UOL Notícias Internacional
 

01/11/2008

"Um insulto em nome da arte"

El País
Patricia Tubella
Em Londres
Ao executar a pintura de uma mulher usando o véu e segurando um porco no colo, a artista Sarah Maple, de 23 anos, quis "abraçar várias culturas" a partir de sua dupla condição de britânica e muçulmana. Para certos setores da comunidade islâmica, esse quadro e as cerca de 30 obras que a jovem expõe em uma galeria em Londres, cheias de referências irreverentes à religião e ao sexo, representam "um insulto em nome da arte".

Chove sobre o molhado na cidade do Tâmisa. Embora ainda repercutam nos círculos literários de Londres os ecos de outra séria ameaça. A que ronda Martin Rynja. Sua residência no norte de Londres foi alvo de um ataque incendiário há poucas semanas, em represália por sua decisão de editar no Reino Unido o romance "A Jóia de Medina" (estréia da americana Sherry Jones). A obra relata a relação de Maomé com sua esposa mais querida.

Ainda não se utilizou fogo contra a galeria onde Maple expõe. Mas o local, no bairro de Notting Hill, sofreu no início da semana uma agressão dos vândalos, que destroçaram a porta e a vitrine. "Temo por minha segurança, mas não quero me deixar intimidar", explicou na quinta-feira Sarah Maple a este jornal, apenas três horas depois de receber um e-mail com ameaças explícitas contra sua pessoa e sua família. Incluía imagens trucadas e "muito desagradáveis" da artista, que ela não quer detalhar. As cartas em tom violento se repetem desde a inauguração da exposição, no último dia 16.

Tanto a galeria londrina SaLon como sua patrocinada se mostram decididas a cumprir o calendário previsto e a manter as portas abertas ao público até o próximo dia 17 de novembro. Mas Maple admite que não pode "descartar 100%" que acabem cedendo. Ela compreende perfeitamente a posição do editor independente Martin Rynja.

Depois do ataque, Rynja mostrou-se decidido a lançar o polêmico livro no final de outubro, mas a tremenda pressão sofrida por parte dos radicais (desde então vive sob proteção policial) acabou por convencê-lo a adiar sua publicação por prazo indefinido. A modesta editora que ele dirige, a Gibson Square, decidiu de todo modo cancelar a turnê promocional da autora, apesar de sua disposição a vir ao Reino Unido para defender seu trabalho acima das coações.

O medo, bem compreensível de um ponto de vista humano, amainou o outrora valente editor das memórias do ex-espião russo Alexander Litvinenko ("Blowing Up Russia") antes que fosse assassinado por envenenamento em pleno centro de Londres. Ou da implacável diatribe contra o atual presidente dos EUA, "House of Bush, House of Saud"), que pretendia revelar as obscuras conexões de sua família com o regime saudita.

Embora os três supostos responsáveis pela agressão contra a casa de Rynja tenham sido detidos de imediato, as proclamações incendiadas do religioso Anjem Choudhray de sua mesquita no leste da capital, lembrando que "a lei muçulmana estipula que qualquer ataque contra sua honra provoca a pena de morte", mantiveram acesa a chama da intransigência. Tremenda lembrança do calvário sofrido por Salman Rushdie, cuja obra "Os Versículos Satânicos" lhe valeu uma irracional "fatwa" promulgada pelo aiatolá Khomeini em 1989.

Não consta que o tenebroso personagem ou algum de seus companheiros tenha reclamado a cabeça de Sarah Maple até agora. As intimidações agressivas recebidas pela jovem artista foram expressas sempre do anonimato. Inclusive as pouco afins Associação de Muçulmanos Britânicos ou o Conselho Muçulmano deixavam bem clara sua condenação a qualquer tipo de violência que tente coagir a liberdade de expressão da pessoa. Muito diferente é que reivindiquem ao mesmo tempo o democrático "direito ao protesto".

Obras como o próprio auto-retrato da artista, com o cabelo escondido pelo véu, e os sugestivos seios da modelo Kate Moss sobrepostos à imagem, não caíram nada bem entre os que professam sua religião. "Quis proclamar que usar o jihab não é melhor nem pior. Meu trabalho trata de minha identidade dupla, como filha de um britânico e de uma muçulmana, e o contraste entre as duas culturas acaba lhe conferindo um tom renovador, quase humorístico, sobre a identidade feminina e seus múltiplos condicionamentos hoje em dia", justifica a autora. Nunca pretendeu ofender sua própria religião, insiste.

Maple se define simplesmente como uma jovem da era da globalização, "uma britânica muçulmana que adaptou sem problemas sua religião ao ambiente ocidental, que também é seu".

Transformada a contragosto em novo objeto da ira dos muçulmanos radicais, ela resiste a responder a seus adversários com palavras duras ("essas vozes são a dramática expressão do temor da perda de uma identidade"). E nem sequer a se mostrar ofendida pelas comparações maliciosas com a artista britânica Tracy Emin, estrela do BritArt e caracterizada como uma personagem que lavrou sua publicidade às custas de provocações: "Não creio que nossas propostas artísticas se pareçam, mas coincidimos nessa vocação provocadora que implica antes de tudo dizer o que se pensa, de forma não maliciosa, mas decidida". Editores, escritores e artistas sofrem cada vez mais a ira radical islâmica em Londres Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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