do discurso da reclamação que alimenta os terroristas", acrescenta. Para sua indignação, os governos europeus costumam promover esse multiculturalismo: "Sempre se defende a interlocução com os autoproclamados líderes tribais, com o que se reforça sua visão monolítica da comunidade com seus inimigos e se agrava o problema", afirma depois de criticar o jornal "The Guardian" e outros templos do progressismo britânico, que considera contemporizadores demais com o islamismo radical que alimenta de terroristas a Al Qaeda e outras organizações. Na sua opinião, é um erro chamá-las de "islamo-fascistas" porque seu exemplo, sustenta, é o bolchevismo: "Há uma pequena elite e um líder supremo que devem iluminar uma grande massa ignorante", declara.

Burleigh não oculta seu "conservadorismo realista, cético diante dos neoconservadores", mas sobretudo indignado diante do "antiamericanismo" da esquerda européia: "O compromisso dos EUA em relação à segurança européia permitiu que a Europa poupasse não poucos recursos em termos de defesa para destiná-los aos programas de saúde e bem-estar social", afirma. Ele foi contra a invasão do Iraque, mas considera absurdo continuar envolvidos nesse debate porque na sua opinião agora trata-se de evitar que a Al Qaeda obtenha armas de destruição em massa. Por isso aponta o Paquistão, que dispõe de armas nucleares, como a principal frente na luta antiterrorista.

O trabalho de Burleigh tem intenções enciclopédicas e tenta destrinchar os elementos culturais comuns entre um anarquista do final do século 19 e um jihadista do início do século 21, passando por revolucionários de 1968 e libertadores de todo tipo de nações, incluindo a basca. Por mais diferentes que sejam quanto à formação e ideologia, todos compartilham algo: "Têm uma visão romântica de si mesmos: estão convencidos de que eles em particular vão dar um grande empurrão na história".

A ideologia fica então em segundo plano. "É utilizada para explicar as ações, mas não é o importante", opina. E acrescenta: "Não compartilho os slogans que dizem que sempre é bom falar. De que se pode falar com a Al Qaeda? Sobre o que se pode negociar?", pergunta-se. Mas não foi a negociação que conseguiu acabar com o IRA? Não, na opinião de Burleigh, que afirma que as lições que se tiram do fim do IRA são exatamente as contrárias e que a Espanha deveria tomar nota disso para lidar com a ETA. "O IRA foi derrotado porque foi totalmente infiltrado pela espionagem britânica", aponta. "A derrota militar foi total e depois se procurou uma maneira de ajudá-los a abandonar as armas", acrescenta. E conclui: "Sempre é preciso oferecer uma saída [aos terroristas], mas antes é preciso derrotá-los". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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