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31/10/2008

Rússia volta ao quintal dos EUA

El País
Pilar Bonet
Em Moscou
A Rússia lançou uma enérgica ofensiva diplomática, econômica e cultural na América Latina, mas no futuro esse rumo dependerá em grande parte de quem ganhar as eleições americanas. Se o vencedor for John McCain, Moscou manterá sua linha de resposta à política de George Bush. Se ganhar Barack Obama, o Kremlin deverá avaliar se quer uma relação mais construtiva com Washington às custas de moderar seu relacionamento com os regimes de esquerda latino-americanos, que ainda vêem impulsos revolucionários na Rússia de hoje, pelo menos como contrapeso aos EUA.

Em sua estratégia latino-americana, a Rússia abarca uma ampla gama de países, do Brasil à Argentina, mas seus principais pilares são a Venezuela e Cuba, com os quais forma um "triângulo de influência" para "enfraquecer a influência americana", afirma Vladimir Simago, vice-presidente do Conselho Empresarial Russo-Venezuelano. A origem desse triângulo, na opinião dele, é "a irritação quase pessoal" que a política externa de Bush provocou no chefe de governo Vladimir Putin.

O resultado é uma certa simetria de atuação. Movido pelos "sentimentos" de Putin, o Kremlin reproduz na América Latina sua própria versão dos irritantes gerados por Washington e seus aliados atlantistas em torno das fronteiras russas na Europa e no Cáucaso. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, "bateu por longos anos" às portas da Rússia, enquanto a imprensa o tratava como "um personagem impulsivo e um tanto extravagante", diz Simago.

"O Kremlin freava suas relações com a Venezuela para não estragar as relações com os EUA, o que incomodava muito Chávez", acrescenta. Mas a preocupação com a imagem se dissipou. O venezuelano esteve duas vezes na Rússia este ano e o presidente russo, Dimitri Medvedev, que pretende visitar o Peru em novembro próximo para participar do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), poderia visitar também a Venezuela nessa data.

Entre 10 e 14 de novembro a Rússia e a Venezuela realizarão no Caribe manobras navais conjuntas que, caso prevaleça o desejo de colaborar com Washington, poderão se transformar, segundo Simago, em um "convite à luta conjunta contra a pirataria marítima".

O comércio da Rússia com a América Latina em seu conjunto é um pouco maior que com a Espanha, país que em 2007 representou 1,4% do volume do comércio exterior russo. O Brasil, com 1%, está na dianteira, seguido de Argentina com 0,3%, e México e Chile, com 0,1%, respectivamente. No entanto, os planos são ambiciosos. A Rússia assinou com a Venezuela um memorando para criar um consórcio entre a companhia estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) e um grupo de empresas russas liderado pelo monopólio do gás Gazprom (Rosneft, Lukoil, TNK-VP e Surgutneftegaz). O consórcio abordará projetos na Venezuela e em outros países do continente.

O capítulo mais sólido da cooperação com a América Latina é o da venda de armas, através do consórcio Rosoboronexport, sancionado pelos EUA por seus acordos com o Irã. Segundo dados oficiais, nos últimos três anos a Rússia e a Venezuela assinaram contratos no valor de US$ 4,4 bilhões, que incluem caças Su-30MKV, helicópteros Mi-17, Kalashnikov e uma fábrica para produzir esses fuzis. Moscou prevê conceder a Caracas um crédito de US$ 1 bilhão para novas compras de armamentos e negocia o fornecimento de tanques T-72M e sistemas de defesa antiaérea.

A relação econômica russo-venezuelana se tornou "mais fechada e mais estatal" desde que Igor Sechin se transformou no chefe da Comissão Mista Russo-Venezuelana, opina Simago. Sechin, que como Putin procede dos serviços de segurança (a antiga KGB), é o vice-chefe de governo responsável pela política energética e é considerado o principal artífice do assédio que levou à ruína a petroleira Yukos em benefício da estatal Rosneft. A centralização das relações econômicas russo-venezuelanas "viola o princípio do livre comércio e descuida dos interesses das pequenas e médias empresas, assim como das regiões da Rússia interessadas na Venezuela", afirma Simago.

A atividade dos chegados a Putin na América Latina é impressionante, a julgar por suas viagens. Em menos de dois meses, Sechin, que também preside a comissão mista intergovernamental russo-cubana, esteve duas vezes em Havana (uma no final de julho e outra em setembro), e esta semana estará novamente em Caracas. Nikolai Patrushev, chefe do Conselho de Segurança, visitou Venezuela, Argentina e Equador em outubro depois de ter estado em Cuba em julho (com Sechin).

Em Havana, os altos funcionários russos defenderam o restabelecimento e aprofundamento das "relações tradicionais" entre os dois países "em todas as esferas". Em 2001 a Rússia fechou sua estação de radar de Lourdes, então um dos obstáculos impostos pelo Congresso americano à reestruturação da dívida externa de Moscou. Em Buenos Aires, Patrushev mostrou interesse pelo Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS), um projeto da União de Nações Sul-Americanas (Unasur), e solicitou sua incorporação como observador, segundo informações do Ministério da Defesa da Argentina.

A Unasur, que foi institucionalizada em maio em Brasília, é formada por Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Peru, Uruguai e Venezuela, entre outros países. O jornal oficial russo "Parlamentskaia Gazeta" apresentou a eventual inclusão de Moscou no grupo como uma iniciativa "dos países latino-americanos". No âmbito da Unasur, pode-se produzir uma certa rivalidade com o Brasil, que é o principal produtor de armas da América Latina, segundo Simago. Precisamente o Rio de Janeiro foi o lugar escolhido pela Gazprom para estabelecer sua sede principal na América Latina.

A solidariedade da Venezuela ou Cuba com Moscou não chegou ao ponto de reconhecer a Ossétia do Sul e a Abcázia como Estados, coisa que a Nicarágua fez. "A Venezuela não pode se permitir por suas tensões internas e Cuba, pelo respeito ao princípio da integridade territorial", afirmou uma fonte latino-americana. A ofensiva russa também inclui a Igreja Ortodoxa, que inaugurou um templo em Havana e pretende aumentar sua rede de paróquias na América Latina. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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