UOL Notícias Internacional
 

22/10/2008

O desvio autoritário de Ortega

El País
Maite Rico
Em Madri
"Ou aceitamos sem reclamar a dominação do atual governo ou, se resistirmos, sua vingança será longa e incessante até nos destruir." A escritora Gioconda Belli descreve assim a "encruzilhada" em que se encontram os nicaragüenses. Suas palavras foram espicaçadas pela perseguição judicial contra o jornalista Carlos Fernando Chamorro e oito ONGs. Mais um capítulo da ofensiva desatada pelo presidente Daniel Ortega contra intelectuais, partidos, meios de comunicação e movimentos sociais críticos do seu governo. Pela mão do líder da Frente Sandinista e sua família, a Nicarágua se dirige, segundo a oposição, para uma ditadura institucional.

No último dia 12, o Ministério Público invadiu em Manágua a sede do Centro de Pesquisa da Comunicação, dirigido por Carlos Fernando Chamorro, e confiscou os arquivos da fundação e cinco computadores. O governo o acusa de "triangular" fundos internacionais com o Movimento Autônomo de Mulheres (Mam). "Estão fabricando um caso", diz Chamorro, que denuncia a violação de todas as garantias legais.

O assédio contra o jornalista, filho do legendário Pedro Joaquín Chamorro, diretor do jornal "La Prensa" assassinado em 1978 pela ditadura somozista, começou em junho, depois que ele revelou escândalos de corrupção que salpicavam o governo. Uma campanha difamatória na mídia oficial, controlada por Rosario Murillo, mulher de Daniel Ortega, e seus filhos, deu lugar à atuação da promotoria.

A mesma sorte estão tendo no Mam outros grupos feministas, muito combativos contra a criminalização do aborto terapêutico, decidida por Ortega, e no apoio a sua enteada, Zoilamérica Narváez, que denunciou o presidente por abusos sexuais. A Coordenadoria Civil também está encostada nas cordas. "A promotoria nos citou, mas não sabemos na qualidade de quê, porque somos uma plataforma de 600 organizações", explica Georgina Muñoz. A Coordenadoria convocou uma marcha realizada em julho para protestar contra a situação do país, com um desemprego de 60% e uma inflação de 12%.

"Ortega quer silenciar as vozes críticas ao seu projeto autoritário", diz um diretor de "La Prensa" que pede o anonimato. O próprio jornal foi submetido a dois processos por difamação. A Repórteres Sem Fronteiras denuncia que Ortega "está instrumentalizando a justiça para saldar contas políticas". Graças ao pacto selado entre Ortega e o ex-presidente direitista Arnoldo Alemán (condenado por corrupção e hoje em liberdade), o governo tem "o controle absoluto do poder judiciário", salienta essa fonte. "A Frente Sandinista e o Partido Liberal dividiram os órgãos meio a meio, desde a Suprema Corte até o Conselho Eleitoral.

Mas os sandinistas, mais hábeis, os controlam de fato." O que ocorreu no Conselho Eleitoral é significativo: "Três membros são sandinistas e três, liberais. O sétimo foi pedido pela Igreja e o cardeal Miguel Obando colocou um parente dele aliado à Frente."

Esse Conselho tornou ilegal, alguns meses antes das eleições municipais de 9 de novembro próximo, duas formações de oposição, o Partido Conservador e o Movimento Renovador Sandinista, formado por dissidentes da Frente. "O mais interessante é que o inimigo mais duro de Daniel Ortega são os ex-sandinistas", comenta o jornalista Álvaro Cruz. Eles, junto com a imprensa e os movimentos sociais, estão preenchendo o vácuo da oposição política. E para aí apontam as baterias do governo, como bem sabem o poeta Ernesto Cardenal ou os cantores Carlos e Luis Mejía Godoy. Outras 39 personalidades, como o ex-presidente Enrique Bolaños ou o liberal "dissidente" Eduardo Montealegre, estão submetidos a processos judiciais.

Às vezes os tribunais não são necessários. A intimidação silenciou o comentarista Edgar Tijerino, uma verdadeira instituição na Nicarágua, e o programa "El 2 en la Nación", que o jornalista Jaime Arellano tinha no Canal 2.

"Contudo, o mais preocupante é o ressurgimento da violência contra a oposição, como ocorreu recentemente em León", comenta Álvaro Cruz. Os chamados Conselhos do Poder Cidadão, criados segundo as pautas do regime cubano, estão sendo usados como grupos de choque, uma espécie de reedição das turbas do primeiro governo sandinista. "As pessoas estão se enchendo de medo", diz Cruz. O presidente da Nicarágua intensifica a perseguição judicial contra jornalistas e ativistas a menos de um mês das eleições municipais Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host