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24/10/2008

Idosos hiperativos

El País
Joan Carles Ambrojo
Inquietação, nervosismo, não conseguir parar... Quando esses sintomas são observados em pessoas mais velhas, nem sempre são a expressão de um mal-estar esporádico. Elas podem sofrer um transtorno de hiperatividade e déficit de atenção, ou TDAH na sigla em inglês. Em metade das crianças diagnosticadas com TDAH, o transtorno persiste na idade adulta e pode se prolongar até idades avançadas. São os idosos hiperativos.

Eles não sobem nas mesas nem nas árvores de forma inadequada, como algumas crianças, não quebram os objetos que caem em suas mãos, mas algumas pessoas chegam a idades avançadas levando nas costas um transtorno por hiperatividade e déficit de atenção.

A hiperatividade começa na infância, a partir dos 5 anos, e a prevalência se situa entre 3,5 e 4% da população. Sabe-se que em mais de 50% das crianças diagnosticadas o transtorno persistirá na idade adulta. "É de se esperar que encontremos esse tipo de pessoas nos hospitais geriátricos", diz Ramos Quiroga, psiquiatra coordenador do programa de adultos com TDAH do Hospital Universitário Vall d'Hebron de Barcelona.

Mas há uma nuance muito importante: a sintomatologia da hiperatividade se modifica com a entrada na idade adulta. "Vemos que permanecem a desatenção, os problemas de concentração e de rendimento cognitivo; mas a hiperatividade se transforma, de forma que os adultos vivem com uma sensação de preocupação, de nervosismo interno", explica Antonio Terán Prieto, diretor da Unidade de Alcoolismo e Dependência de Drogas do Centro Assistencial San Juan de Dios de Palencia.

Os adultos com TDAH têm problemas para manter a atenção e organizar o dia-a-dia; são esquecidos, qualquer estímulo os distrai; podem chegar a falar muito e de repente cortar a conversa dos outros. O diagnóstico melhorou muito nos últimos anos. Mas muitas pessoas hiperativas que hoje têm 65-70 anos não foram diagnosticadas e portanto não receberam tratamento. Com freqüência a descoberta do transtorno é casual, "muitas vezes porque diagnosticamos com TDAH um descendente dessa pessoa, um filho ou um neto". A hiperatividade tem um elevado componente genético; por esse motivo, quando os psiquiatras diagnosticam um familiar que diz que seu pai era igual, "suspeitamos que pode ter tido TDAH", acrescenta Terán.

No Hospital Vall d'Hebron estão realizando um estudo com pacientes hiperativos entre 55 e 75 anos. "A metade deles esteve em tratamento por ansiedade ou consumo de álcool e foi encaminhada ao nosso serviço. São pessoas que têm dificuldade para se descontrair e sempre citam sintomas de desatenção: têm a sensação de que nunca conseguiram ler um livro inteiro nem se concentrar em uma tarefa por mais de 15 minutos", explica Ramos Quiroga.

É o caso de um paciente de 64 anos de família de classe média. Nunca teve uma parceira fixa, acreditava que não podia conviver com ninguém devido à sua vida caótica e desordenada; considerava-se inteligente e que poderia ter feito muito mais na vida, mas era incapaz da menor organização. Acabou trabalhando como zelador.

Esse grupo de pacientes mais velhos recebe o mesmo tratamento que os hiperativos jovens ou crianças. São tratados com metilfenidato, um psicoestimulante. Setenta por cento deles respondem bem e os primeiros resultados já são observados na segunda semana: diminui a inquietação interior e ocorre um maior relaxamento, "sem a sensação de carregar um foguete que os impede de parar quietos", acrescenta Quiroga. O ideal é conseguir diagnosticar esse transtorno na infância: "Os estudos demonstraram que o tratamento farmacológico reduz em cinco vezes o risco de consumo de tóxicos na adolescência".

Outro problema para diagnosticar corretamente o transtorno de hiperatividade e déficit de atenção em idades avançadas é que pode ser confundido com outras patologias. "Como transtorno do desenvolvimento que é, sabemos que durante a etapa de vulnerabilidade podemos tentar influir no desenvolvimento da doença. Mas a partir de uma determinada idade, em uma pessoa com certa maturidade emocional, só podemos trabalhar para compensar os sintomas e não para influir na evolução da doença", afirma Javier Quintero, psiquiatra do Hospital Infanta Leonor de Madri.

"Está demorando para que os psiquiatras entendam que às vezes têm pela frente um paciente de 30 anos com uma máscara ansiosa ou depressiva, mas nos quais realmente por trás existe um TDAH. Vencer a barreira até pacientes de 70 anos em curto prazo parece difícil. "Além disso, é preciso levar em conta que muitos desses sintomas em idade mais avançada se ocultam como transtornos do tipo cognitivo leve", conclui Quintero.

"É preciso ser cautelosos", confessa Terán, "porque os sintomas de desatenção e de ansiedade ou inquietação podem se dever a inúmeros transtornos relacionados à idade. Por exemplo, essa pessoa pode sofrer um quadro depressivo e de ansiedade relacionado com a dor crônica por osteoporose ou artrose; pode acusar a perda de faculdades ou ser conseqüência de uma involução senil; também pode ser por solidão, em conseqüência da perda de seres queridos."

Por isso Terán é partidário de tratar os sintomas associados à co-morbidade: "Quando temos um idoso com um quadro de ansiedade manifesta ou de inquietação e tem antecedentes familiares ou descendentes com um problema semelhante, devemos suspeitar que possa haver um transtorno por hiperatividade e déficit de atenção. Isso vai nos orientar para o tratamento do quadro depressivo ou ansioso, pois significa que está há muito tempo com um déficit dos neurotransmissores dopamina e noradrenalina em seu cérebro. Nesses casos, se prescreve um antidepressivo específico para o déficit desses neurotransmissores, com o objetivo de combater a depressão e não a hiperatividade". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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