UOL Notícias Internacional
 

30/10/2008

"Passei a vida toda procurando algo que não se vê", diz físico

El País
Alicia Rivera
Em Madri
O físico Blas Cabrera diz que passou a vida toda procurando algo que não se vê, que é dificílimo detectar mas que pode, ou deve, existir no cosmo. Seu objetivo essencial é a matéria escura do universo, esse algo que se sabe que existe, que se avalia por seus efeitos, mas que ninguém encontrou. Nascido na França, de origem espanhola, é neto de físico (Blas Cabrera) e filho do também físico Nicolás Cabrera, que saiu da Espanha na Guerra Civil e só voltou em 1969, com o sonho de incentivar a física espanhola a partir de seu prestígio no exílio.

"É muito bonito ver os resultados de algo que meu pai começou, o departamento de física da Universidade Autônoma de Madri (UAM)", diz Cabrera neto, 62 anos, que desenvolveu toda a sua carreira científica nos EUA. Ele é professor da Universidade de Stanford e dirige uma equipe que colabora no detector subterrâneo chamado Cryogenic Dark Matter Search (Busca Criogênica da Matéria Escura), situado em uma mina em Minnesota, com o qual tentam descobrir partículas elementares novas, chamadas wimps, que poderiam constituir essa matéria escura.

Cabrera veio à Espanha recentemente para a Escola Internacional Nicolás Cabrera, organizada pelo Instituto Universitário de Ciência dos Materiais da UAM com a colaboração da Fundação BBVA. Esta 15ª edição foi dedicada a "Um século do hélio líquido: nova física à beira do zero absoluto".

El País - Como o senhor explicaria de um modo simples por que é importante e vale a pena buscar partículas elementares, os wimps, que não intervêm em nosso mundo?

Blas Cabrera -
O mais importante é que a matéria escura foi a origem da estrutura do universo, das galáxias e das coleções de galáxias... Nós estamos aqui porque existe essa matéria escura e queremos saber como ela é. Há muito mais matéria escura do que átomos, cerca de seis ou sete vezes mais.

EP - Essa matéria escura está aqui, em nosso mundo, ou só lá fora no espaço?

Cabrera -
Está aqui também. Na teoria mais estendida dos wimps há três partículas dessas por litro de matéria normal.

EP - Por que é tão difícil detectá-la?

Cabrera -
Porque essas partículas só têm interações frágeis com a matéria normal. São como os neutrinos, que podem atravessar o Sol ou a Terra sem quase interagir com outras partículas.

EP - E vocês as procuram com um detector subterrâneo.

Cabrera -
Sim. Há satélites e telescópios procurando, mas nós trabalhamos embaixo da terra. O detector, do qual participam 14 instituições, fica a 800 metros de profundidade em uma mina em Minnesota [para proteger os sensores dos raios cósmicos naturais que poderiam mascarar os resultados]. Agora planejamos fazer o experimento aumentando o tamanho dos detectores e a uma profundidade três vezes maior. Trata-se de medir a transferência de energia que produziria uma interação de um wimp com a matéria do detector. Isso poderia nos dar informação sobre a massa dessas partículas.

EP - Detectaram alguma?

Cabrera -
Ainda não.

EP - Como é o detector de Minnesota?

Cabrera -
É formado por cristais de germânio e funciona em baixa temperatura, perto do zero absoluto [273 graus negativos]. É como quando você atira uma pequena pedra em um lago e quer ver as ondas que se formam, mas quando há vento a água se agita e é muito mais difícil vê-las. O calor é para nosso experimento como a agitação da água em um dia de muito vento, enquanto a 0,1 grau acima do zero absoluto isso é evitado.

EP - O congresso da Escola Internacional Nicolás Cabrera se dedicou este ano à ciência à beira do zero absoluto.

Cabrera -
Sim, é muito interessante. Em 1908 se conseguiu o hélio líquido e isso abriu uma porta para muitas coisas que então não se imaginavam, como a supercondutividade, as superfluidez, questões de física quântica ou novos estados da matéria.

EP - O senhor busca coisas estranhas, como o famoso monopólo de Blas Cabrera em 1982.

Cabrera -
Foi uma época muito interessante. O físico teórico Sheldon Glashow afirmou em 1979 que a matéria escura do universo poderia ser formada pelos chamados monopólos. Com técnicas de temperaturas ultrabaixas seria possível procurar essas partículas. Fiz o experimento e em 1982 obtivemos resultados muito interessantes. Houve muito alvoroço, mas depois os dados não se confirmaram; continuamos trabalhando mais dez anos com detectores cada vez mais sensíveis, mas não vimos nada. Passei a vida toda procurando algo que não se vê.

EP - O fato de ser filho e neto de físicos condiciona?

Cabrera -
Meu pai sempre me dizia que eu não devia me dedicar à física, que seria mais interessante a biologia. Mas eu lembro que desde pequeno nas festas familiares e com amigos me chamava a atenção o entusiasmo de meu pai e outros físicos pelo que faziam. Era um entusiasmo que eu não via na casa dos meus amigos. Lembro de um colega do meu pai que tinha muita paciência me explicando coisas, e eu passava horas perguntando como funciona isto e aquilo... Por isso me interessou a física, por seu poder de analisar e entender como as coisas funcionam.

EP - O senhor identifica diferenças entre os EUA e a Europa na forma de conduzir a ciência?

Cabrera -
Nos EUA, depois de 1990, quando a União Soviética se desfez, mudou o modelo de apoiar a pesquisa fundamental, que até então havia sido estratégica. Eu esperava que se implantasse um modelo como o alemão ou o japonês, em que a ciência básica é considerada fundamento da economia. E é um pouco assim, mas na realidade o Congresso dos EUA não tem uma idéia clara, e a cada ano houve um pouco menos dinheiro. Ao cabo de duas décadas, isto, mais o gasto muito grande com a guerra, provocou uma autêntica decadência do financiamento da ciência nos EUA.

EP - E isso repercutirá na economia.

Cabrera -
Há uma conexão estreita entre as tecnologias e a economia de cinco anos depois. O que a ciência descobre muitas vezes se reflete na tecnologia, por isso o apoio à pesquisa fundamental é importante para garantir que haverá novas tecnologias dentro de cinco ou dez anos. Entrevista com Blas Cabrera, físico da Universidade de Stanford (EUA): "Passei a vida toda procurando algo que não se vê" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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