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29/10/2008

O socialismo do século 21

El País
M. Á. Bastenier
À espera da refundação do capitalismo prometida pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, cabe fazer um primeiro balanço político da hecatombe, não de ganhadores e perdedores, porque todos perdem, mas alguns mais e de maneira diferente de outros.

O primeiro perdedor, catastrófico, é o presidente George W. Bush, que hoje colhe a semeadura econômica, não só própria, mas que se arrasta desde Reagan nos anos 1980, presidente que sempre foi seu ícone particular. E isso que as advertências estavam aí; um ciclone que devastou Nova Orleans, desprotegida de um Estado que não havia considerado necessária a manutenção de seus diques; ou na Grã-Bretanha, um sistema ferroviário privatizado que provavelmente é o pior da Europa, como legado da senhora Thatcher, conservadora e inspiradora do neotrabalhista Tony Blair. O eterno debate entre a suposta eficácia, mas egoísta, da iniciativa privada e a garantia de uma certa injustiça, mas sem qualidade garantida, do serviço público, teve um saldo rotundo a favor da segunda. E essa refundação, desnecessária porque sempre teve santo patrono - J. M. Keynes -, só pode consistir no eterno regresso do Estado, não como parêntese, mas um dos principais direitos humanos.

Perdedor também deveria ser o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que tem a má sorte de governar quando ocorre uma gravíssima quebra da prosperidade nacional. Carlos Solchaga disse há algum tempo que os espanhóis "haviam sofrido um ataque de riqueza", e o despertar do que alguns poderão temer que tenha sido só um sonho é tão duro que alguém tem de pagar. Mas o líder do PSOE, incansável na manobra, se conseguir se meter nesse abarrotado G e algo de Washington já terá iniciado o contra-ataque.

Perdedores muito matizados teriam de ser os responsáveis chineses e russos, Hu Jintao e esse Jano que poderíamos chamar de Put-vedev, porque ambos possuem reservas bilionárias para cobrir a crise; e também nesse pacote, mas com menos defesa, estaria o Irã de Ahmadinejad, atacado por inflação galopante e subsídios ruinosos ao consumo.

O caso de Hugo Chávez na Venezuela é contraditório porque, assim como Lula no Brasil, se beneficia do buraco pavoroso que se abriu na América Latina à credibilidade do neoliberalismo americano, mas como indica "The Economist", a cada US$ 10 que o petróleo diminui Caracas deixa de receber US$ 5 bilhões por ano, e abaixo de US$ 75 o barril - beira os US$ 60 - não dá para sustentar o ritmo das importações nem muito menos financiar o protesto pan-americano.

As eleições municipais e para governadores do próximo dia 23 nos dirão quanto a necessidade de apertar o cinturão afetou a popularidade de Chávez. Perdedores aparentemente claros são Álvaro Uribe na Colômbia e Alan García no Peru. O primeiro porque, se não ganhar o republicano McCain, perderá no político o que já está perdendo no econômico: o investimento estrangeiro; e o segundo porque, apresentando-se seu país como a anti-Venezuela, o paraíso dos capitais em busca de mercado, parece difícil que consiga sustentar os 8 ou 9% de crescimento dos últimos anos.

Ao contrário da sabedoria convencional que situava as economias emergentes meio resguardadas de uma crise só para maiores, a América Latina sofrerá o seu, como já simboliza a Argentina, economia tantas vezes emersa e submersa de novo, que tem de nacionalizar a poupança privada como se fossem os lucros do casal Fernández-Kirchner.

Para Sarkozy, como bom francês grande cunhador de palavras, a crise não fará senão devolvê-lo à sua verdadeira nacionalidade. O suposto liberal à americana de seu primeiro ano de mandato deu lugar à social-democracia corporativo-gálica de toda a vida. E sobre o premiê britânico Gordon Brown, embora Deus o tenha ajudado com uma hecatombe que lhe permitiu inchar o peito e pedir que dêem lugar aos profissionais, dentro de um ano ninguém se lembrará desta sua "finest hour".

O estado natural das coisas certamente é o sistema capitalista: a busca do lucro pessoal sem circunspecção, enquanto o socialismo é uma impostura do instinto, que às vezes se fabrica, envergonhado, o ser humano. Mas esse grau mínimo de socialismo que por si só encarna a existência de um Estado democrático interventor é tudo o que separa a sociedade da selva. Esse é o socialismo do século 21.
Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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