UOL Notícias Internacional
 

26/10/2008

"Scouts", os farejadores de livros

El País
G. Altares
C. Geli
Em Frankfurt
Como em muitos outros aspectos da vida, no mundo editorial há um fator que marca a diferença entre vencer e fracassar: a informação. Os principais selos do mundo criaram seus próprios serviços de inteligência para sobreviver em um setor em que, com as novas tecnologias, as coisas andam cada vez mais rápido: os "scouts" (farejadores). "Somos os espiões do mundo dos livros", afirmou a veterana Bettina B. Schrewe, que trabalha em Nova York como "scout" para 17 países.

Embora existam há 20 anos, os scouts ganharam importância e as editoras concordam em que hoje, na selva em que se transformou o setor, é difícil sobreviver sem eles. Na Espanha já existem dois scouts. "Somos espiões", afirma, repetindo as palavras de sua colega o espanhol Aurelio Major. "Devemos nos inteirar antes que todo mundo."

Os scouts trabalham nas grandes capitais da letra impressa - principalmente Londres, Nova York e Paris - e seu ofício consiste em detectar o quanto antes um livro ou uma tendência. Quanto antes quer dizer quando o manuscrito chega a um agente ou a uma editora, e muitas vezes sem a autorização dos receptores do texto. Às vezes, inclusive, como ocorreu com "Las Cenizas de Ángela", dão a dica com apenas 100 páginas escritas.

Prova da importância que adquiriram é que na Feira de Frankfurt estão situados no lugar onde se corta o bacalhau do principal mercado de livros do mundo: a sala dos agentes. É um espaço enorme, cheio de mesas brancas, que parece tirado de "El Apartamento". Ali entram e saem os editores para negociar os direitos, fechar contratos. E ali estão os scouts, que durante toda a feira elaboram as listas quentes: os livros que disputam mais editoras em mais países. E não há agentes duplos: só trabalham para um grupo por território.

"Um scout tem de captar todas as informações que saem de um país, não só os manuscritos importantes, mas também as mudanças de tendência ou de direção em uma editora", explica Cristina de Stefano, italiana estabelecida em Paris, ex-jornalista e escritora (em 2009 publicará "Aventureras Americanas: 20 Mujeres Excepcionales del Siglo 20"). "É um trabalho um pouco secreto, no qual há muita concorrência. Esse é o motivo pelo qual estão se multiplicando: cada vez há mais informação e menos tempo para processá-la", acrescenta De Stefano, que trabalha na França para cinco países.

Com quase 20 clientes (entre os quais as editoras Anagrama, Gallimard e Einaudi), Koukla MacLehose é uma instituição em Frankfurt e é a primeira scout que, a partir deste ano, conta com um cliente na China. Seu olfato lhe conseguiu "O Deus das Pequenas Coisas", de Arundhati Roy, antes que tivesse editor, e seu ofício a levou a se inteirar na última quarta-feira em Frankfurt de um livro quente quando era apenas um manuscrito, enviá-lo a sua leitora (que vive na África do Sul) naquela noite (todo mundo do ramo já tem leitores eletrônicos) e ter um relatório para seus clientes na quinta de manhã, ao mesmo tempo que a primeira editora anglo-saxã o comprava.

"As duas grandes diferenças de um agente é que não recebemos porcentagem por livro e não representamos os autores", explica Schrewe. "Não somos uma parte pública da indústria, mas nosso trabalho é muito importante, como os que se dedicam a buscar jogadores de futebol", indica Lauri del Commune, scout da Penguin ou da espanhola Salamandra nos EUA. "Todo mundo anda buscando o novo John Grisham, e nós temos de ser os primeiros a detectá-lo", acrescenta. "Como os repórteres, buscamos informações que as pessoas não querem dar, protegemos nossos clientes e precisamos de exclusivas", indica por sua vez Aram Fox, scout nova-iorquino que fareja para a RBA.

Os espiões literários também tinham de chegar à Espanha. "O mercado estava pedindo isso aos gritos: a língua espanhola cresce e essa figura é cada vez mais imprescindível para um mercado de autores já atraente para os estrangeiros", refletem em uníssono Carmen Pinilla e Daniel Aragó, que há apenas cinco meses, na Feira de Londres, abandonaram a agência literária Carmen Balcells e passaram ao trabalho que Aragó qualifica com humor entre "cool-hunter" (caçador de tendências) e "corre-vê-e-conta".

O momento não poderia ser outro para a eclosão: "Escritores como Carlos Ruiz Zafón e Javier Sierra vendem muito hoje; a língua castelhana há anos não dava um fenômeno parecido, descontando Arturo Pérez-Reverte, Isabel Allende e Laura Esquivel e o capítulo anterior do boom latino-americano", relata Major, o primeiro scout da Espanha, já faz três anos. "O ramo editorial é basicamente europeu, e por isso é lógico que procurem autores do mesmo mercado em que vendem", continua contando o que colocou Ildefonso Falcones na Itália (mais de 500 mil exemplares vendidos).

As editoras espanholas os receberam bem, ou assim crê Major, caçador para a França, Itália e Holanda. "Os contratos são em exclusividade e você ganha um fixo que equivale ao salário de um diretor de uma editora média-alta", diz, enquanto admite que sabe de colegas americanos que ganham US$ 200 mil por ano. "Fazemos que elas ganhem muito, tanto ao propor investimentos em livros como lhes dizendo quais não são idôneos para seus selos", defende Pinilla.

Se informação é poder, a imediata não tem preço. Por isso Major aguçou seu novo ofício indo à mãe de todo o negócio, o autor. "É preciso trabalhar com informação privilegiada, ler muito rápido e discriminar ainda melhor." "Nosso trabalho é ser um filtro com critério diante de uma avalanche de informação; depois é ter uma boa agenda e fontes de informação e buscar aquilo que não é óbvio", dizem Pinilla e Aragó. A Feira de Frankfurt mostra concorrência feroz entre os chamados "espiões literários" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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