UOL Notícias Internacional
 

28/10/2008

Yves Bertrand, ou sexo e mentiras na espionagem

El País
J. M. Martí Font
Em Paris
O poder ajusta contas com os que o vigiaram. Yves Bertrand, que durante 12 anos dirigiu os serviços de informação da polícia francesa (Renseignements Généraux, conhecidos popularmente pelas siglas RG), está hoje no olho do furacão. Uma investigação judicial permitiu revelar as pequenas cadernetas de espiral nas quais a grande orelha da França anotava todos os dados e rumores sobre a vida sexual, as orientações religiosas ou situações comprometedoras de muitas pessoas, incluindo primeiros-ministros e outros políticos.

Há duas semanas o semanário "Le Point" publicou parágrafos escolhidos das notas do ex-chefe da espionagem policial, nas quais aparecem desde o ex-presidente Valéry Giscard d'Estaing, por suposta recepção de dinheiro do programa da ONU Petróleo por Alimentos no Iraque, até o atual presidente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Khan, de quem se indica quanto ganhou, quando exercia a profissão de advogado, para fazer um relatório indevido para uma empresa.

Também figuram informações surpreendentes, mas que permitem ter uma idéia da imensa capacidade desse personagem para jogar lixo no ventilador. Por exemplo, uma nota detalha sucintamente que o casal formado pelo primeiro-secretário do Partido Socialista, François Hollande, e sua companheira na época, Ségolène Royal, havia alugado um barco no verão que "em uma ocasião tinha sido utilizado por um clube de troca de casais". Os que aparecem nessas listas, e outros que suspeitam da possibilidade de estar nelas, deram o alarme.

O presidente da República, Nicolas Sarkozy, denunciou nos tribunais que o ex-chefe do serviço de informação. Um ex-ministro do Interior, Charles Pasqua, anunciou que o processará, assim como o deputado socialista Arnaud Montebourg. E o ex-primeiro-ministro socialista Lionel Jospin, também mencionado por Bertrand, manifestou sua indignação e indicou quem ele considera o verdadeiro culpado: Jacques Chirac, ex-presidente da República, mentor do policial Yves Bertrand.

Os franceses não se surpreendem tanto pela capacidade dos RG, a autêntica polícia política do Estado francês desde sua criação, em 1911, até que em junho passado desapareceu como tal, ao se fundir por ordem do governo com outros serviços de informação do Estado. Essa fusão também provocou a proibição de que os serviços de informação continuem funcionando pelo procedimento de "notas anônimas", que era o que faziam os RG: os chefes se inteiravam de tudo através de papéis redigidos sem título nem assinatura.

Os RG nasceram não só da tradição de intriga palaciana do Rei Sol, como do obscuro gênio de Joseph Fouché, o histórico criador da rede de polícia francesa sob Napoleão, que conseguiu manter seu poder durante a Revolução, sob o Terror, no Império e inclusive com a Restauração. Yves Bertrand (nascido em Grasse em 1944) não foi tão longe quanto Fouché, mas dados os tempos que lhe couberam viver poderia ser comparado com o americano Edward G. Hoover, ex-diretor do FBI.

Durante 12 anos Bertrand trabalhou sob o chefe de Estado de esquerda François Mitterrand, e outro de direita, Jacques Chirac. Depois de sobreviver a oito ministros do Interior sucessivos, esse homem de feições cortadas a faca conheceu os segredos mais íntimos de seus compatriotas, farejou entre os lençóis e vasculhou os bolsos dos casacos, escutou os sussurros de alcova e anotou as conversas de negócios nos restaurantes.

Entrou para o serviço de informação em 1970, subiu rapidamente na hierarquia e em 1992, ainda sob a presidência de Mitterrand, chegou ao mais alto. Ninguém o tirou de lá até que se aposentou em 2004, sob a presidência de Chirac. Sua imunidade se estendeu ainda por quatro anos, nos quais se permitiu publicar um livro intitulado "Je ne sais rien... mais je dirai (presque) tout" [Não sei nada... mas direi quase tudo], no qual, obviamente, não conta quase nada. Durante esses 12 anos Bertrand trabalhou sob as ordens de até oito ministros do Interior, conservadores e socialistas, aos quais habilmente vigiou com a aquiescência do chefe de Estado. Todos exceto um, aparentemente: começa a ser revelada a relação privilegiada que manteve com Dominique de Villepin, tanto quando este ocupava o Ministério do Interior como o das Relações Exteriores, e especialmente no que se refere ao famoso caso Clearstream, uma falsa trama de corrupção com a qual Chirac desejaria acabar com a carreira de Sarkozy.

Nas cadernetas de Bertrand estão não apenas os rumores sobre a relação entre Sarkozy e sua ex-mulher Cécilia como acusações infundadas, como a que afirma que "Sarko está construindo uma mansão perto de Sartrouville e favorece empresas de Neuilly [de onde foi prefeito]".

Segundo a demanda apresentada pelo advogado de Sarkozy, o presidente francês estima que Bertrand "comunicou a outros informações relativas à sua vida privada" e que o conteúdo dos cadernos "altera fraudulentamente a verdade com uma indiscutível intenção de causar dano". Sarkozy suspeita que Bertrand se encarregou de alimentar periodicamente o caso Clearstream e que fez parte de um gabinete orquestrado por Dominique de Villepin sob os auspícios de Chirac.

Bertrand lava as mãos e qualifica o conteúdo de suas cadernetas de "fofocas e rumores". "Os destinatários de minhas anotações eram o gabinete do ministro do Interior, Matignon [o gabinete do primeiro-ministro] e o Eliseu", afirma. "A vida privada de uma pessoa pública não é totalmente privada", salienta. "Não sou eu quem define isso, é uma das missões dos serviços de informação." Sarkozy e outros políticos franceses em atrito com o ex-chefe do serviço secreto da polícia Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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