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22/10/2008

Martti Ahtisaari, prêmio Nobel da Paz: "Não pode haver reconciliação se não há paz"

El País
Walter Oppenheimer
Em Londres
É no final da entrevista que Martti Ahtisaari, 71 anos, realmente mostra por que acaba de ganhar o Prêmio Nobel da Paz como mediador internacional: seu aperto de mão é ao mesmo tempo firme e enérgico, cálido e carinhoso. É o aperto de mão de um homem no qual se pode confiar. E que não sabe o que é arrogância: "Minha mulher me fala de uma poetisa russa que explicava que tinha conhecido os favores e os desfavores, e que não há diferença entre ambos. Creio que é bom ter isso presente".

El País - O que é mais importante, paz ou reconciliação?
Martti Ahtisaari -
Não pode haver reconciliação se não há paz. É muito difícil começar atividades de reconciliação quando não se deixou de batalhar. A reconciliação é absolutamente vital. Não somos nós que fazemos a reconciliação, os locais a fazem. Nós, estrangeiros, podemos dar apoio e talvez explicar a metodologia, mas é só um papel técnico. Mas primeiro é preciso conseguir a paz, e é um processo muito, muito longo.

EP - O senhor se considera um político ou um diplomata?

Ahtisaari -
Na realidade, nenhum dos dois. Sou um profissional no que faço. Não sou um político. Fui membro de um partido político e me candidatei por esse partido à presidência, mas nunca exerci nenhum cargo político antes de me candidatar. Não tenho absolutamente nada contra me chamarem de diplomata, mas talvez devesse me definir como um funcionário público profissional, tanto em nível nacional como internacional.

EP - Namíbia, Aceh, Kosovo, Irlanda do Norte... De que mediação o senhor guarda uma melhor lembrança?

Ahtisaari -
Da Namíbia, sem dúvida, porque exigiu muito tempo. E porque ajudou a velha África do Sul a perceber que também poderia resolver seus problemas internos. Se você falar com as pessoas que hoje estão no poder, todas lhe dirão que sem a Namíbia a mudança não teria ocorrido tão depressa.

EP - Há algum ponto em comum em todos esses conflitos?
Ahtisaari -
A única coisa que têm em comum é que todos são difíceis.

EP - Há algum tipo de princípios gerais para resolvê-los?

Ahtisaari -
É preciso ser justo. Um colega me perguntou certa vez como eu conseguia manter o equilíbrio entre as partes quando estas eram muito desiguais. Eu lhe disse: "Não posso, nem quero". Meu trabalho é que no final haja um acordo justo. Para mim, o importante é que eu mesmo considere aceitáveis as propostas que apresento.

EP - Quer dizer que procura tanto fazer justiça quanto acabar com um problema?

Ahtisaari -
Sim, justiça sim. Muitas vezes as negociações são entre o opressor e a vítima, pelo menos em termos relativos. Os dois podem ter cometido erros, mas isso ocorre com muita freqüência. Em Kosovo também. Suprimiram a autonomia, expulsaram os albaneses de seus empregos e obrigaram as pessoas a abandonar o país ou fugir para as montanhas. E a Otan teve de intervir, porque as pessoas na Europa começaram a dizer que já bastava. Se a Sérvia tiver um direito de veto quando na realidade é culpada, não se faria justiça.

EP - O senhor diz que os alemães enfrentaram seu passado, mas muitos outros não o fizeram. E os espanhóis? O que acha da iniciativa do juiz Baltasar Garzón de abrir um processo contra o franquismo?

Ahtisaari -
É muito fácil criticar outros olhando de fora. Mas, aqui onde estou, não poderia jurar que sou uma pessoa tão justa que, se tivesse nascido na África do Sul, teria escolhido o lado bom e teria resistido à opressão. E me dá medo pensar o que teria feito se tivesse nascido nos anos 30 na Alemanha. Tenho a sorte de vir de uma das sociedades mais democráticas do mundo [Finlândia], na qual sempre se respeitou o império da lei e temos um sistema educacional maravilhoso. Nunca me apressei a criticar as pessoas ou as soluções que propõem.

EP - Neste momento o senhor está trabalhando de alguma maneira no problema do Iraque.

Ahtisaari -
Estamos ajudando a pôr em prática uma idéia genial de um professor irlandês da Universidade de Massachusetts que propôs que as facções iraquianas conhecessem as pessoas que lutaram na Irlanda do Norte e na África do Sul e acabaram negociando.

EP - Acredita que seja necessária uma mediação no Afeganistão?
Ahtisaari -
Há cada vez mais gente que se coloca essa questão, que pensa que não há uma solução militar para o Afeganistão. Cada conflito tem uma solução. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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