UOL Notícias Internacional
 

25/10/2008

São Paulo, a bienal do vazio

El País
Ángeles García
Em São Paulo
Os 12 mil m² do segundo andar da Bienal de São Paulo parecem o estacionamento de um aeroporto moderno na hora de menor tráfego aéreo. Um vazio total, rompido apenas por duas fileiras de colunas e cercado por grandes vidros de onde se vêem azaléias gigantes. Tal como havia anunciado há meses o curador do evento, Ivo Mesquita, a proposta deste ano é o nada. Com esse gesto se pretende evidenciar a crise da arte atual. Desse modo, cada um pode imaginar sua proposta. Ou, quem sabe, ficar com a mera experiência arquitetônica.

Moacyr Lopes Jr.
Detalhe da obra "Mil e Oitocentos Desenhos", de Allan McCollum
ESPECIAL: MAIS SOBRE A BIENAL
Pode ser, como ocorre muito na arte ultimamente, o cúmulo da democracia cultural. Ou o cúmulo da cara dura. "No mundo há mais de 200 bienais", argumenta Mesquita, "que parecem estar interessadas em ver qual é a maior. Creio que neste momento uma bienal só tem sentido se demonstrar capacidade analítica e crítica." Nos outros dois andares que formam a proposta há obras de 42 artistas, procedentes de 22 países. Marina Abramovic, Sophie Calle, Joan Jonas ou a espanhola Cristina Lucas são alguns dos nomes mais conhecidos. Uma maratona de atos e performances completa essa peculiar edição a partir de domingo, quando cada um terá sua própria opinião.

O Pavilhão da Bienal, um dos edifícios mais espetaculares e representativos de Oscar Niemeyer, fica na área nobre de São Paulo. Imponente e cercado de vegetação, a paz formada pelo branco e o verde se rompe permanentemente com o tráfego infernal que desde a primeira hora sofre esta cidade, cuja área metropolitana supera os 23 milhões de habitantes. Apesar do incômodo concerto de motores, do ruído dos helicópteros que levam os executivos e o forte cheiro de gasolina queimada, nem a poluição nem outros incômodos do mundo contemporâneo são os temas desta bienal. Nenhum ruído nem odor. A estrela é o vazio. Ivo Mesquita esclareceu na quinta-feira que sua proposta de jogar com o vazio não tem nada a ver com a crise econômica nem com a que sofre essa instituição. "Esse segundo andar está cheio de luz. É um convite para criar e imaginar. Creio que é uma experiência arquitetônica que joga com o edifício de Niemeyer. Deve-se vê-la assim."

E o que o visitante encontra nas áreas destinadas à exposição no conceito convencional? Aqui também há diferenças de outras bienais. Não há separações entre as peças de cada artista. Os ambientes são isolados com um mobiliário de madeira de tamanho reduzido, desenhado pelo colombiano Gabriel Sierra. Os artistas utilizaram esses móveis como se fossem quebra-cabeças ou móveis-vitrine.

O artista espanhol Javier Peñafiel, 44 anos, mostrava-se satisfeito na quinta-feira com a proposta da bienal. Em seu espaço oferece primeiro uma agenda na qual se registram suas reflexões depois de 12 semanas de imersão artística em São Paulo. "Falo do cassino financeiro em que vivemos e de tudo aquilo que me vem à cabeça." Da agenda se passa a contemplar um vídeo no qual vemos como ele trabalha, e finalmente uma conferência dramatizada, que servirá para dialogar com o público.

Peñafiel acha brilhante a proposta de Mesquita. É verdade que não há outro tema de conversa nos corredores entre galeristas e criadores. Fala-se sem cessar. Mas a pergunta é uma só: "O que você faria com esse espaço?" A proposta irrita e entusiasma em partes iguais. Jogar com a metáfora dos vazios ativos parece algo demasiado visto. Mais de um interpreta a proposta como evidência de falta de idéias. O jornal "Folha de S. Paulo" trouxe na quarta-feira uma pesquisa entre nomes representativos do mundo da arte brasileira. A criadora Beatriz Milhazes duvida de que esta seja sequer uma proposta poética. Mas se daria por satisfeita se o golpe de efeito servisse para sacudir o certame da inércia que o estrangula há tempo.

O curador de exposições Teixeira Coelho responde que no espaço vazio ele colocaria 500 sofás, "pelo menos a gente poderia se sentar um pouco". A videoartista Ana Maria Tavares aplaude a idéia. "Eu não colocaria nada", responde, "há muitos artistas que mereceriam ser expostos. Mas o vazio me parece uma idéia respeitável." O também artista José Resende opina que tudo isso nos leva a um ponto zero do qual pode surgir uma autêntica renovação no conceito da obra de arte.

Seja como for, a tanta surpresa cabe acrescentar outra. Ver o centenário arquiteto Oscar Niemeyer no centro de uma polêmica da raivosa arte contemporânea. Afinal, seu belíssimo edifício, essência do modernismo e da arquitetura brasileira, é o que abriga o vazio. Um espaço sem obras é a proposta mais ousada da edição. Pretende-se evidenciar a crise da arte. O resultado irrita e entusiasma igualmente Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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