UOL Notícias Internacional
 

02/11/2008

Televisão para bebês sob suspeita

El País
Por Carmen Pérez-Lanzac
- Diego.

- Dieeeego.

- Diego!!

Diego, de três anos, não ouve sua mãe. Ele está absorto assistindo ao filme do fantasma Gasparzinho na televisão da sala e não há como tirar seus olhos da tela. "Nada, ele se abstrai por completo", diz Blanca.

Como a maioria das crianças, Diego começou a ver televisão já faz tempo. Os pais ligam a TV de manhã, enquanto terminam de se vestir, e à noite, antes de dormir. "E desde que a irmã de Diego nasceu, se estou sozinha e preciso me dedicar a ela, também ligo a TV por um tempo".

Os pais de Diego não são de forma alguma despreocupados.Brincam com ele, lêem histórias e quando precisam recorrem também à televisão, ainda que prefiram alugar DVDs para evitar que ele veja tantos anúncios.

A televisão é um conhecido sedativo de crianças e freqüentemente se transforma numa grande aliada de pais ocupados e cansados. Diante da TV, as crianças ficam imóveis e boquiabertas. Ela é útil e eles gostam. A maioria começa a ver televisão em torno de um ano de idade.

Até o final dos anos 90, quase não havia programas específicos para bebês. Mas então vieram os Teletubbies e seu sucesso foi mundial.Cerca de 120 países retransmitiram o programa, dirigido para menores de quatro anos e com os ingredientes necessários para chamar sua atenção: cores berrantes, músicas, "abraços fortes" e um narrador em off, como quando um adulto conta uma história. Tendo em vista seu sucesso, os Teletubbies tiveram muitos sucessores, a maioria baseados em programas educativos desenvolvidos por pedagogos e educadores: Pocoyó, Os Lunnis, Little Einstein, O Jardim dos Sonhos e uma lista interminável.

Em 2003, depois de ter descoberto o nicho dos pequenos telespectadores, uma empresa israelense criou a Baby TV, um canal temático com 24 horas de programação para menores de três anos. Em 2006, outra TV norte-americana lançou um canal similar, Baby First, "uma forma divertida e didática de aproximar as crianças da arte, matemática, língua e música. E recomendada pelos especialistas em desenvolvimento infantil", de acordo com o slogan do canal na Espanha. Mais de 40 países transmitem hoje o sinal de pelo menos um desses canais.

Diante de uma grade infestada por conteúdos impróprios para os pequenos, a inofensiva programação desses canais foi bem recebida, como aconteceu com os Teletubbies. Bonecos de massinha, música clássica e frases como "Amarelo é o sol, como um girassol". As crianças assistem televisão sim, mas também aprendem. Todo mundo parecia estar contente com a idéia. Até o que o Ministério da Saúde Pública francês transformou-se em seu adversário.

Em 16 de abril, ele afirmou que "os fundamentos científicos sobre o desenvolvimento cognitivo e físico da criança tendem a demonstrar que os programas de televisão criados especificamente para as crianças menores não têm um efeito positivo sobre seu desenvolvimento afetivo e psicomotor. Ao contrário, os estudos disponíveis ressaltam o risco do consumo de imagens televisivas para o desenvolvimento do pensamento e da imaginação, a integração de emoções e sobretudo para o desenvolvimento psicomotor. Para desenvolver suas capacidades físicas, psicomotoras, cognitivas e afetivas, a criança deve utilizar ativamente seus cinco sentidos e apoiar-se na relação com um adulto. O ministério (...) recomenda às empresas que comercializam essas transmissões a não alegarem benefícios para o desenvolvimento das crianças que não forem demonstrados cientificamente".

O Conselho Superior do Audiovisual francês (CSA) também se envolveu no assunto. Em 22 de julho, concluiu: "O consumo de televisão por parte dos menores de três anos afeta seu desenvolvimento, aumenta a passividade, problemas de sono, agitação, falta de concentração e vício por televisão". Portanto, a partir de amanhã nenhuma rede francesa poderá "editar, difundir ou promover programas anunciados como especificamente para crianças menores de três anos".


Além disso, os canais a cabo ou de televisão digital devem informar a seus assinantes de forma "legível e acessível" que "ver televisão pode interromper o desenvolvimento de crianças menores de três anos, mesmo quando se tratam de canais dirigidos especificamente para eles".

A decisão foi um balde de água fria para o setor e preocupou muitos pais. "Esses programas não eram bons para as crianças? É possível que um programa em que um pincel ensina as cores seja negativo para uma criança pequena?

Andrew Davenport, o pai dos Teletubbies, esteve em Madri em setembro passado apresentando seu novo programa dirigido para bebês: "O Jardim dos Sonhos". Seus protagonistas são bonecos que não falam, só fazem ruídos. Tudo acontece devagar e em cada capítulo uma mesma história se repete várias vezes. O programa aborrece os adultos, mas os pequenos gostam muito.

Consultado a respeito da decisão do CSA francês, Davenport deu de ombros: "Hoje em dia, é difícil manter as crianças longe das telas. Uma série assim os ajuda a definir sua cultura e, na minha opinião, favorece o seu desenvolvimento. Evidentemente, nem todas as crianças são iguais e são os pais que têm que avaliar se a TV é boa para seu filho.

A realidade é que há muito poucos estudos sérios sobre esse tema, mas eu pessoalmente não negaria o prazer que meu neto de 18 meses sente ao assistir ao Jardim de Sonhos".

Fernando de Miguel, conselheiro delegado da Zinkia, empresa criadora do Pocoyó, reconhece que viu a resolução da França com surpresa. "Nós desenvolvemos Pocoyó com assessores educativos que trabalham diariamente com crianças das idades em questão. Levamos em conta os conceitos básicos universais de como educar uma criança e tentamos transmitir os mesmos valores da escola: os hábitos de higiene, o aprender a compartilhar e ganhar autonomia. Na minha opinião, reservar um pequeno espaço do dia para que a criança assista um programa desse tipo, que dura entre 7 e 11 minutos, não só não é prejudicial, mas também é positivo. É parte de sua formação assim como ir a um parque ver um teatro de marionetes. Todos estamos convencidos de que ver TV de forma abusiva é ruim. Não se pode deixá-los uma hora na frente da TV, nem pretender que isso substitua brincar com os adultos, trocando sorrisos".

Xavier Viza, diretor de Los Lunnis, resume: "Não sou um especialista em educação, mas se acreditasse que esses programas afetassem o crescimento educativo, eu não os faria. Cada capítulo se baseia num currículo educativo muito estrito. Hoje mesmo eliminamos de um roteiro uma cena em que um boneco se desespera e bate na mesa. Temos muito cuidado".

Qual a opinião dos especialistas sobre tudo isso? "A princípio, não tem importância que as crianças pequenas assistam televisão por um tempo muito breve, o problema é quando há exagero. E a realidade é que muitos pais estão exagerando", opina Valentín Martínez-Otero, psicólogo e pedagogo. "A brincadeira é um assunto muito sério e é um erro grave que as crianças deixem de brincar para ver televisão. Nessa idade, a brincadeira é puro exercício: manipulação de objetos e movimentos que lhe dão prazer e abrem as portas de numerosas aprendizagens. Ver TV por muito tempo pode gerar passividade, sobrepeso e obesidade infantil, além do empobrecimento cognitivo e social".

Um estudo feito pela Universidade de Seattle, nos Estados Unidos, em 2004, com 1.200 crianças menores de um ano e 1.300 menores de três, dava a entender que existe uma relação entre ver televisão nessas idades e apresentar problemas de atenção aos sete anos. Entretanto, o informe acrescentava uma infinidade de parâmetros que atenuavam esta afirmação.

"A televisão é um substituto ruim para pais que estão muito ocupados e não podem ou não querem dedicar mais tempo às crianças", explica Mariano Trillo, psiquiatra infantil. "Nessa idade, as crianças precisam interagir com adultos e aprender a se movimentar e a coordenar. Uma televisão não pode fazer isso. Não é que a televisão seja necessariamente má, mas ela está ocupando um espaço de tempo que eles deveriam compartilhar com os pais. A criança pode ver como alguém coloca os triângulos dentro de uma caixa num programa de TV, mas enquanto ela mesma não fizer isso, não vai desenvolver a própria coordenação. A televisão é muito mais um anestésico para os pais".

Gary Pope, fundador da consultoria Kids Industries, especializada em assuntos relacionados à família, opina: "Os menores de dois anos não deveriam ver televisão. Não entendo porque os franceses ampliaram a idade para três anos. O problema é que a maioria dos pais não sabe muito bem o que é bom para seus filhos. Se dizem para eles que um programa contribui para o desenvolvimento, eles o sintonizam. Deveriam se esforçar mais e não recorrer sempre à televisão".

Na Espanha, o debate não ganhou força. "Com a desatenção a tantos temas relacionados ao audiovisual infantil, isso seria desproporcional", disse De Miguel (Pocoyó). "Começando pela falta de programação dirigida para as crianças".

Manuel Cristóbal, secretário-geral do Cartoon, a Associação de Produtores de Animação Européia e diretor da Perro Verde Films (que em breve estréia o filme "O Lince Perdido") tem opinião parecida: "Na Espanha é lamentável que o horário protegido esteja tão desprotegido. É o único país europeu que não tem um sistema de controle eficaz do que é transmitido no horário infantil e que não penaliza como se deve a quem não cumpre o sistema. O código de auto-regulação sobre conteúdos televisivos e infância é uma piada".

Os entrevistados parecem concordar que o xis da questão é o tempo de televisão. O problema é que esse dado não existe. Sofres, a empresa que mede audiência, faz isso a partir dos quatro anos. Assim, ninguém sabe por certo quanta televisão, e quais programas, as crianças menores estão vendo. "O consumo televisivo por parte dos menores de três é importante e existe", diz Pablo Romero, diretor de programação da Dibital +, plataforma que transmite o Baby First na Espanha.

À margem do debate que surgiu na França, a maioria das crianças vai continuar vendo televisão, e é preferível que o façam seguindo as regras que Martínez-Otero resume: "A televisão pode ter aspectos positivos, desde que o tempo seja limitado, a criança adote uma posição adequada e os conteúdos sejam selecionados, ainda que não seja o mais aconselhável, principalmente se levarmos em conta que há outras opções e que é necessário cultivá-las desde o começo da infância". França coloca limites para os programas dirigidos para menores de três anos. Os criadores defendem sua obra como algo educativo, desde que não se abuse Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,12
    3,283
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,05
    63.226,79
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host