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25/10/2008

"Fui o único sobrevivente de uma chacina", diz filho de desaparecidos argentinos

El País
Carmen Pérez-Lanzac
Faz sol, e por isso nos sentamos no terraço do Achuri, um bar na concorrida rua Argumosa, no bairro de Lavapiés, em Madri. Manuel o escolheu porque é amigo dos donos. A um palmo da mesa, três músicos tocam trompete, acordeão e clarineta. Manuel - 32 anos, moreno, tranqüilo - é obrigado a falar aos gritos, mas isso não tira o dramatismo de seu relato.

Há duas datas chaves em sua história. A primeira é 19 de novembro de 1976, oito meses depois do golpe militar na Argentina. Nesse dia, seis pessoas dormem em um apartamento no número 668 da rua Juan B. Justo, em San Nicolás (Argentina): a família Amestoy -Carmen, 29, Omar, 31, María Eugenia, 5, e Fernando, 3 -, Ana Granada (23) e seu filho Manuel, então um bebê de cinco meses. Seu pai, o líder montonero Gastón Gonçalves, fora assassinado pelos militares antes que ele nascesse.

Às 6 da manhã os militares rodeiam o edifício. Procuram Ana e o casal Amestoy, que também pertence ao grupo guerrilheiro. "Ordenaram que saíssem de casa, mas não obedeceram com medo de serem mortos", explica Manuel. "Então os militares dispararam e lançaram granadas e gás lacrimogêneo pelas janelas. Os adultos colocaram María Eugenia e Fernando no banheiro, o único cômodo sem saída para o exterior. Eu fui escondido em um guarda-roupa entre almofadões. Quando os militares entraram na casa, todos os adultos e Fernando estavam mortos. María Eugenia quase não respirava e morreu a caminho do hospital. Eu fui o único sobrevivente da chacina."

Isso nos leva à segunda data, 1995. Claudio Novoa, um rapaz de 19 anos, abre a porta de sua casa em Buenos Aires e depara com um estranho. "Ele me disse: 'Você é Claudio Novoa?' 'Sim.' 'É adotado?' 'Sim.' 'Venho lhe dizer que sua família biológica o está procurando, mas seus pais estão desaparecidos'." Enquanto Manuel prossegue, o interlocutor sente sua pele se arrepiar. Uma bolha separa a mesa do ruído que nos cerca.

Depois da identificação de Manuel há uma pessoa chave: sua avó Matilde, uma ativa Avó da Praça de Maio que seguiu o rastro de seu neto, cheio de documentos falsos. Manuel se esquece da torta de alho-poró quando narra o encontro: "Toquei a campainha de sua casa e me preparei porque queria lembrar o momento. Então apareceu uma senhora baixinha, de cabelo branco. Matilde me contou que eu também tinha um irmão, filho de uma relação anterior de meu pai. O incrível é que ele é o baixista da Los Pericos, uma das minhas bandas preferidas."

Passaram-se 13 anos do choque. Manuel assimilou sua história e se dedicou à busca de mais filhos de desaparecidos. "Acreditamos que haja mais 400, alguns certamente na Espanha. Quem tiver dúvidas deve se interrogar. Sempre se sente algo: um vazio, um incômodo, algo que não encaixa. A falta de fotos de sua mãe grávida..."

Além disso, Manuel abriu três processos judiciais. O primeiro pelo assassinato de sua mãe e da família Amestoy, o segundo pelo de seu pai e o terceiro para esclarecer sua própria adoção. "Meus pais adotivos o fizeram de boa-fé, mas alguém deveria saber algo. Quero que se faça justiça. Por não falar nos assassinatos. Houve um genocídio e não deve ficar impune. Essa é a parte que me toca nesta história." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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