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23/10/2008

"Talvez a mulher precise de menos cérebro para ter a mesma inteligência", afirma especialista

El País
Alicia Rivera
Em Madri
Richard J. Hailer, especialista em neurologia pediátrica, pesquisa em que os cérebros dos homens e os das mulheres são diferentes. Primeiro em busca de informação neurológica básica, mas também para abrir caminho para o estudo dos danos cerebrais e algumas soluções. A importância de seu trabalho está exatamente nisso, salienta, embora muitas vezes lhe façam piadas do tipo: "O que diferencia os cérebros de um homem e de uma mulher? As compras, ou a dificuldade para estacionar".

Hailer, 59 anos, professor emérito de neurologia pediátrica da Universidade da Califórnia em Irving e especialista em estudos do cérebro com técnicas avançadas de imagem, está fazendo conferências na Espanha a convite da Fundação La Caixa.

El País - O que diferencia os cérebros dos homens e das mulheres?

Richard J. Hailer -
É preciso distinguir duas coisas. Por um lado há as características físicas do cérebro, e se apreciam diferenças; a mais óbvia é que o tamanho médio do dos homens é maior. A segunda questão é se essas diferenças se relacionam ou não com outras mentais, porque homens e mulheres podem ter inteligência equivalente apesar de a média do volume cerebral dos primeiros ser maior. Talvez as mulheres não precisem de tanta quantidade de cérebro para ser igualmente inteligentes.

EP - Para que servem essas comparações?

Hailer -
A evolução gerou pelo menos duas formas de organização do cérebro para fazer as mesmas atividades mentais. E isso é muito importante quando ocorrem danos no cérebro. Por exemplo, quando uma mulher sofre um infarto cerebral em determinada zona, pode sofrer conseqüências cognitivas diferentes do que se o mesmo dano ocorrer na mesma parte do cérebro de um homem. E se o cérebro tem formas diferentes de fazer as mesmas coisas e alguém sofre um dano em uma área do cérebro pode haver maneiras de reabilitar outras áreas que compensem essa lesão.

EP - A base dessas diferenças é genética?

Hailer -
No século 21 não falamos mais em base genética ou de influência do ambiente. São conceitos do século passado. Sabemos que os genes se ativam e desativam ao longo de toda a vida. Os mecanismos são muito complexos e só agora começam a ser compreendidos, mas sabemos que os fatores ambientais contribuem para a ativação e a desativação de alguns genes. Os genes se expressam dependendo em parte do entorno.

EP - Há diferenças em patologias mentais entre homens e mulheres?

Hailer -
Algumas doenças ocorrem com maior freqüência em homens e outras em mulheres, como o autismo, que afeta muito mais homens. Em troca, a depressão parece ser mais comum em mulheres.

EP - Como os cientistas detectam essas diferenças cerebrais por sexo?
Hailer -
Mediante técnicas de imagem. Com diferentes tipos de ressonância magnética pode-se ver a estrutura cerebral ou as funções, com a tomografia por emissão de positrons vemos o uso energético do cérebro... Com todas essas técnicas se apreciam diferenças entre homens e mulheres, mas lembre que essas são só uma parte e a outra é relacioná-las com as capacidades mentais, o que é mais difícil. Nossas pesquisas mostram que quando relacionamos características do cérebro com os testes de quociente de inteligência (QI) estão envolvidas áreas diferentes nos homens e nas mulheres, mesmo que ambos tenham o mesmo QI.

EP - Essas diferenças podem ser utilizadas como argumento de discriminação?

Hailer -
O conhecimento que temos dessas diferenças atua contra a discriminação: vimos que na maioria dos aspectos homens e mulheres são iguais, e algumas poucas coisas diferentes às vezes são a favor das mulheres.

EP - Além do volume cerebral, que outras diferenças marcantes existem?

Hailer -
Por exemplo, as fibras que conectam os dois hemisférios do cérebro são mais grossas nas mulheres, parece que elas têm mais conexão entre a parte esquerda e direita. Ainda não entendemos exatamente o que isso significa. Todo o cérebro funciona em conjunto, como uma orquestra. O que não está claro é como o regente atua. E essa organização da orquestra pode ser diferente em homens e em mulheres, dependendo da tarefa cerebral que se esteja realizando, inclusive com diferentes áreas ativadas.

EP - As diferenças já são notadas entre meninos e meninas?

Hailer -
Começam na infância, mas algumas não são óbvias então, como a habilidade aritmética. Os meninos e as meninas são iguais nisso, mas depois parece que os homens se dedicam mais às matemáticas avançadas que as mulheres. Essa diferença se verifica sobretudo no extremo da distribuição de população, em pessoas com renda muito alta.

EP - E os homossexuais?

Hailer -
Esse é um tema do qual não tenho conhecimentos, e como cientista devo lhe dar respostas baseadas em dados e em conhecimentos.

EP - Os cérebros de fêmeas e machos de outros primatas são diferentes?

Hailer -
Também não tenho conhecimentos sobre isso.

EP - O que é a inteligência?

Hailer -
É o que uma pessoa faz quando não sabe o que fazer. Eu chego a Madri, falo muito pouco ou nada de espanhol e não sei o que fazer; alguém que me vê pensa que sou idiota. Mas com inteligência posso averiguar como seguir em frente. Outra definição se baseia nas diferenças em aprendizado, memória e raciocínio.

EP - Mas ambas as definições parecem a mesma, porque o senhor averigua o que fazer em uma situação desconhecida aproveitando a experiência, a memória, o raciocínio...

Hailer -
Sim, uma é uma definição mais formal que a outra da mesma coisa. Alguns indivíduos lembram mais que outros, alguns aprendem mais rápido que outros e alguns raciocinam melhor que outros. Chamamos essas diferenças de inteligência. Mas pode haver outras definições de inteligência.

EP - Mente e cérebro se distinguem?

Hailer -
Seja o que for a mente, procede do cérebro. Não tem muito sentido fazer essa distinção, muito pouca gente considera essa dualidade. Com as técnicas de imagem cerebral estudamos a consciência. O anestesista o deixa inconsciente através de substâncias farmacológicas quando vai operá-lo, e ao acabar a cirurgia o faz recuperar a consciência. Como esses fármacos funcionam no cérebro? Estudamos isso anestesiando pessoas e aplicando técnicas de imagem para tentar entender as áreas do cérebro que são ativadas e desativadas quando o indivíduo está consciente ou inconsciente, assim como o interruptor que os fármacos ativam ou desativam. Estamos pesquisando isso, mas é muito difícil.

EP - As diferenças cerebrais entre homens e mulheres são maiores que a diversidade entre indivíduos da espécie?

Hailer -
Na maioria das tarefas, as diferenças entre a população são superiores às diferenças entre homens e mulheres, embora haja algumas características específicas.

EP - Em que tarefas eles e elas são melhores ou piores?

Hailer -
Há certas tarefas verbais em que as mulheres são melhores que os homens. Mas a maior diferença está em determinadas habilidades de visualização espacial, nas quais os homens, sobretudo na faixa superior de renda, são melhores que as mulheres. Isso talvez explique por que há muitas mulheres em todos os campos da ciência - 50% ou mais nas ciências da vida -, mas não em matemáticas, física e engenharia. É polêmico se isso se deve a razões sociais ou culturais, ou realmente a diferenças nessas habilidades de raciocínio matemático e espacial.

EP - E entre grupos étnicos, se verificam distinções cerebrais, por exemplo, entre a população branca e a negra?

Hailer -
Isso é muito, muito complexo, não tenho dados a respeito.

EP - Há alguns meses o prêmio Nobel James Watson fez declarações muito controversas por seu teor racista.

Hailer -
É complexo. Parece que pode haver alguma diferença entre alguns grupos de pessoas, mas não está claro o que causa essas diferenças, se são do entorno, da educação, da diferença entre ricos e pobres... Antes precisamos explicar, por exemplo, como a educação aumenta a inteligência. Sabemos que a educação geral beneficia todo mundo, mas não sabemos como isso funciona em nível cerebral. Estive com Watson há pouco tempo em uma reunião; ele não é racista, creio que nesse tema é muito fácil ser mal interpretado. Entrevista com Richard J. Hailer, especialista em neurologia da Universidade da Califórnia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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