UOL Notícias Internacional
 

31/10/2008

Obama, ator e roteirista

El País
Lluís Bassets
Estamos diante de um excelente narrador. Um homem que sabe contar histórias, que o faz com ênfase e paixão. Mas sem transbordar nem desafinar com uma nota excessiva. A contenção e a moderação também fazem parte de seu estilo. Durante essa longa campanha, a mais longa da história, ele não parou em nenhum momento de contar histórias, tiradas da vida real, com as quais transmite suas idéias e propostas. Contou com uma matéria-prima excelente, escrita por sua própria mão há 15 anos, quando ainda nem sequer sonhava com uma carreira política tão fulgurante. Seu livro "Os Sonhos do Meu Pai", no qual conta sua busca pelas raízes paternas, é antes de tudo uma excelente narrativa que se transformou em best-seller.

Uma boa história e muito dinheiro é a fórmula que fez crescer o cinema. Com a linguagem cinematográfica à sua disposição, sua atuação como narrador e seu testemunho pessoal, Barack Obama deu um golpe sensacional cinco dias antes da terça-feira decisiva, 4 de novembro.

Ele contou com dinheiro, mais de US$ 3 milhões, para comprar meia hora nas principais redes, onde suas narrativas mal chegaram a seu público milionário. Seu rosto sorridente e tranqüilo e sua voz de tenor, redonda e bem modulada, entraram quase pela primeira vez em muitos lares onde imperam as críticas dos conservadores americanos. E ele fez isso com histórias da vida real, difíceis mas esperançosas, sem qualquer ataque a seu adversário.

Tudo constitui um desafio na propaganda política e eleitoral, sem dúvida. O objetivo é que a grande maioria, os eleitores indecisos ou reticentes, percebam de forma clara a naturalidade de uma situação em que Obama seja o presidente. Para isso, ele joga com a linguagem das emoções e dos sentimentos, mais que com argumentos duros, tudo com um sublinhado musical cheio de lirismo e uma iconografia totalmente americana, com bandeiras, campos de trigo, subúrbios e carros. O arremate é o encaixe entre a montagem cinematográfica e a realidade: os últimos minutos são de conexão ao vivo com seu comício em Orlando.

O que na Espanha fazem as televisões públicas em seus espaços informativos aqui é admitido por algumas redes privadas, contra o pagamento de US$ 775 mil. Obama pode se permitir isso, e mais. É uma demonstração de poder financeiro e de confiança na condução de sua própria campanha. Para chegar até aqui teve de se arriscar em dois momentos. O primeiro quando renunciou ao financiamento público da campanha, que define o limite de US$ 84 milhões, fugindo a suas próprias idéias sobre as verbas eleitorais. O segundo, quando decidiu comprar espaço publicitário em horário nobre como só havia feito o milionário Ross Perot em 1992.

Ainda não há uma tradução visível nas pesquisas, mas o objetivo é ampliar a diferença que o separa de McCain em um momento tão próximo da jornada eleitoral que não permita uma reação de seu rival. Além de bom narrador, Obama tem dinheiro e é esperto. Nada se pode deduzir de tudo isso. Mas ele merece ganhar. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host